Edição 198 | 02 Outubro 2006

A interculturalidade medieval

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IHU Online

Para o filósofo argentino Alfredo Culleton, a intelectualidade medieval propiciou um “diálogo entre as culturas e os saberes”. Sua principal manifestação aconteceu “na criação das universidades leigas e autônomas, nas magníficas bibliotecas monásticas e muçulmanas, no centro de tradutores de Toledo e alcança o seu momento máximo na Divina Comédia de Dante”. A interculturalidade desse período é a sua maior riqueza intelectual, menciona Culleton nesta entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Culleton é graduado em Filosofia pela Universidade Regional no Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com a tese Fundamentação Ockhamiana do Direito Natural. Atualmente leciona nos cursos de Graduação e Mestrado em Filosofia na Unisinos.
A entrevista mais recente concedida pelo filósofo à IHU On-Line foi na edição 160, de 17-10-2005, junto com o historiador Nilton Mullet Pereira, intitulada Em nome de Deus: um retrato de época, comentando aspectos do filme apresentado no Ciclo de Estudos Idade Média e Cinema, promovido pelo IHU.

IHU On-Line – Qual considera a maior riqueza intelectual da Idade Média?

Alfredo Culleton
– Sem dúvida, a interculturalidade, que se vê na enorme diversidade de modos de viver o cristianismo, um cristianismo que incorpora elementos do platonismo oriundos do norte da África, elementos do aristotelismo introduzidos pelos árabes que ocuparam a Península Ibérica por longos séculos e contribuíram muitíssimo com a cultura ocidental. Do império Romano o cristianismo recebe toda a tradição jurídica e administrativa, do judaísmo, um longo e fecundo diálogo na busca de conciliar as verdades de razão e as de fé. A intelectualidade medieval propicia esse diálogo entre as culturas e os saberes, manifesta-se na criação das universidades leigas e autônomas, nas magníficas bibliotecas monásticas e muçulmanas, no centro de tradutores de Toledo e alcança o seu momento máximo na Divina Comédia de Dante .

IHU On-Line – De que forma filosofia e política se cruzam no pensamento de Ockham e qual é a influência recebida do aristotelismo?

Alfredo Culleton
– Para Ockham  a política pode ser pensada em categorias racionais e de adequação às aspirações e aos modos próprios de viver de cada povo. Ele resgata os aspectos mais pragmáticos da política de Aristóteles , entendendo, por exemplo, que não há um único regime de governo válido, mas um mais adequado para cada circunstância, e que a vontade de Deus se manifesta pelo povo, inclusive pelas mulheres, o que é uma inovação no século XIV.

IHU On-Line – Como o pensamento de Ockham se expressa em Hobbes?

Alfredo Culleton
– Ockham privilegia o valor do indivíduo sobre os universais e o da vontade sobre o de um certo ou errado atemporal. Estes são ao menos dois aspectos que vemos presentes na obra de Hobbes  que entende a constituição do Estado como um ato da vontade dos homens como indivíduos.

IHU On-Line – Qual era a conexão das mulheres com a filosofia na Idade Média?

Alfredo Culleton
– A filosofia na Idade Média não é uma ciência delimitada e masculinizada como se entende modernamente até Hannah Arendt . Na Idade Média, filosofia é todo saber de origem racional, mais ou menos sistemático, e neste sentido encontramos inúmeras mulheres participando ativamente das discussões filosóficas, teológicas e políticas, como Heloísa , Clara de Assis , Teresa de Ávila , que é doutora da Igreja, as fundadoras das ordens mendicantes femininas, Marie de Champagne , a Branca de Castela , que presidiu o reino da França por quase duas décadas até o seu filho Luís IX alcançar a maioridade, até as lendárias Papisas. Esses são alguns exemplos de mulheres letradas e de notável saber filosófico, teológico e político, sem falar nas mulheres que curavam e aconselhavam, conhecidas posteriormente como bruxas.

IHU On-Line – Em que consistia o filósofo como ideal de homem no século XIII?

Alfredo Culleton
– A intelectualidade da Europa central do século XIII recebe com tanto entusiasmo a proposta filosófico-científica de Aristóteles que muitos começam a aspirar como ideal de homem o filósofo em detrimento do ideal cristão da visão beatífica; ou começam a entender a visão beatífica, ou a contemplação divina face a face como a chance de compreender filosoficamente o universo e entender o ser sem mediações.

IHU On-Line – Como no Guia dos Perplexos, de Maimônides, baseado na filosofia aristotélica, concilia Judaísmo e razão?

Alfredo Culleton
– O Guia dos Perplexos é um texto orientado a responder a preocupação de um jovem religioso perplexo diante da aparente contradição entre verdade revelada e verdade científica ou racional. Maimônides  entende que a verdade para ser tal deve ser uma, e a revelação não é outra coisa que um modo de ser, um modo de se apresentar a verdade. Para ele verdade deve ser procurada por todos os meios, e a verdade, seja ela revelada ou de razão, deve estar a serviço do homem e não dos poderes ou instituições.

IHU On-Line – Qual a importância da filosofia árabe na Idade Media?

Alfredo Culleton
– A cultura árabe faz uma enorme contribuição ao mundo oriental na Idade Média, em campos tão variados como medicina, arquitetura, álgebra, arte, culinária e filosofia no sentido mais estrito, ao introduzir os textos de Aristóteles no cristianismo medieval. Até a entrada dos árabes o cristianismo era fundamentalmente platônico. A maioria dos pensadores árabes, como Avicena , Averróes  e judeus como Gersônides  e Maimônides são médicos e filósofos. Estes pensadores querem saber e consideram todo saber legítimo; a nação muçulmana na Andaluzia, no sul da Península Ibérica, no século XIV tem uma biblioteca de mais de quinhentos mil volumes, centros de estudo e tradutores especializados que tornam acessíveis não só os textos de Aristóteles como o esforço de tornar compatíveis o saber grego com a tradição religiosa.

IHU On-Line – Como poderia ser caracterizada uma fundamentação racional para os direitos humanos em Suárez?

Alfredo Culleton
– Este jesuíta espanhol publica em 1612 uma importantíssima obra de caráter filosófico-jurídica sob o titulo De legibus (Sobre a Lei), no qual entre, outras coisas, defende argumentativamente algumas teses de grande relevância: a) o direito exige uma fundamentação racional; b) essa racionalidade estende os direitos para além das fronteiras nacionais; c) esses direitos das gentes, daqueles que não pertencem, são naturais mas ao mesmo tempo devem ser positivados. Sobre Francisco Suárez  ministramos, juntamente com o professor Vicente Barretto , um minicurso  durante o Seminário Internacional Os Jesuítas e a Globalização.

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