Edição 395 | 04 Junho 2012

Semana de Arte Moderna, nova concepção de arte

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Thamiris Magalhães

Muito mais do que uma tendência passageira, a Semana de Arte Moderna instaurou uma nova e perene concepção de arte, tão rica e tão profícua que seus efeitos estão longe de se esgotarem, pontua Alessandra Bittencourt Flach

“Não acredito que houvesse grande preocupação desta primeira geração de modernistas em firmar raízes, construir um legado”, percebe a professora Alessandra Bittencourt Flach, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. E continua: “Tinham mais interesse em abalar a opinião das pessoas, fazer refletir. Todavia, a permanência e o amadurecimento dos ideais modernistas se refletiram, sem dúvida, nas artes plásticas, na literatura e até na música, mas como um ganho colateral. Os anseios dos artistas modernistas foram muito mais modestos do que os efeitos de seus discursos e de suas obras”.

Segundo a docente, a Semana de Arte Moderna, por si só, foi um acontecimento de proporções limitadas: “restringiu-se a uma elite intelectual do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, causou perplexidade e irritação a muitos participantes e não se firmou a partir de um grupo sólido e com propósitos em longo prazo”. Por outro lado, 90 anos depois, continua sendo vista como “o marco de uma nova e inovadora estética brasileira, o símbolo de um projeto que deu visibilidade mundial a nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Portinari, Tarsila, da mesma forma que abriu caminho para seus sucessores, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, os tropicalistas Caetano e Gil, entre tantos outros”.

Alessandra Bittencourt Flach é doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É licenciada em Letras (português, latim, literatura) e possui mestrado em Literatura Brasileira pela mesma instituição. É professora de Língua Latina e Língua Portuguesa na Unisinos.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Qual o principal legado deixado pela Semana de Arte Moderna?

Alessandra Bittencourt Flach –
A Semana de Arte Moderna deu visibilidade a uma série de inquietações e anseios de intelectuais e artistas brasileiros, que, inspirados nos movimentos de vanguarda europeus, buscaram despertar o Brasil daquilo que consideravam ser uma inércia e um conformismo no campo das expressões artísticas. O que, a princípio, foi um movimento de contestação acabou se tornando o embrião de inovações nas artes e no próprio conceito de brasilidade.


Arte vista de forma dessacralizada

A Semana foi o ponto de confluência de tendências que, desde a década de 1910, já vinham se delineando: das influências cubistas e expressionistas na arte de Anita Malfatti até o hibridismo estético das obras de Oswald de Andrade. A partir desse movimento em torno das atividades modernistas é que, pela primeira vez, a arte passa a ser vista de forma dessacralizada, ou seja, aproxima-se do cotidiano, do homem comum, expressa a poesia do cotidiano. Em vez da Antiguidade Clássica parnasiana, a trivialidade do dia a dia recebe o interesse do artista. Veja-se, a propósito, o “Poema tirado de uma notícia de jornal”, de Manuel Bandeira. A experimentação formal (o verso livre talvez sendo a maior aquisição nesse sentido) e temática possibilitaram não só novos usos da linguagem como também deram visibilidade a um Brasil até então desconhecido dos próprios brasileiros, na medida em que a linguagem coloquial, por exemplo, é elevada ao status de arte literária. A modernidade, as máquinas, o barulho, a cidade, o exotismo, a cor, o trabalho, a terra, tudo isso é lembrado na arte modernista, não de forma estereotipada, mas como “expressão” do olhar singular do artista.


Abaporu, de Tarsila do Amaral

O famoso quadro de Tarsila do Amaral, Abaporu (em tupi, “o homem que come gente”), é um ícone dessa experimentação, uma vez que brinca com a perspectiva, ao retratar, com cores fortes, um homem de cabeça pequena e mãos e pés exageradamente grandes.


