Edição 391 | 07 Mai 2012

IHU Repórter

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Thamiris Magalhães

“Me considero uma pessoa exigente. Entendo que devemos encarar as coisas com rigor, profundidade. Repugna-me a superficialidade, as aparências, não mergulhar a fundo nas questões”. Assim se define o professor de Direito José Alcides Renner, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line. Renner trabalha há 40 anos na Unisinos e diz que foi nela que aprendeu muitas coisas. “Devo a esta universidade grande parte do que sou. Comecei nela em 1972 e tive aqui mestres que me ensinaram muito. Além de diversos professores nas aulas, conheci pessoas inigualáveis, jesuítas modelares, mas vigorosos e corajosos, como o Pe. Frantz, segundo reitor da instituição. Inclusive foi ele quem realizou a cerimônia de meu casamento”, diz, animado. Conheça um pouco mais sua história.

Origem – Nasci no dia 26 de dezembro de 1951, em Salvador do Sul, numa localidade chamada Campestre Baixo. Moro em São Leopoldo com minha esposa, Adelaide. Temos dois filhos. O Maurício (31), jornalista, e o Vicente (29), advogado, único que mora conosco e é assessor de juiz. Meu pai, Vendelino, tem 86 anos e mora em Campestre, interior de Salvador do Sul. Minha mãe, Celita, é falecida. Somos uma família numerosa. Sou o segundo de dez filhos, todos vivos.  

Auto definição – Me considero uma pessoa exigente. Entendo que devemos encarar as coisas com rigor, profundidade. Repugna-me a superficialidade, as aparências, inclusive na política, não mergulhar a fundo nas questões. Como um bom descendente da cultura germânica, considero-me um sujeito conservador, no sentido de preservar o que temos, melhorando, paulatinamente, sem grandes saltos e revoluções. Não sou alguém que quer derrubar tudo e começar do zero. 

Seminário - Fui seminarista dos jesuítas em Salvador do Sul até 1969. Entrei com doze anos, acolhido por um jesuíta admirável: o Pe. Guido Kuhn. Depois, estive em Florianópolis, no Colégio Catarinense, como interno, em 1970. Em 1971, vim para São Leopoldo. 

Ingresso na Unisinos - Trabalhei durante pouco mais de um ano na Fábrica de armamentos Amadeu Rossi e em 22 de maio de 1972 fui admitido na Unisinos como técnico, na função de auxiliar administrativo. Em 1994, além desse contrato de técnico administrativo, também fui contratado como professor. O contrato de técnico foi rescindido em 2006 e continuei apenas como professor até hoje.  Além de professor e auxiliar administrativo, exerci os cargos de Chefe da Seção de Ingresso e Matrícula, Administrador de dados e procurador da Universidade (assessor jurídico, de 1990 a 1996). 

Direito - Terminei o segundo grau em São Leopoldo no popular “Pedrinho”. Depois, cursei um ano na Feevale o curso de Administração de Empresas, porque, na época, os funcionários que trabalhavam com registros e reprografia (Gráfica), não podiam estudar na universidade. Posteriormente, foi permitido, no meu caso, estudar na Unisinos o curso de Tecnólogo de Processamento de Dados, recém-criado, à época. Formei-me nesse curso e depois em Direito também na Unisinos. Posteriormente, fiz especialização em Direito Civil, na época em que passei a ser assessor jurídico da universidade. E em novembro de 1996, fui a Bilbao, na Espanha, fazer Doutorado em Direito. Em 2001, retornei para São Leopoldo e fui gerente administrativo do Centro de Direito e, posteriormente, coordenador adjunto do curso, quando foram extintos os centros, até 2006, quando foi rescindido meu contrato como técnico administrativo. 

Academia - Hoje, leciono para o curso de graduação em Direito na Unisinos, trabalhando a disciplina de Teoria Geral do Direito. Além disso, sou professor de Direito Civil na Universidade Católica de Pelotas.

Lazer – Durante o ano, praticamente não sobra tempo. Mas, sempre que posso, viajo com a família; vamos ao cinema; visitamos nossos parentes no interior e, com alguma freqüência, asso uma carne; eventualmente tomo um chope com amigos. Viajei muito, principalmente quando estive na Espanha. Fui com a minha esposa e filhos, que eram adolescentes, e passeamos bastante. Conhecemos grande parte da Europa. E ainda hoje, quando temos oportunidade, viajamos. 

Livro – Gosto muito dos de José Saramago. Li quase todas as suas obras, lembro especificamente do Todos os Nomes. Mas, atualmente, praticamente ocupo todo o tempo com a leitura de literatura científica jurídica. 

