Edição 393 | 21 Mai 2012

Uma obra basilar na reflexão de Lima Vaz

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Márcia Junges

VAZ, Henrique Cláudio de Lima. Contemplação e dialética nos diálogos platônicos (São Paulo: Loyola, 2012) Tese de doutorado do pensador brasileiro vem a público seis décadas após sua apresentação. Um dos motivos pelos quais a obra permaneceu inédita é que o filósofo acreditava que não haveria editores interessados em publicá-la no Brasil de 1954, afirma Elton Vitoriano Ribeiro

Originalmente escrita em latim escolástico e apresentada na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, na Itália, em 1952, vem a público a tese de doutorado do filósofo jesuíta Henrique Cláudio de Lima Vaz. Intitulada Contemplação e dialética nos diálogos platônicos (São Paulo: Loyola, 2012), a obra é singular por “ser o primeiro texto de fôlego de Lima Vaz e que influenciou profundamente toda sua reflexão posterior”, analisa Elton Vitoriano Ribeiro, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line.

Graduado em Filosofia e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte, é mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio com a dissertação A questão da intersubjetividade no pensamento ético filosófico de H. C. Lima Vaz. Na Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma, cursou doutorado em Filosofia, com a tese Entre Charles Taylor e Alasdair MacIntyre: Reconhecimento ético e virtudes na filosofia de Henrique C. de Lima Vaz, publicada sob o título Reconhecimento ético e virtudes (São Paulo: Loyola, 2012). É professor na FAJE, no Departamento de Filosofia.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Contemplação e dialética nos diálogos platônicos é uma obra inédita de Lima Vaz . Qual é a sua maior singularidade?

Elton Vitoriano Ribeiro –
O livro que está sendo lançado agora é a tradução para o português da tese de doutorado de Lima Vaz. A tese foi escrita em latim e apresentada na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, na Itália, em 1952. Em um depoimento sobre seu percurso intelectual, escrito em 1982 (em Cristianismo e História. Palácio, C. São Paulo, Loyola, 1982, p. 420), Lima Vaz afirma: “A tese, escrita em latim escolástico e que, à falta de outro, acabou recebendo o título meio barroco de De Contemplatione et Dialectica in Platonis Dialogis”, ou seja, Contemplação e dialética nos diálogos platônicos.
Neste mesmo depoimento, Lima Vaz afirma que a partir de 1948 começou a dedicar-se totalmente ao estudo dos diálogos platônicos, preocupando-se, principalmente, com o problema das relações entre intuição e dialética das ideias nos textos de Platão. A maior singularidade deste trabalho, em minha opinião, é o de ser o primeiro texto de fôlego de Lima Vaz e que influenciou profundamente toda sua reflexão posterior.


IHU On-Line – Por que só está sendo publicada somente agora? Há outros livros inéditos de Lima Vaz?

Elton Vitoriano Ribeiro –
Por dois motivos. Primeiro, porque o próprio Lima Vaz nunca se interessou em traduzir e publicar este texto. Uma parte das ideias desenvolvidas na tese foi publicada em um artigo intitulado “A dialética das ideias no Sofista”, no livro Ontologia e História, de 1968. No depoimento anteriormente citado Lima Vaz afirma que esta obra “permaneceu inédita, (...) porque a sua publicação dificilmente encontraria editores no Brasil de 1954”. Um segundo motivo é que a publicação deste texto é fruto de um esforço grandioso que está sendo feito pelo Padre João Mac Dowell SJ na organização do Memorial Padre Vaz, na Faculdade Jesuíta (FAJE) de Belo Horizonte, MG. Este memorial conserva o acervo documental referente à vida e obra de Lima Vaz. O memorial reúne a produção de Lima Vaz, obras publicadas, manuscritos e textos inéditos, bem como fitas de vídeo e áudio de cursos e conferências ministrados por Lima Vaz. O memorial conserva documentos importantes como, por exemplo, um curso sobre a Fenomenologia do Espírito de Hegel, ministrado em 1985; bem como algumas palestras e cursos ministrados entre 1982 e 1992 sobre o Idealismo alemão, a Essência em Kant e Hegel¸ a Ciência da Lógica de Hegel, a Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Hegel, Filosofia antiga e Antropologia Filosófica.