A concepção e a percepção de arte nunca mais foram as mesmas

Seja nas artes plásticas, na literatura, predominantemente na poesia, ou na música, a Semana deixou sua marca ao romper com a ideia de que existam modos e temas predeterminados para a criação artística. Graça Aranha, em seu discurso de abertura da Semana, defende: “O que hoje fixamos não é a renascença de uma arte que não existe. É o próprio comovente nascimento da arte no Brasil, e, como não temos felizmente a pérfida sombra do passado para matar a germinação, tudo promete uma admirável ‘florada’ artística. E, libertos de todas as restrições, realizaremos na arte o Universo. A vida será, enfim, vivida na sua profunda realidade estética”. Sem dúvida, depois do que esse discurso anteviu, a concepção e a percepção de arte nunca mais foram as mesmas.


IHU On-Line – O que faltou, em seu ponto de vista, para o movimento? Ou ele foi completo?

Alessandra Bittencourt Flach –
Se considerarmos os modernistas da geração de 1922 como um grupo de intelectuais que buscou discutir e concretizar uma nova e mais abrangente expressão da arte, a partir das influências vanguardistas da Europa, que refletiam, entre outros aspectos, a experimentação da linguagem, a ruptura com modelos preconcebidos e o microcosmo como tema de arte, é possível dizer que foi uma empresa bem-sucedida. De fato, a partir desses intelectuais e artistas, houve maior abertura à experimentação artística e à criação livre, sem amarras a um único e rígido modelo. Todavia, como um movimento coeso e doutrinário, no sentido de estabelecer modos de fazer, ficou muito longe de atingir esse objetivo. Por ser inicialmente uma arte de contestação, buscou-se mais a ruptura com modelos passadistas. Não havia unidade entre os artistas, no sentido de buscar construir um futuro juntos; queriam mesmo é se fazer ouvir quanto a suas reivindicações por uma arte nova, uma arte brasileira, sem muito discernimento a respeito de qual seria o produto disso tudo. Acreditavam numa arte plural, antropofágica, capaz de assimilar e transformar a tradição e as novas tendências. Daí a riqueza e a diversidade de seu legado. Muitas obras, na ânsia de seus autores por explorar os novos “ismos”, ficaram restritas ao contexto de sua época, mais como um exemplo do que foram as experimentações vanguardistas. Outras fazem parte do cânone literário brasileiro, lidas e estudadas até nossos dias, com alto grau de universalidade e qualidade estética, praticamente desvinculadas do Movimento de 1922.


IHU On-Line – Quais eram os principais anseios dos escritores e poetas modernistas? Acredita que foram alcançados?

Alessandra Bittencourt Flach –
Os três dias de debates, concertos e exposições que constituíram a Semana tinham, inicialmente, o objetivo de promover discussões, entre os jovens intelectuais do Brasil, sobre os rumos da nossa cultura, em especial sobre o comportamento passivo diante da arte importada. É emblemático terem escolhido a comemoração dos 100 anos da Independência do Brasil, que se lembrava no ano de 1922, para a realização do evento. De certa forma, havia a necessidade de uma independência ideológica e cultural ou, antropofagicamente — para usar um termo notório no contexto em questão —, adaptar e conformar essa cultura à realidade brasileira. A célebre afirmação de Aníbal Machado, “Não sabemos definir o que queremos, mas sabemos discernir o que não queremos”, define bem o espírito do grupo: havia uma unidade em relação ao desejo de abominar uma arte formular, uma arte sem sentimento, sem liberdade, “contra todos os importadores de consciência enlatada”, segundo Oswald de Andrade. No entanto, era ainda nebulosa (ou inexistente) a consciência das implicações de todo esse movimento. Pela heterogeneidade do grupo, pelas diferenças ideológicas e pelos enfoques diferentes desses artistas, é possível mesmo afirmar que os cabeças do evento não tinha interesse em constituir um movimento, ou uma escola artística com ideais modernistas. Buscaram desacomodar valores e padrões até então bastante enraizados em nossa cultura. Os rumos seguidos pelos integrantes do grupo redundaram em uma dispersão de formas e criações.


