Edição 392 | 14 Mai 2012

IHU Repórter

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Thamiris Magalhães

Alegre, sempre disposta no trabalho e dinâmica. Essa é a professora de matemática da Unisinos, Maria Adélia Friedrich. Há 39 anos trabalhando nesta instituição, Madélia como é chamada pelos colegas, desenvolve trabalhos na área de educação a distância e foi a responsável pela criação de projetos inovadores, como o Vestibulink, no ano de 1998, espaço virtual onde se disponibilizava as questões do vestibular da Universidade de anos anteriores. “Hoje podemos encontrar inúmeros espaços virtuais semelhantes, mas na década de 90 as iniciativas eram tímidas nessa direção e o que encontrávamos não era tão específico como o ambiente do Vestibulink”, diz, orgulhosa, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line. Em seu tempo livre, gosta de caminhar, estar com os amigos e namorar em Canela. Conheça um pouco mais suas vivências.

Origem - Nasci em Novo Hamburgo, em 29 de maio de 1950. Sou filha de Antonio Cunha (falecido em 1978) e Nelsa Heberle Cunha, atualmente com 95 anos. Sou casada com Geovane Felippe Geleuzzo, cardiologista em Novo Hamburgo, sou mãe da Carolina (33 anos), médica especialista em UTI pediátrica na cidade de Salvador/Bahia e da Luciana (31 anos) psicóloga em Porto Alegre. Meu pai foi trabalhador na área de curtimento de couros e minha mãe foi costureira de calçados, atividades comuns em nossa cidade na década de 30 do século passado, quando ambos começaram a trabalhar formalmente. Não cheguei a conhecer meus avós, nem paternos, nem maternos, e senti falta deles quando criança, tanto é que pedi “emprestado” os avós de uma amiguinha. Meu pai era um verdadeiro alquimista na cozinha, aprendizado feito com vovó que foi uma exímia cozinheira de um Hotel de Novo Hamburgo. Desta avó tenho a herança do nome. Posso considerar que, para os padrões de hoje, nossa família era numerosa, pois minha mãe teve cinco filhos. Atualmente, todos os quatro irmãos são falecidos. 

Maria Adélia por Maria Adélia – Sempre aprendendo é o meu lema. Com a vida aprendi: Que nascer é muito bom; Que dar a luz é melhor ainda; Que família é o bem maior; Que ser mãe é uma dádiva de Deus; Que ouvir os outros é o melhor remédio; Que sinceridade às vezes machuca; Que ser justa é difícil; Que ensinar é uma delícia; Que aprender dá prazer; Que gastamos a vida inteira para conhecermos a nós mesmos; Que nunca conhecemos uma pessoa de verdade; Que confiança não é artigo de luxo, e sim de sobrevivência; Que grandes amigos existem; Que a natureza nos acalma; Que as diferenças somam; Que amores eternos podem acabar; Que o "nunca mais" nunca se cumpre; Que o "para sempre" sempre acaba; Que minha família, com suas múltiplas diferenças, está sempre aqui quando preciso; Que vou sempre gostar de me surpreender, seja com os outros ou comigo mesma; Que sou muito feliz com o que tenho; Que posso cair e posso levantar infinitas vezes... Enfim, que ainda tenho muito para aprender! Toda descoberta transformadora vem com o aprendizado, do entendimento de determinados assuntos e comportamentos. No meu entender aprender sempre foi e será a missão das pessoas. Quando estamos preparados para aprender, estamos preparados para viver. Viver com felicidade.

Formação - Cursei o primário, hoje Ensino Fundamental, na Escola Dom Pedro II e o secundário na Escola Santa Catarina de Novo Hamburgo. No colégio 25 de Julho fiz os três anos do curso científico. O Ensino Médio era, neste período, dividido em dois cursos: o clássico e o científico. Os alunos que pretendiam cursar faculdade na área de ciências humanas se dirigiam para o clássico onde a carga horária se concentrava nas disciplinas de português, inglês, história e literatura. O científico era para aqueles que tinham maior afinidade na área de ciências exatas, isto é, que se preparavam para ser engenheiros, administrador e, como eu, professora de matemática! No currículo do científico, a física, a química e a matemática tinham destaque. Tive ótimos professores de matemática neste período, mas quem tornou mais clara minha intenção de seguir o caminho desta ciência foi uma professora do “Santa”, a irmã Firmínia. Desde então esta ciência me fascina. Em 1975, fiz um curso de Especialização (lato sensu) em Lógica e Metodologia Científica focada na aplicabilidade prática dos seus conceitos, procurando, desta forma, melhorar minha atuação como professora. Hoje, sou professora na área de ciência e tecnologia, ministrando disciplinas de matemática e desenvolvendo projeto na área de educação a distância.

