Edição 395 | 04 Junho 2012

Poderíamos imaginar a arte brasileira do século XX sem o modernismo?

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Thamiris Magalhães

Praticamente tudo o que produzimos em arte e literatura depois da Semana de 1922 teve o Modernismo como referência, até quando se tentava questioná-lo

Os modernistas buscavam firmar no cenário nacional uma arte nova, antenada com as vanguardas europeias, mas sem copiá-las, ou seja, sem cair no mesmo problema que tinha a antiga arte brasileira, cujo modo de operação costumava tomar o que vinha de fora como modelo, lembra Pedro Duarte de Andrade, em entrevista, por e-mail, à IHU On-Line. Os modernistas, segundo ele, tinham em vista inserir o Brasil no que Mário de Andrade chamaria de “concerto das nações cultas, mas, para tanto, precisariam ainda redescobrir o que era o próprio Brasil, para terem algo próprio com o que contribuir naquele concerto”. E recorda: “Lembremos que a Semana foi marcada propositalmente para um ano já significativo do país, o do centenário de sua independência política, quando deixamos de ser colônia. O diagnóstico modernista era que, a despeito disso, permanecíamos colonizados culturalmente, importando de fora padrões tradicionais aos quais devíamos obediência”. Com a Semana de Arte Moderna, conta, buscava-se “atualizar a nossa situação cultural a partir de um contato mais livre com os países ditos civilizados”.

Pedro Duarte de Andrade é professor Adjunto do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UniRio. É mestre e doutor em Filosofia pela PUC-Rio, onde atua na Pós-Graduação Lato-Sensu (Especialização em Arte e Filosofia e Especialização em Filosofia Antiga). Foi professor pesquisador na Brown University (EUA) em 2004 e 2006. É autor do livro “Estio do tempo: romantismo e estética moderna” (Zahar, 2011). 

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – De que maneira você avalia a Semana de Arte Moderna de 1922?

Pedro Duarte de Andrade – De maneira positiva. É claro que a Semana de 1922 teve suas contradições e seus problemas, mas sua herança é altamente positiva. Não é preciso considerar que ali se deu, de uma hora para outra, a modernização cultural do país para se admitir a sua importância decisiva em nossa história. Nem é necessário ignorar que fora dali também havia arte moderna no Brasil para se reconhecer a concentração de energia do evento. A Semana de 1922 é um marco, um símbolo. Foi o momento em que se cristalizou para o Brasil um movimento que se formava em São Paulo, mas com preocupação nacional, de ataque à tradição passadista pelo espírito de inovação das vanguardas modernas. Tal ataque fez algumas vítimas inocentes, mas o objetivo era nobre e necessário: afirmar o que Mário de Andrade chamaria de direito permanente à pesquisa estética, ou seja, o direito à criação livre na arte. Isso deixou a cultura brasileira em um estágio de liberdade mais amplo do que havia antes. O tempo passou, e a consagração do ideal modernista foi acompanhada também pela acusação de que ele seria uma “ditadura do novo”, pois exigia obras originais, diferentes das passadas. No entanto, se a palavra ditadura pode ser aplicada à arte, ela se encaixa melhor à situação do Brasil antes do Modernismo do que depois. O Modernismo foi, sem dúvida, mais liberação do que prisão.

IHU On-Line – A Semana de Arte Moderna foi um momento de ruptura? Em que sentido?

Pedro Duarte de Andrade – Sem dúvida. Não fosse assim, a Semana jamais poderia ser moderna, pois o que dá à arte sua modernidade é o caráter de ruptura. Certas obras expostas na Semana até podiam ser ainda convencionais, mas o sentido geral e objetivo era criticar a tradição acadêmica que orientava a arte. Para dar dois exemplos: na poesia, rompia-se com a obrigação parnasiana de métrica e rima, em nome do verso livre; e, nas artes plásticas, rompia-se com a figuração naturalista da realidade, em prol das experimentações expressionistas, cubistas, surrealistas. Se atentarmos para os precedentes do evento, esse ponto fica claro, pois a Semana de 1922 é a conclusão de uma briga que se arrastava desde 1917, quando houve a famosa exposição de pinturas em estilo moderno de Anita Malfatti. Elas foram atacadas por Monteiro Lobato, em nome de uma arte atemporal, eterna. Os modernistas, que ainda nem tinham esse nome, juntaram-se para defender Anita e, sobretudo, o direito de existência de uma arte moderna, que mudasse com o progresso da história e não tivesse que seguir sempre os mesmos padrões de beleza. Nesse aspecto, o Modernismo brasileiro alinhou-se ao espírito vanguardista. Entretanto, houve uma particularidade em nosso caso, ao mesmo tempo rica e paradoxal. Como a nossa tradição era incipiente, por se tratar de um país ainda novo, os modernistas brasileiros, se rompiam com a tradição hegemônica, construíam uma outra. Rompiam com o Parnasianismo e o Simbolismo, por um lado, mas recuperavam o legado do Romantismo e do Barroco, por outro. Isso, contudo, ocorre em uma fase já tardia do Modernismo, depois de 1922. Durante a Semana, a ênfase era na ruptura com o passadismo, a ponto de a chamarem – empregando um termo que causou enorme polêmica – “futurista”.

IHU On-Line – De que maneira o movimento mudou o rumo da literatura e da arte brasileiras?