Os modernistas e o fazer refletir

Não acredito que houvesse grande preocupação desta primeira geração de modernistas em firmar raízes, construir um legado. Tinham mais interesse em abalar a opinião das pessoas, fazer refletir. Todavia, a permanência e o amadurecimento dos ideais modernistas se refletiram, sem dúvida, nas artes plásticas, na literatura e até na música, mas como um ganho colateral. Os anseios dos artistas modernistas foram muito mais modestos do que os efeitos de seus discursos e de suas obras. A Semana, por si só, foi um acontecimento de proporções limitadas: restringiu-se a uma elite intelectual do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, causou perplexidade e irritação a muitos participantes e não se firmou a partir de um grupo sólido e com propósitos em longo prazo. Por outro lado, 90 anos depois, continua sendo vista como o marco de uma nova e inovadora estética brasileira, o símbolo de um projeto que deu visibilidade mundial a nomes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Portinari, Tarsila, da mesma forma que abriu caminho para seus sucessores, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, os tropicalistas Caetano e Gil, entre tantos outros.


IHU On-Line – Acredita que o movimento conseguiu renovar e transformar o contexto artístico e cultural urbano da época?

Alessandra Bittencourt Flach –
Na ocasião de sua realização, a Semana de Arte Moderna, como um programa aberto ao público, teve grande repercussão, muito mais pelos embates e pelas polêmicas, pela rejeição às proposições “futuristas”, do que propriamente pelos ideais defendidos. A imprensa, na época, deu boa visibilidade ao evento, em especial pela força e respeitabilidade de que dispunha o já consagrado Graça Aranha, um dos idealizadores da Semana.


Repercussão de um depoimento de Monteiro Lobato

Outro fator de relevância na época foi a repercussão de um depoimento de Monteiro Lobato sobre Anita Malfatti. Anita participou da Semana expondo seus quadros cubistas-expressionistas. Anos antes (1917), Lobato escrevera uma crítica ao seu estilo, o que foi reavivado depois do boom da Semana, não sem uma grande dose de sensacionalismo. Na verdade, Lobato até elogia a artista, ainda que demonstre certo incômodo com seu estilo. Isso foi suficiente para Lobato tornar-se, de forma equivocada, o grande “inimigo” dos modernistas, logo ele que foi um dos maiores defensores da modernização do país.


Villa-Lobos e o seu terno e chinelo

Outro caso isolado e, aparentemente, sem importância também atraiu olhares sobre os modernistas de 1922: na terceira noite de apresentações, 17 de fevereiro, Villa-Lobos apresenta-se ao público de terno e chinelo. Bastou essa atitude, associada à ideia que muitos tinham de que esses “jovens intelectuais” eram anarquistas e fascistas, para a apresentação do músico tornar-se um palco de afrontas. Só depois da repercussão dos fatos é que se soube que nada tinha de contestador o ato de Villa-Lobos, apenas um problema com um calo que o impedia de calçar sapato fechado.


Poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira

Também a recepção do poema “Os sapos”, de Manuel Bandeira, lido por Menotti del Picchia na segunda noite, em clara objeção aos poetas parnasianos, foi algo que teve grande impacto, pela importância da escola parnasiana e de seus representantes. Tais evidências criaram certa imagem dos modernistas como aqueles que renegavam o passado, o país e o sentido da arte, quando nada disso se sustentava.


Um evento de proporções significativas

Em um primeiro momento, houve cautela e ceticismo. Com o amadurecimento estético e a notoriedade dos artistas e com os desdobramentos políticos, sociais e culturais da primeira metade do século XX, aquele “episódio” pouco compreendido na época foi ressignificado e contextualizado como um evento de proporções significativas em todo o país. Mesmo não alterando de forma plena o contexto da época, a Semana reuniu os principais nomes e tendências que nortearam boa parte do século XX. Uma outra visão estética ganhou forma e consistência a partir da Semana, o que, de certa forma, teve implicações em outras áreas da sociedade, para além de uma discussão restrita ao campo das artes.


IHU On-Line – Em que aspectos movimentos como o Futurismo, o Cubismo e o Expressionismo influenciaram os artistas brasileiros modernistas durante a Semana?

