Edição 395 | 04 Junho 2012

A crise mexicana e os negócios da convergência digital

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Irma Portos Pérez

Os efeitos da crise no México têm sido evidentes. Ao depender crescentemente do ciclo econômico dos Estados Unidos, o que confere peculiares características dentro do modelo econômico neoliberal de tipo ortodoxo (“o mercado é o que manda”) no externo, mas no interno prevalece a proteção aos principais monopólios privados, sobretudo da comunicação, da informação e da cultura.

Esse modelo, que tem prejudicado profundamente ao tecido social e produtivo do país, vem se aplicando desde os 1990 com o objetivo central de impulsionar os grandes grupos exportadores mexicanos dentro dos quais se encontram os monopólios da comunicação e a cultura. A partir deste momento destacam os consórcios dedicados aos negócios da convergência digital, cujo epicentro e eixo das atuais disputas empresariais é entre o das telecomunicações e os meios de comunicação, destacando a TV aberta e paga, e em geral as atividades unidas ao entretenimento e ao consumo de milhões de mexicanos. Dessas se destacam as chamadas redes sociais, ativadas nos telefones celulares que hoje somam mais de 110 milhões operando no país, como resposta à queda de investimento em infraestrutura de redes para a telefonia fixa. Essa caída tem prejudicado severamente e condenado ao atraso tecnológico, econômico e de comunicação milhares de municípios e populações do espectro nacional.

A indústria de serviços de telecomunicação tem sido uma das mais favorecidas em termos de rentabilidade, pois vem concentrando sua atuação à comercialização da rede elétrica e de fibra ótica, propriedade da nação para o lucro de seus benefícios econômicos. O Estado neoliberal tem permitido o fortalecimento de uns quantos grupos empresariais, impedido e limitado à participação de outros competidores e, portanto, tem propiciado o encarecimento acelerado dos serviços de telecomunicação, além de afetar a operação e extensão de redes de telefonia fixa que levariam os serviços necessários para a comunicação de internet às regiões cada vez mais estagnadas do país.

Nessa perspectiva, a chamada economia digital que resume os resultados das atividades dedicadas à comunicação, informação e entretenimento, todas elas atividades concebidas no marco das indústrias culturais (agora em debate conceitual ante a acepção econômica neoliberal de indústrias criativas concebida no mundo anglo-saxão, especificamente na Grã-Bretanha), que, sem dúvida, têm um impacto econômico cada vez mais relevante correspondente à evolução da sociedade da informação e a economia do conhecimento e o acelerado dinamismo dos meios audiovisuais. Isso não só tem revolucionado as atividades mediáticas tradicionais (TV, rádio, cinema e imprensa) senão que a cada vez mais são aplicadas em um conjunto de indústrias produtoras de bens de consumo e de capital com a finalidade de gerar maiores margens de produtividade e ganhos.

Pode-se observar a tendência dos últimos dois anos no crescimento do setor mediático, incluindo as telecomunicações, em comparação com o desempenho da economia mexicana. Destaca o impulso do primeiro semestre nas diferentes atividades mediáticas, e sua decaída no segundo semestre de 2011, que sem dúvida refletiu o impacto negativo da crise econômica e a queda no consumo de meios, não incluindo os serviços de telecomunicação.

Sabe-se do poder econômico fruto da concentração dos principais grupos multimídia mexicanos no chamado oligopólio Televisa e TV Azteca, além da grande concentração do negócio das telecomunicações em uma empresa que foi do Estado até meados dos anos 1990: Telefones Mexicanos (Telmex). Recordemos que a empresa, agora propriedade de Carlos Slim, foi uma das mais importantes empresas do Estado mexicano, pioneira na digitalização de suas operações, que atualmente opera através de Telmex Internacional em um amplo espaço geográfico que inclui a vários países da América do Norte e do Sul. Dentre estes destaca-se o Brasil, que tem recebido fortes investimentos na construção de infraestrutura em redes fixas e a presença a cada vez maior da América Móvel, como uma das operadoras mais lucrativas do grupo Carso, propriedade do empresário Slim, que, como conglomerado, atua em diversos setores que incluem à banca e o comércio, e que de maneira recente tem dado a conhecer fortes investimentos em infraestrutura dentro e fora de México.
De maneira geral, é possível afirmar que as atividades derivadas das novas tecnologias da informação e comunicação, unidas com as atividades financeiras, oferecem uma combinação interessante para a geração de ganhos extraordinários que, ao que parece, é o que destaca do dinamismo atual dos principais investidores, favorecidos pelos governos do México neoliberal. Desde a presidência de Carlos Salinas de Gortari (1988-1994), Ernesto Zedillo (1995-2000), Vicente Fox (2000-2006), Felipe Calderón (2006-20012): todos eles são os responsáveis pelo crescimento de atividades ilícitas no México, fruto do narcotráfico, bem como da decomposição e degradação de milhares de mexicanos, fundamentalmente jovens, milhões de mexicanos que merecem um país melhor com empregos e salários dignos, respeito à diversidade de opinião e que têm saído às ruas das principais cidades clamando a regeneração do país a partir de consignas simbólicas da realidade que hoje se vive em México: “Queremos educação, Não televisão”.


ERRATA

Na coluna do Cepos da edição passada da IHU On-Line (número 394, de 28-05-2012) publicamos erroneamente o nome do autor do artigo. Ao invés de Bruno Lima Rocha, leia-se João Miguel. 

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