Edição 392 | 14 Mai 2012

A importância da indústria para o desenvolvimento no Brasil

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

“Nem FHC, nem Lula, tampouco Rousseff até agora esclareceram qual o Brasil que têm ou tinham em mente para além de alguns slogans não muito informativos”, aponta Fernando Cardim

A política econômica do governo atual, na visão do professor da UFRJ, Fernando Cardim, é desenvolvimentista, pelo menos “em espírito”. Porém, ele reitera que “a política econômica aplicada ainda é principalmente reativa, defensiva, mais voltada para apagar incêndios”. Segundo ele, “a política desenvolvimentista deveria perseguir a transformação estrutural da economia brasileira, mas é preciso determinar que estrutura se quer atingir, quais são suas grandes linhas”.

Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, Fernando Cardim destaca que “o essencial da Cepal, de que economias subdesenvolvidas devem ser entendidas a partir do comportamento da demanda agregada, como ensinou Keynes, e de especificidades da estrutura da oferta, permanece o ponto de partida para qualquer corrente desenvolvimentista”.

Fernando Cardim de Carvalho é mestre em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Economia pela Rutgers, State University of New Jersey. É consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor considera que a política econômica do governo atual é desenvolvimentista?

Fernando Cardim - Em espírito, eu diria que sim. Mas a política econômica aplicada ainda é principalmente reativa, defensiva, mais voltada para apagar incêndios. Uma política desenvolvimentista efetiva requer uma definição clara de objetivos, que não se limitem a coisas como “um país justo” ou algo assim. Sem a definição clara de objetivos não se podem definir instrumentos apropriados para alcançar esses objetivos. A política desenvolvimentista deveria perseguir a transformação estrutural da economia brasileira, mas é preciso determinar que estrutura se quer atingir, quais são suas grandes linhas. Dou um exemplo: nós perseguimos desde o final dos anos 1980, com maior ou menor entusiasmo, mas com uma persistência que só foi arranhada recentemente, a liberalização dos movimentos de capitais internacionais, desmantelando controles de capitais. Por outro lado, quer-se defender o setor industrial brasileiro. Em grande medida, não são objetivos compatíveis. Qual é a prioridade do governo nessa matéria? Por quê? Há pequenos abalos da liberalização de capitais, que são menores do que o escândalo que o sistema financeiro faz sobre eles e defende-se a indústria através de medidas ad hoc. Isso não é estratégia. Nem FHC, nem Lula, tampouco Rousseff até agora esclareceram qual o Brasil que têm ou tinham em mente para além de alguns slogans não muito informativos. 

IHU On-Line - Qual o papel da taxa de câmbio e da indústria em relação a se pensar um modelo de desenvolvimento para o Brasil?

Fernando Cardim - É quase impossível imaginar desenvolvimento no Brasil sem uma indústria forte, ampla e diversificada. Países pequenos têm apenas a opção da especialização, porque não têm escala para sustentar um setor industrial competitivo. Não é nosso caso. Não são serviços que nos permitirão nos desenvolver, criar uma força de trabalho preparada, produtiva e flexível, e uma estrutura econômica minimamente autônoma e sólida. Nesse quadro, a taxa de câmbio é fundamental e é por isso que o dilema entre liberalização da conta de capitais e o apoio ao desenvolvimento industrial pode ser adiado indefinidamente. A liberalização tem levado a uma apreciação cambial suicida. É preciso escolher, mas para isso é preciso saber aonde se quer chegar.

IHU On-Line - Qual a atualidade do debate entre desenvolvimentistas e liberais no Brasil do século XXI?

Fernando Cardim - De uma forma ou de outra o debate entre os que defendem uma ação forte do Estado e os que propõem a preeminência das decisões privadas é o tema central da macroeconomia desde que Keynes inventou a disciplina. Esse debate se manifesta de diversas formas, uma delas sendo o que opõe os desenvolvimentistas aos liberais. Esse debate vai existir sempre até porque a prova do pudim (ou seja, o que importa é o que vem na colher) mostra que modelos de economia planejada centralmente se transformaram em pesadelos burocráticos (além de serem todos totalitários politicamente), marcadas pela ineficiência e pelo desperdício, e os modelos que mais se aproximam do liberalismo extremo são também pesadelos (muitos dos quais, como o Chile de Pinochet ou a Argentina de Martinez de Hoz , também regimes ditatoriais) que acabam sempre em desmoronamento causado por suas próprias insuficiências. Como combinar, e em que grau, e em que forma, a ação estatal com a decisão privada, eis a questão. E esse debate não terminará nunca.