Pedro Duarte de Andrade – De duas maneiras principais, ao menos. Em primeiro lugar, conquistando um estado de pleno direito à criação livre, fora de regras e prescrições, em constante busca do novo. Em segundo lugar, definindo uma relação participativa da arte brasileira com o resto do mundo, pela qual se destacava a nossa singularidade a partir da incorporação das informações estrangeiras. Não é possível imaginar o que seria a arte brasileira do século XX sem o Modernismo e a Semana de 1922, tal a sua centralidade em nossa história. Tanto assim que, na década de 1970, Hélio Oiticica ainda queria, em suas palavras, uma superantropofagia, filiando-se explicitamente à proposta modernista de Oswald de Andrade. Não foi diferente com a Tropicália. Praticamente tudo o que produzimos em arte e literatura depois da Semana de 1922 teve o Modernismo como referência, até quando se tentava questioná-lo. Especialmente, o enlace entre arte e Brasil é um legado modernista definitivo para a cultura que foi produzida no país depois.

IHU On-Line – O que, de fato, os artistas brasileiros do modernismo buscavam com a realização da Semana de Arte Moderna? 

Pedro Duarte de Andrade – Buscavam firmar no cenário nacional uma arte nova, antenada com as vanguardas europeias, mas sem copiá-las, ou seja, sem cair no mesmo problema que tinha a antiga arte brasileira, cujo modo de operação costumava tomar o que vinha de fora como modelo. Os modernistas tinham em vista inserir o Brasil no que Mário de Andrade chamaria de concerto das nações cultas, mas, para tanto, precisariam ainda redescobrir o que era o próprio Brasil, para terem algo próprio com o que contribuir naquele concerto. Lembremos que a Semana foi marcada propositalmente para um ano já significativo do país, o do centenário de sua independência política, quando deixamos de ser colônia. O diagnóstico modernista era que, a despeito disso, permanecíamos colonizados culturalmente, importando de fora padrões tradicionais aos quais devíamos obediência. Com a Semana de Arte Moderna, buscava-se atualizar a nossa situação cultural a partir de um contato mais livre com os países ditos civilizados.

IHU On-Line – Muitos afirmam que a Semana em si não teve grande importância em sua época, mas com o tempo, ganhando valor histórico ao projetar-se ideologicamente ao longo do século. Como você analisa essa informação? 

Pedro Duarte de Andrade – Claro que a Semana de 1922 teve grande importância em sua época. E claro também que essa importância aumentou ao longo do tempo. Os próprios modernistas começaram a forjar uma história da cultura brasileira em que tinham o papel protagonista.

Entretanto, acho que, se a Semana de 1922 pôde se transformar em um marco, foi porque sua proposta estética abriu o horizonte posterior da arte moderna brasileira e porque alguns dos que participaram daquele evento confirmaram-se como grandes artistas e críticos, com obras instigantes, complexas, nas mais diversas áreas. Embora certas obras apresentadas na Semana de Arte Moderna não fossem assim tão modernas, mas ainda um pouco conservadoras, o evento chocou, sendo até vaiado às vezes pelo público arraigado ao gosto clássico. Imediatamente, houve repercussão, até internacional, pelo que se propunha e pelo que se negava ali. Mesmo os artistas que não se filiaram depois ao Modernismo, como Graciliano Ramos, desfrutaram da liberdade literária alcançada graças à negação que o movimento fez das normas estéticas tradicionais.

IHU On-Line – Houve alguma lição deixada pelo movimento em relação à cultura no Brasil? Que lição foi essa? 

Pedro Duarte de Andrade – Curioso o emprego da palavra “lição” nessa pergunta, pois Mário de Andrade, em uma famosa conferência de 1942, também a usou para falar do movimento modernista. Comemorando os vinte anos da Semana de Arte Moderna, Mário contava todas as conquistas de si e de seus amigos para a cultura brasileira. Entretanto, ao fim, entregava também o que seria o seu fracasso: ter deixado de lado uma maior interferência política e social na vida coletiva. Mário acusa de individualista o movimento que ele mesmo liderou. E concluía afirmando que os modernistas não deveriam servir de exemplo a ninguém, mas podiam servir de lição. Penso, no entanto, que a maior lição do Modernismo para a cultura brasileira é aquela que Mário de Andrade, ao escrever isso, continuava a dar. É a lição da inquietação crítica, autocrítica. Essa é a grande herança modernista, até para que, se estivermos de fato numa era pós-moderna, evitemos o conformismo acomodado que pode surgir no mundo globalizado.

IHU On-Line – Podemos afirmar que a Semana de Arte Moderna sofreu influências políticas e econômicas? Em que sentido? 

Pedro Duarte – Sim. Não sei, aliás, o que não sofre influências políticas e econômicas em todo o mundo. A Semana de 1922 foi financiada por Paulo Prado e seus amigos, ou seja, pela elite paulista – em parte burguesa, em parte aristocrata – que desejava afirmar-se como moderna culturalmente, para além da seara econômica em que já despontava no Brasil com o comércio do café. Em outras palavras, os modernistas fizeram alianças políticas de compromisso, a fim de garantir o evento que planejavam. São Paulo, chamada de Locomotiva do Brasil, assumia-se assim também nos trilhos das artes, dando força ao mito do bandeirante como centro do progresso nacional. Entretanto, acho que, mais interessante do que observar as influências políticas na Semana de Arte Moderna, seria destacar a influência política da Semana, não no sentido partidário ou institucional, mas no sentido de apontar novas possibilidades de relação entre o Brasil e o exterior, entre a arte e o povo. Isso chegou a ter repercussões concretas, às vezes polêmicas, como no posterior envolvimento de Mário de Andrade no governo de Vargas, em nome de um projeto alicerçado na cultura popular e na sua preservação.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado? 

Pedro Duarte de Andrade – Todos esses apontamentos fazem parte de uma pesquisa que se encontra em curso, e que logo será publicada no meu livro A palavra modernista: vanguarda e manifesto, pela coleção Modernismo+90, coordenada por Eduardo Jardim e editada pela Casa da Palavra.

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