Vestibular - No início de 1969 fiz vestibular na então Faculdade de Ciências e Letras de São Leopoldo, que em 31 de julho daquele ano passou a ser Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. A escolha: Licenciatura em Física. Não havia na época duas Licenciaturas - Matemática e Física – mas éramos preparados para lecionar física, matemática e desenho geométrico como consta na carteira do Ministério de Educação e Cultura que ainda guardo com muito orgulho. 

Academia - No início de 1973 recebi o convite para lecionar uma disciplina de Matemática na Unisinos. Com muita garra e coragem, aceitei e assim começava minha carreira na Instituição.

Mestrado - Neste mesmo ano, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - lançou um mestrado em ciência da computação e, por já estar envolvida com a área, me interessei em fazê-lo. Eu havia no ano anterior feito um curso de linguagem de programação na Faculdade de Engenharia da Universidade e gostei muito. Incentivada pelo então Chefe de departamento de Matemática, professor Sérgio Congli Gomes, me inscrevi e fui selecionada. No final do primeiro semestre tive que tomar uma decisão que me fez abandonar o curso: aceitei a proposta da Unisinos de trabalhar praticamente em tempo integral na universidade. Posteriormente, mais experiente e também mais madura optei  pelo mestrado em Semiótica, em 1994, para investigar este emanharado de significados e significantes que permeiam o discurso em sala de aula no processo de ensino e aprendizagem. A escolha pela linha de pesquisa em cognição e teoria da informação certamente tem até hoje colaborado para o engajamento em projetos desenvolvidos na área de educação a distância. 

Unisinos, para além da docência - Com o passar do tempo, fui agregando à docência desafios administrativos. A formação de professora não contempla funções administrativas, mas com boa vontade e com o sempre presente auxílio dos mais experientes, fui chefe de departamento, coordenadora de cursos de extensão, membro de grupo editorial da revista da universidade e membro do grupo de professores encarregados de estudar as novas tecnologias. Espaços como LEI (Laboratório de Educação e Informática), Nute (Núcleo de Tecnologias Educacionais), Infotechne (inserido no Programa Gênesis, que visava a introdução das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs) na Educação), incentivados pela instituição, são responsáveis pelo trabalho extraclasse desenvolvido atualmente. O interesse na área de TI sempre se deu na direção da melhoria do ensino e da aprendizagem, foco da profissão de professora.

Um projeto inovador - Com o pensamento voltado para o uso da tecnologia a favor do processo de ensino aprendizagem, no ano de 1998 desenvolvi o Vestibulink - um espaço virtual onde se disponibilizava as questões do vestibular da Universidade de anos anteriores, com o acréscimo dos comentários emitidos para cada item das questões que eram de múltipla escolha. Estes comentários eram criados pelo grupo de professores que elaboravam as questões de cada área contemplada pelo concurso. Hoje podemos encontrar inúmeros espaços virtuais semelhantes, mas na década de 90 as iniciativas eram tímidas nessa direção e o que encontrávamos não era tão específico como o ambiente do Vestibulink. Não posso deixar de aproveitar o espaço para agradecer aos colegas que durante cinco anos colaboraram com o projeto. 

Nem só trabalho! - Nessas quatro décadas vividas com intensidade dentro do campus, tenho guardado na memória muitos momentos de alegria e não poderia deixar de destacar um momento inesquecível que vivemos, no ano de 1999, em que, nós, professores da área de ciência e tecnologia, elaboramos e encenamos a peça A Estranha Morte de Carmosina Fragoso. Participaram do teatro os professores Anibal Cardoso (autor do texto), Ana Maria Tagliari, Vera Maria dos Santos Alves, Ari Ricardo Goetze, Odisnei Galarraga, Maria Cristina Kessler e eu. Foi uma experiência ímpar, eu era a Carmosina Fragoso de 92 anos que morre e perambula pelos aposentos da casa. 

Teatro e sexta feira - Nós, da área de “exatas”, temos algo peculiar: não somos apenas colegas de trabalho, somos um grande grupo de amigos. Todas as sextas-feiras à noite, na hora do intervalo, um professor é responsável por levar o lanche e fazemos uma grande confraternização na sala. Nossas sextas-feiras acabam se tornando bastante divertidas. E isso, pelo que percebo, é peculiar do nosso grupo. 

Lazer - Caminhar, estar com os amigos, escutar música e namorar em Canela.

Livro - O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas, de  Leonard Mlodinow (Editora: Jorge Zahar, 2009). Nesta obra, o autor aborda conceitos de antigos matemáticos famosos e os aplica no mundo atual. De uma forma engraçada, mostra como a estatística e a visão analítica determinam aspectos importantes em sua vida.

Religião - Cristã Católica Apostólica Romana. 

Sonho - Ver todos felizes.

IHU - Um espaço aberto onde todos podem colaborar e ao mesmo tempo aprender. 

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