IHU On-Line - Quais os principais pontos que marcam a trajetória do pensamento desenvolvimentista no Brasil e na América Latina?

Fernando Cardim - Há um grande ponto de partida indiscutível, que foi a contribuição da Cepal e de seus economistas, como Raul Prebisch e Celso Furtado, para ficar apenas nos que todo mundo conhece. O essencial da Cepal, de que economias subdesenvolvidas devem ser entendidas a partir do comportamento da demanda agregada, como ensinou Keynes , e de especificidades da estrutura da oferta, permanece o ponto de partida para qualquer corrente desenvolvimentista. É preciso atualizar suas proposições para considerar mudanças na economia internacional, nas economias desenvolvidas e nas próprias economias subdesenvolvidas, especialmente com a diferenciação no que se costumava classificar de “periferia” das chamadas economias emergentes, mas Prebisch e Furtado continuam sendo a inspiração central para o desenvolvimentismo.

IHU On-Line - Que elementos realmente contribuíram para a construção e legitimação da ideologia nacional-desenvolvimentista em nosso país?

Fernando Cardim - Essa é uma questão muito complexa para ser tratada aqui e escapa ao meu campo de competência. A legitimação política e ideológica de propostas de ação envolve muitos elementos. É possível ser desenvolvimentista em sistemas politicamente abertos, como no tempo do presidente Kubitschek , ou em ditaduras militares, como no tempo do general Geisel . Do mesmo modo, é possível ser extremadamente liberal sob ditaduras militares, como no caso de Pinochet e de Martinez de Oz, ou em regimes politicamente abertos, como na Argentina de Menem  e Cavallo. A resposta adequada a essa questão envolve a consideração de muitas dimensões adicionais à econômica, e isso está além da minha capacidade.

IHU On-Line – Em sua opinião, o desenvolvimentismo latino-americano se aproxima mais do keynesianismo e da economia do desenvolvimento anglo-saxônica, ou com o nacionalismo econômico e o anti-imperialismo?

Fernando Cardim - Como em muitas outras áreas, o “desenvolvimentismo” é um conceito omnibus, que engloba posições que podem ser muito diversas. O que eu discuti até aqui é uma versão obviamente apoiada em Keynes. Há várias outras, naturalmente, que se apoiam em pressupostos diversos. O que me parece ter sido a corrente mais influente, mais importante e ainda hoje mais frutífera de reflexão sobre o desenvolvimento econômico é, como disse acima, a da Cepal. Prebisch foi um dos introdutores do keynesianismo na América Latina, e muita gente no Brasil teve seu primeiro contato com teses keynesianas através do estudo da Formação econômica do Brasil, de Furtado. Depois vieram críticas principalmente, mas não exclusivamente, de marxistas que propuseram outras possibilidades, que chegaram a ser, como a teoria da dependência, influentes em algum momento. Pessoalmente, essas alternativas me interessam menos, mas essa é naturalmente uma avaliação pessoal.  

Leia mais...

>> Fernando Cardim de Carvalho já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line, disponíveis na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br).

“Criou-se uma moeda europeia, mas não um estado europeu”. Entrevista publicada na edição 330, de 24-05-2010, disponível em http://migre.me/45AqV

As controvérsias da política econômica brasileira. Entrevista publicada na edição 338, de 09-08-2010, disponível em http://migre.me/45Aml

Câmbio continua sendo maior desafio do governo brasileiro. Entrevista publicada na edição 356, de 04-04-2011, disponível em http://bit.ly/i2nIpu

Crise global: mais do que apenas especulação financeira. Entrevista publicada na edição 372, de 05-09-2011, disponível em http://bit.ly/oU1vsC

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição