Edição 393 | 21 Mai 2012

“A esquerda sempre foi desenvolvimentista”

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Francisco de Oliveira

O capitalismo entrou definitivamente na fase do monopólio e do imperialismo, sobredeterminado pela importância do capital financeiro. É este quem dá as regras, e não mais um estado desenvolvimentista, defende Francisco de Oliveira

“Redistribuir renda (...) não será prioridade, por mais que Bolsa-Família e agora o programa Brasil Carinhoso da presidente Dilma tentem maquiar: o capitalismo brasileiro suga a todos os recursos disponíveis e não se deterá para redistribuir renda. Só uma grande força social e política poderia obrigá-lo a isso, e essa força não existe: estão todos muito contentes e eufóricos, achando que, afinal, encontramos o caminho do desenvolvimento”, escreve Francisco de Oliveira ao ser entrevistado. Ele respondeu no texto que publicamos a seguir.

“O desenvolvimentismo em debate” foi o tema de capa da IHU On-Line número 392, de 14-05-2012, que está disponível em http://bit.ly/JwfkfW.

Francisco de Oliveira formou-se em Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. É professor aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo – USP.

Confira o comentário.

De certo modo, a esquerda sempre foi desenvolvimentista, mas subordinando tudo à mudança para o socialismo. Depois das formulações da Cepal  e de Celso Furtado , a esquerda brasileira tornou-se desenvolvimentista no sentido que veio a tomar na América Latina. Mas esqueceu da questão do socialismo. Houve um ganho e uma perda nessa trajetória. Não é mais possível fazer programas ao estilo JK , pois eleger prioridades significa discriminar entre diversas forças sociais e políticas. E o Estado brasileiro não tem mais essa força. O capitalismo brasileiro já é muito complexo para permitir discriminações facilmente identificáveis, como no tempo de JK. O capitalismo entrou definitivamente na fase do monopólio e do imperialismo, sobredeterminado pela importância do capital financeiro. É este quem dá as regras, e não mais um estado desenvolvimentista. Lula realizou este programa, que segue sendo a da presidente Dilma: reforço dos grandes grupos nacionais, sua projeção internacional - a Petrobrás é a sexta maior empresa mundial - o BNDES bombando dinheiro para muscular os grandes grupos brasileiros. Há um intenso trade-off entre Estado e os grandes grupos. Esse é o programa desenvolvimentista contemporâneo. Não é o de minha preferência, mas é o que as forças políticas e sociais escolhem e implementam. Nesse contexto, redistribuir renda, embora seja uma necessidade social premente, não será prioridade, por mais que Bolsa Família e agora o programa Brasil Carinhoso da presidente Dilma tentem maquiar: o capitalismo brasileiro suga a todos os recursos disponíveis e não se deterá para redistribuir renda. Só uma grande força social e política poderia obrigá-lo a isso, e essa força não existe: estão todos muito contentes e eufóricos, achando que, afinal, encontramos o caminho do desenvolvimento. É essa minha posição.

Leia mais...

>> Francisco de Oliveira já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

“18 de brumário” de Luís Inácio Lula da Silva. Artigo publicado na IHU On-Line número 386, de 19-03-2012;

China e Índia: estrelas ascendentes do capitalismo mundial. Entrevista publicada na revista IHU On-Line número 385, de 19-12-2011;

Capitalismo monopolista. Uma política econômica arriscada e perigosa. Entrevista publicada na revista IHU On-Line número 356, de 04-04-2011;

O lulismo como uma regressão. Entrevista publicada na IHU On-Line número 352, de 29-11-2010;

Classe trabalhadora perde força com a centralização de capitais. Publicada na IHU On-Line número 322, de 22-03-2010.

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