Edição 395 | 04 Junho 2012

O Movimento Modernista representou o “espírito da época”

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Thamiris Magalhães

Ele não se limitou apenas à arquitetura e à arte. Foi um movimento cultural global que envolvia vários aspectos: sociais, tecnológicos, econômicos e artísticos, afirmando, desse modo, a identidade de nossa cultura e representando o “espírito da época”, avalia Maria Helena Campos de Bairros

“O Modernismo esteve muito próximo da Europa no primeiro momento, sobretudo se considerarmos o movimento futurista”, diz Maria Helena Campos de Bairros, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ela, um dos manifestos de Maiakovski se chamava “Bofetada no gosto do público”, e a Semana de Arte Moderna quis ser isso, “uma bofetada”. E completa: “os grandes autores modernistas, os que celebramos até hoje como clássicos, foram aqueles que souberam conjugar o estrangeiro e o nacional de uma forma inovadora”.

Em relação à arquitetura, Maria Helena frisa que, dentre os arquitetos brasileiros, foram Oscar Niemeyer e Lúcio Costa que difundiram, mais tarde, este estilo tornando-o conhecido e aceito. “Os arquitetos modernistas buscavam o racionalismo e o funcionalismo em seus projetos caracterizados por um estilo que apresentava formas geométricas definidas, sem ornamentos, com uso de pilotis a fim de liberar o espaço sob o edifício; panos de vidro contínuos nas fachadas no lugar das janelas tradicionais; integração da arquitetura com o entorno pelo paisagismo e com as outras artes plásticas, através do emprego de painéis de azulejo decorados, murais e esculturas”, explica.

Maria Helena Campos de Bairros possui graduação em Letras pela Faculdade Porto-Alegrense de Educação Ciências e Letras, especialização em Literatura Infanto-Juvenil pela mesma faculdade, mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e doutorado em Letras pela mesma instituição.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Que lição a Semana de Arte Moderna de 1922, após 90 anos de sua realização, deixa para a cultura brasileira?

Maria Helena Campos de Bairros –
Acredito que a ideia de “lição” não era exatamente algo que os integrantes da Semana de Arte Moderna tinham em seus horizontes de expectativas. Durante os três dias (13, 15, 17 de fevereiro de 1922), ocorreram representações no Teatro Municipal de São Paulo no intuito de dar uma espécie de sacudida na intelectualidade nacional e de provocar uma explosão no marasmo das artes brasileiras. Assaltar os bastiões do passadismo, dar um golpe na velha ordem, através de uma semana de “escândalos”, foi inicialmente uma sugestão de Di Cavalcanti, que teve a adesão de outros intelectuais, artistas e escritores brasileiros. Considerando tais premissas, vale indagar o alcance da proposta e a ressonância que tais ideias têm na contemporaneidade, especialmente nos estados fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro.


IHU On-Line – De que maneira a arquitetura foi retratada durante o movimento?

Maria Helena Campos de Bairros –
A arquitetura não foi objeto inicialmente da discussão dos primeiros modernistas, embora o movimento tenha dado início a uma nova fase estética na qual ocorreu a integração de tendências que já vinham surgindo, fundamentadas na valorização da realidade nacional. A intenção principal era a do abandono das tradições que vinham sendo seguidas, tanto na literatura como nas artes. Apesar da grande repercussão que a arquitetura e a arte moderna obtiveram, vale ressaltar que o Movimento Modernista não se limitou apenas a essas áreas. Foi um movimento cultural global que envolvia vários aspectos: sociais, tecnológicos, econômicos e artísticos, afirmando, desse modo, a identidade de nossa cultura e representando o “espírito da época”.


Arquitetura

Em relação à arquitetura, o Modernismo foi introduzido no Brasil através da atuação e influência de arquitetos estrangeiros adeptos do movimento. Foi o arquiteto russo Gregori Warchavchik quem projetou a “Casa Modernista” (1929-1930), a primeira casa em estilo moderno construída em São Paulo.

Dentre os arquitetos brasileiros, foram Oscar Niemeyer e Lúcio Costa que difundiram, mais tarde, este estilo tornando-o conhecido e aceito. Os arquitetos modernistas buscavam o racionalismo e o funcionalismo em seus projetos caracterizados por um estilo que apresentava formas geométricas definidas, sem ornamentos, com uso de pilotis a fim de liberar o espaço sob o edifício; panos de vidro contínuos nas fachadas no lugar das janelas tradicionais; integração da arquitetura com o entorno pelo paisagismo e com as outras artes plásticas, através do emprego de painéis de azulejo decorados, murais e esculturas.


IHU On-Line – Em que medida a experimentação e a liberdade criadora da ruptura com o passado tiveram influência durante a Semana?

Maria Helena Campos de Bairros –
Quem definiu muito bem o legado da Semana de Arte Moderna foi Mário de Andrade, vinte anos depois. Segundo o escritor, a experimentação e a liberdade criadora estariam representadas pela ruptura das subordinações acadêmicas, pela destruição do espírito conservador e conformista e pela demolição de tabus e preceitos. Nas artes deveriam prevalecer três princípios fundamentais: direito à pesquisa estética, atualização da inteligência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional.


IHU On-Line – Qual a relação do Modernismo brasileiro com a vanguarda europeia?

Maria Helena Campos de Bairros –
O Modernismo esteve muito próximo da Europa no primeiro momento, sobretudo se considerarmos o movimento futurista. Um dos manifestos de Maiakovski se chamava “Bofetada no gosto do público”, e a Semana de Arte Moderna quis ser isso, uma bofetada. Mas os grandes autores modernistas, os que celebramos até hoje como clássicos, foram aqueles que souberam conjugar o estrangeiro e o nacional de uma forma inovadora.


IHU On-Line – Quais eram as peculiaridades das artes plásticas modernistas?

Maria Helena Campos de Bairros –
A expressão da modernidade brasileira manifestou-se sob a égide do progressivo desenvolvimento paulista com os marcos – Exposição de 1917 de Anita Malfatti e A Semana de 22 – que ganharam significado de movimento aglutinador do sentimento de inquietude da juventude intelectual e artística brasileira que desejava “destruir” o passadismo parnasiano e acadêmico que dominava o ambiente das primeiras décadas do século.


Sentimento de progresso

Nesta época surge, em todo o mundo, o sentimento de progresso, de avanço e de desenvolvimento, que incrementariam o sentido das nacionalidades, acirrado após a Primeira Grande Guerra. Todos se apraziam de um “espírito moderno” – expressão de origem europeia que se torna corriqueira entre a intelectualidade artística brasileira após as famosas conferências de Graça Aranha e Mário de Andrade. Há, assim, uma incipiente atitude de abertura que operará grandes mudanças nos planos das ideias, sejam essas artísticas, políticas ou sociais. Amplia-se a concepção do mundo no mesmo momento em que se revaloriza a identidade nacional, num nativismo conscientizado e crítico diferenciado daquele que se verificava no romantismo plástico ou literário.

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