IHU On-Line – Como se imbricam a contemplação e a dialética nos diálogos platônicos?

Elton Vitoriano Ribeiro –
Todo o texto de Lima Vaz quer ser uma resposta satisfatória a essa questão. Basicamente, é possível afirmar que para Platão a contemplação como atividade do filósofo é a visão do mundo das essências. Dialética é o caminho pelo qual a alma se eleva das aparências sensíveis às realidades inteligíveis, ou ideias. Assim, a dialética é um instrumento de busca da verdade. É possível mesmo dizer que é um percurso dialógico onde o filósofo utiliza o discurso para chegar à percepção das essências e para conhecer a ordem da realidade. Por isso, para Platão existe um “caminho dialético” (República, 533c-d) onde o filósofo, por meio da inquirição ou busca, orienta a atividade intelectual com vistas à solução de uma dificuldade, conhecida como aporia, que se apresenta na reflexão ou no discurso. Citando novamente o depoimento biográfico de Lima Vaz sobre o escopo de sua tese: “Se se pensa que o caminho dialético, na condição terrestre da alma, se desenvolve no tempo, vê-se que o problema se coloca no terreno das relações entre o a priori da Ideia, dada na reminiscência, e os métodos dialéticos de descoberta da própria Ideia, os quais têm lugar na situação temporal da alma, isto é, na História”. Curioso notar que este caminho dialético Lima Vaz o aprofundará, muitos anos depois, na direção de uma ontologia da pessoa humana (Antropologia filosófica I e II) e de uma ontologia do agir humano (Introdução à ética filosófica I e II). Quer dizer, na direção de uma reflexão, um discurso, sobre o ser humano e seu agir no mundo com os outros, do ponto de vista de sua inteligibilidade radical.


IHU On-Line – Lima Vaz afirmava que meditar sobre o Ser é “o mais grave e sério empenho na vida”. Em que medida isso se expressa nessa obra?

Elton Vitoriano Ribeiro –
A questão ontológica é fundamental para a filosofia, assim como a entendia Lima Vaz. Ele explorou profundamente este grave e sério labor em toda sua vida filosófica. Explorou a partir de temas que foram fundamentais para sua reflexão, a saber, o mundo, o sujeito, a história, a cultura e a transcendência. O mundo como, cada vez mais, mundo técnico. Não mais um mundo dado, mas construído pela racionalidade empírico-formal e que cresce gigantescamente tomando conta dos mais variados âmbitos da vida humana. O sujeito que ele compreendia como autoexpressividade. Ou seja, sujeito que existe como expressão e que se exprime, seja nas estruturas de corpo próprio, psiquismo e espírito do seu ser, seja nas relações de objetividade, intersubjetividade e transcendência. Relações que possibilitam o ser humano a abrir-se à realidade, constituir sua identidade e realizar-se em sua identidade profunda de pessoa humana. História e Cultura que, a partir do problema fundamental da intersubjetividade, pensa o tema do ethos, da comunidade humana, do direito, do político, em suma, da vida boa, com e para os outros, em instituições justas. Finalmente, o tema da transcendência, de grande importância para Lima Vaz, especialmente para as sociedades contemporâneas. Para ele, é a esse tema que todos os outros convergem. Ele é o fundamento do mundo, do sujeito, da comunidade ética, do sentido da história. É neste tema que Lima Vaz aprofunda genialmente a questão do Absoluto presente como Verdade, como Bem e como Ser a todo ato de inteligibilidade e liberdade.


IHU On-Line – Rubens Sampaio afirmou que Lima Vaz “reinventou os métodos dialéticos platônico e hegeliano”. Essa constatação também é perceptível em Contemplação e dialética nos diálogos platônicos?

