Edição 198 | 02 Outubro 2006

Roma, alimento e paralisia da Idade Média

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IHU Online

A Roma antiga exerceu um papel paradoxal no surgimento da Idade Média. Ela foi seu alimento e sua paralisia, disse o medievalista francês Jacques Le Goff em entrevista exclusiva à IHU On-Line. “A Idade Média tomou as artes liberais da Antigüidade, mas construiu uma nova filosofia impregnada de teologia: a escolástica”, frisou. A entrevista foi concedida por e-mail, e ditada por Le Goff à sua assessora, Mme. Christine Bonnefoy, que a transcreveu e enviou as respostas à IHU On-Line.

Nascido em 1924, em Toulon, França, Le Goff tem saúde frágil, mas mantém-se intelectualmente ativo. Pertencente ao supra-sumo da elite intelectual francesa, estudou na Escola Normal Superior de Paris, centro de formação dos quadros do magistério francês, depois de ter completado os primeiros anos escolares no não menos famoso Liceu Louis-le Grand, onde também estudou Sartre.

Le Goff é considerado um dos maiores medievalistas do mundo e pertence à velha tradição francesa que une a história à greografia. Inspirado por Fernand Braudel e Maurice Lombard, tornou-se uma das figuras-chave da escola dos Annales por ter conseguido integrar à reflexão sobre o espaço e o tempo a dimensão humana.  Em 1972, sucedeu Braudel na École des Hautes Études em Sciences Sociales onde permaneceu até 1977, deixando espaço para François Furet. De suas inúmeras obras, destacamos:
O imaginario medieval. Lisboa: Estampa, 1994; Os intelectuais na Idade Média. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995; São Francisco de Assis. São Paulo: Record, 2001; A civilização do Ocidente medieval. EDUSC: São Paulo, 2005, traduzida para o português por José Rivair de Macedo e Dicionário temático do Ocidente medieval. Bauru/São Paulo: EDUSC/Imprensa Oficial do Estado, 2002, organizado em parceria com Jean-Claude Schmitt e trauzido por Hilário Franco.

IHU On-Line – O senhor afirma em A civilização do Ocidente Medieval que a Idade Média nasceu das ruínas do mundo romano. Por que Roma foi “seu alimento e sua paralisia”?

Jacques Le Goff
– Eu penso que Roma foi o alimento e a paralisia do mundo medieval, porque a cultura antiga junto com a Bíblia foi a base da cultura medieval, porém o constante cuidado dos homens da Idade Média em ressuscitar a Antigüidade freou bastante sua evolução para a modernidade.

IHU On-Line – A convergência do mundo romano com o bárbaro criou o mundo medieval. Que tipo de sociedade emerge dessa fusão? Que traços do mundo clássico e germânico persistiram? Quais seriam as continuidades e rupturas que podem ser verificadas na passagem da Antigüidade  para a  Idade Média?

Jacques Le Goff
– O politeísmo cedeu ao monoteísmo. Instituições essenciais do mundo romano desapareceram, como, por exemplo, as termas, o circo e o teatro. A escravidão, sem desaparecer, foi abandonada e se desfez lentamente. A sociedade se ruralizou com um vigoroso surgimento das cidades entre os séculos X e XIII. A Idade Média tomou as artes liberais da Antigüidade, mas construiu uma nova filosofia impregnada de teologia: a escolástica. Tardia no Ocidente, a promoção da Virgem Maria favoreceu a promoção da mulher. A difusão do moinho nascido na Antigüidade permitiu um vivo crescimento econômico.

IHU On-Line – Qual foi o papel da Igreja na construção da sociedade medieval? Com base em que a Igreja construiu a noção de Diabo que sobrevive até os dias de hoje?

Jacques Le Goff
– O Diabo provém do desenvolvimento do personagem apresentado no Novo Testamento como tentador de Jesus e da continuidade ou do ressurgimento das crenças populares num chefe maléfico dos demônios.

IHU On-Line – Quais seriam as principais conseqüências da crise da Cristandade, ocorrida nos séculos XIV e XV?

Jacques Le Goff –
A crise da cristandade nos séculos XIV e XV se manifestou por uma diminuição da população, pelo desencadear das guerras e das violências, mas também pelo desenvolvimento do espírito crítico.

IHU On-Line – Por que razão Boécio, Cassiodoro, Isidoro de Sevilha e Beda podem ser chamados de “fundadores” da Idade Média?

Jacques Le Goff
– Boécio , Isidoro , Cassiodoro de Sevilha  e Beda  podem ser chamados de fundadores da Idade Média porque se apoiaram na filosofia e na cultura antigas para criar uma França cristã.

 

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