Alessandra Bittencourt Flach –
Para entender como foi a repercussão das vanguardas europeias no Brasil, é preciso conhecer o contexto em que isso desenvolveu. Claro que os modernistas, apesar do seu inegável legado, só obtiveram êxito e reconhecimento porque seus ideais estéticos se propagaram em um período de grandes inovações e novidades, em todos os âmbitos, não só nas artes. Desde Baudelaire e Mallarmé já se podia perceber certa evolução formal e temática da poesia. Aí já estão as principais indicações do que seria a base das vanguardas: o confronto entre o microcosmo e o macrocosmo, a experimentação linguística, a reconfiguração das teorias artísticas e, até, filosóficas.


Grandes movimentos vanguardistas – Futurismo, Expressionismo e Cubismo

Os grandes movimentos vanguardistas – o Futurismo de Marinetti (1909), o Expressionismo de Munch, Van Gogh e outros (1910) e o Cubismo de Apollinaire e Picasso (1913) –, que se iniciaram antes da I Guerra, por seu espírito contestador e vibrante, serviram de inspiração para movimentos pós-guerra que tentaram expressar artisticamente o estranhamento e o absurdo da guerra e de seus desdobramentos (o Dadaísmo é um bom exemplo disso). Nomes como Graça Aranha, Lasar Segall , Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho e Alberto de Oliveira, entre outros, encarregam-se de divulgar no Brasil a existência e a importância de uma arte com tendências modernas. Diz Graça Aranha: “A inteligência impávida, libertadora e construtora, animada do espírito moderno que vivifica o mundo, transformará o Brasil”. Ainda que o Futurismo tenha sido renegado pelos modernistas (muito pela relação com o Fascismo), as concepções de “desvairio” e o tenicismo da linguagem são contribuições suas, assim como os ideais de ousadia e agitação do homem moderno. O Expressionismo foi responsável pela valorização da subjetividade e da constituição da obra não como reflexo da realidade, mas uma impressão desta, com a valorização do inconsciente, da intimidade. Já ao cubismo atribui-se todo o jogo de hibridismo formal, linguístico e composicional, sem continuidade e lógica aparentes. Todas essas vanguardas davam vasão a um espírito de modernidade (esprite nouveau) e agradavam ao gosto do público ávido por novidades.


IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Alessandra Bittencourt Flach –
É interessante destacar que, na história da literatura brasileira, sempre houve forte influência do que se fazia na Europa, e isso, claro, graças à relação com Portugal e à pobre urbanização do país até o início do século XX. Até então notamos uma oscilação entre os períodos literários, que ora apresentavam uma estética realista e de rigidez formal, ora uma valorização da subjetividade, do sonho, do símbolo, um período sempre rompendo com o outro e retomando aspectos já consagrados em outras épocas. Assim é na sucessão Renascimento/Barroco/Neoclassicismo/Romantismo/Realismo. A partir do Modernismo, não se voltou mais atrás. Isso talvez possa ser explicado pelo fato de que é próprio desse movimento a assimilação e o sincretismo de toda e qualquer expressão de arte. Não há limites para criar, não há expectativas. A contestação e o estranhamento são, por mérito dos artistas da geração de 1922, reações legítimas e esperadas diante da arte. Também se percebe a atualidade de temas e formas: permanecem igualmente atuais e instigantes as abordagens do cotidiano e do trivial de maneira poética, o interesse pelo comum; a liberdade de gêneros e formas de criação; o verso livre; a experimentação com a linguagem; o hibridismo (de temas, de formas, de discursos); a sugestibilidade em detrimento da materialidade. O conceito de “pós-modernidade”, ainda que indique algo para além do moderno, compartilha com os primeiros modernistas certo grau de subjetividade, de questionamento, de incertezas, de relativismo. Nesse sentido, muito mais do que uma tendência passageira, a Semana de Arte Moderna instaurou uma nova e perene concepção de arte, tão rica e tão profícua, que seus efeitos estão longe de se esgotar.

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