Elton Vitoriano Ribeiro –
Em Metafísica e modernidade – método e estrutura, temas e sistema em Henrique Cláudio de Lima Vaz, o professor Sampaio aprofunda brilhantemente essa questão. No entanto, neste livro Lima Vaz ainda não havia feito sua viagem pessoal ao continente hegeliano. A aproximação de Lima Vaz à filosofia hegeliana começou em 1970 com seus cursos sobre Hegel ministrados na UFMG. Lima Vaz disse que nesta época ele percebeu, ao começar a estudar Hegel, uma profunda afinidade entre suas preocupações filosóficas e aspectos da filosofia hegeliana que ele, posteriormente, desenvolveu em seus escritos. Penso que é possível dizer que já neste livro Lima Vaz inicia seu percurso rumo a uma reflexão mais aprofundada sobre o caminho dialético na filosofia que depois o levará até Hegel, e mais tarde à sua própria reinvenção, ou melhor, sua apropriação pessoal do método dialético. Mas não deixa de ser curioso perceber que no depoimento já citado outras vezes Lima Vaz argumenta, em uma leitura retrospectiva, ser possível perceber uma primeira e ainda tímida influência hegeliana: “Mas a referência a Hegel aparece apenas nas últimas linhas da minha tese. Busquei interpretar a nóesis em Platão com um resultado intrinsecamente ligado ao caminho – ou ao método – dialético, e não como uma intuição inefável e quase mística” (Palácio, C. Cristianismo e história. São Paulo, Loyola, 1982, p.420).


IHU On-Line – Como avalia a recepção da filosofia vaziana?

Elton Vitoriano Ribeiro –
A filosofia de Lima Vaz vem sendo cada vez mais estudada. Após dez anos de sua morte, vários estudiosos já começam a debruçar-se sobre seus textos, buscando perceber seu valor filosófico e suas intuições para os mais diversos problemas, tanto filosóficos como teológicos. Alguns autores como Rubens Sampaio, Marcelo Perine , Marcelo Aquino e eu mesmo, aprofundamos alguns aspectos do pensamento de Lima Vaz. No final do mês de maio deste ano, na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, a doutoranda Cláudia Maria Rocha defenderá sua tese de filosofia intitulada Metafísica e ética: uma introdução à Metafísica de Lima Vaz como resposta ao niilismo contemporâneo. Mas, também, começam a surgir estudos que tentam relacionar o pensamento de Lima Vaz com outros autores contemporâneos de valor. Este foi meu escopo em meu livro Reconhecimento ético e virtudes, ao aproximar Lima Vaz de Charles Taylor e Alasdair MacIntyre . Por fim, temos que mencionar o excelente trabalho do professor João MacDowell com o Memorial Padre Vaz, e do professor Delmar Cardoso como o “Grupo de Estudos Vazianos”, ambos sediados na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE em Belo Horizonte-MG.


IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Elton Vitoriano Ribeiro –
Como já afirmei outras vezes, para mim o pensamento de Lima Vaz é como uma catedral. Catedral que, numa exposição de grande rigor e beleza formal, à maneira de uma catedral gótica feita de conceitos, armada em articulações simétricas e elegantes, nos expõe a existência naquilo que ela possui de mais essencial. E se, como vivemos os cristãos, entramos numa catedral para louvar a Deus e saímos para servir aos irmãos, mutatis mutandis, entramos no pensamento de Lima Vaz para contemplar o absoluto e a existência humana, e saímos para assumir responsavelmente nossa existência como os outros no mundo.



Leia mais...

Elton Vitoriano Ribeiro
já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:
* A dimensão comunitária de Lima Vaz, Taylor e MacIntyre. Edição 374 da revista IHU On-Line, de 26-09-2011



Baú da IHU On-Line

A IHU On-Line já publicou outras edições cujos temas se relacionam com a temática do legado filosófico de Henrique Cláudio de Lima Vaz. Confira:


* Henrique Cláudio de Lima Vaz. Um sistema em resposta ao niilismo ético. Edição 374 da revista IHU On-Line, de 26-09-2011

* Sábio, humanista e cristão. Edição 19 da revista IHU On-Line, de 27-05-2002

* A política em tempos de niilismo ético. Edição 197 da revista IHU On-Line, de 25-09-2006

* Fenomenologia do espírito de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. 1807-2007. Edição 217 da revista IHU On-Line, de 30-04-2007

* Platão, a totalidade em movimento. Edição 294 da revista IHU On-Line, de 25-05-2009

* Niilismo e relativismo de valores. Mercadejo ético ou via da emancipação e da salvação? Edição 354 da revista IHU On-Line, de 20-12-2010

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