Filme – Assisti muitos filmes e continua assistindo, quando tenho tempo. Lembraria rapidamente três, com as respectivas cenas: um sobre Giordano Bruno (não recordo o nome), com a passagem em que um prisioneiro observa de sua cela uma execução e se pergunta: “quem lhes deu este poder”? Outro filme é a Amizade, com a cena em que um advogado “técnico” defende que a melhor forma de defender aqueles escravos, cujo navio em que estavam fora capturado, era usar as regras jurídicas referentes ao direito de propriedade, não abstrações como dignidade humana, etc. O terceiro filme é Titanic, com aquela cena, entre outras, em que, depois de um jantar, os homens “sérios e de negócios” se reúnem numa sala para conversar ou vangloriar-se sobre negócios, política e trapaças (também as havia naqueles tempos!), enquanto suas “santas” mulheres, numa outra sala, conversam ou tagarelam sobre filhos e homens e o personagem principal (Leonardo di Caprio), que queria mais era ficar com sua amada, fica sem saber de qual grupo participar.

Religião – Católica. 

Sonho – Sou uma pessoa que conseguiu grande parte dos objetivos que me propus. Atualmente, almejo melhorar minha atividade docente. Estudo as questões pedagógicas e de aprendizagem. As crises, os métodos, as novas tecnologias etc. e avalio como o professor atua nesse contexto. Dedico-me a isso e gostaria de motivar os alunos a gostarem do Direito. E isso não tem sido fácil, o que me deixa um pouco angustiado e decepcionado. Parece que se dá mais valor às formas, aos meios, às tecnologias, por exemplo, e não se percebe o fundo dessas questões. Muitas vezes faço a comparação de que damos mais atenção ao caminhão e menos à carga. Então, queremos aperfeiçoar muito o meio e não olhamos o que, na verdade, esses meios veiculam, o que está dentro deles. Isso não é um sonho, na verdade, mas uma preocupação que hoje me move. 

Unisinos – Devo à Unisinos grande parte do que sou. Comecei na universidade em 1972 e tive aqui mestres que me ensinaram muito. Sempre é problemático citar nomes, não pelos que citamos, mas pelos que omitimos. Mas, eu diria que o recentemente falecido Pe. Mallmann me introduziu nas questões e nos estudos sobre a moral. Ele eu considero um dos meus mestres, que me formou e me ensinou o que sei sobre moral. Outro mestre que tive no curso foi o Bruno Hammes, que foi meu professor em muitas disciplinas. Além das questões de aula, conheci pessoas inigualáveis, jesuítas modelares, humildes, mas vigorosos e corajosos, como o Pe. Frantz, segundo Reitor da Universidade. Inclusive foi ele quem realizou a cerimônia de meu casamento. Dentre os leigos (e cingindo-me aos falecidos), não posso deixar de destacar o grande Sergio Concli Gomes. Por estas pessoas, que estavam na Unisinos, e, portanto, são a Unisinos, devo grande parte do que sou, fruto desse contexto da Universidade, que me deu as oportunidades de que precisava. Além disso, posso dizer, com orgulho e talvez com alguma agressão à modéstia, que também contribuí bastante com a mesma, juntamente com tantos outros. Lembro especialmente aqueles tempos heróicos, do início da Universidade, da completa falta de todos os meios (claro que não havia computador, internet, facebook, celular), mas havia grande abundância de entusiasmo, boa vontade, união e de uma certa ingenuidade. Dos inúmeros eventos que aqui vivenciei, me vem à mente o episódio de uma matrícula dos alunos em que interveio a brigada militar, com seus cavalos e cães, para dispersar um tumulto. A Universidade reservava mais ou menos um mês para a realização das matrículas, sendo que, normalmente, os alunos deixavam para realizá-las nos três últimos dias. Naquela matrícula, no entanto, por problemas de disputa de vagas nas turmas de Porto Alegre, fomos surpreendidos, no primeiro dia (uma segunda-feira de manhã), com uma fila que atravessava a metade da cidade de São Leopoldo. Tivemos que, no meio da manhã, suspender a matrícula, chamar a brigada para restabelecer a ordem e nos reorganizar. Reiniciamos a matrícula na metade da tarde, atravessamos a noite e no final da tarde de terça-feira, sempre com a mesma equipe, conseguimos debelar a fila. Outro episódio marcante foi o início das atividades no “Novo” Campus, em agosto de 1974. As obras haviam iniciado em março daquele ano. O início das aulas foi adiado em uma semana e mesmo assim os alunos e professores entravam nas salas, quando as encontravam, em meio aos operários e funcionários que davam os últimos retoques na iluminação, na limpeza, etc. Isto tudo no meio de um lamaçal, quebra de saltos e atolamento de carros! Um terceiro episódio foi o do incêndio dos prédios da biologia e geologia na velha sede. Em meio à noite, acudimos um grande grupo de alunos, professores e funcionários e, em meio ao tumulto e com riscos pessoais, tentamos salvar algo, enquanto que, alguns poucos, eram parados pela brigada, em ruas próximas, levando o que conseguiam “salvar”.

IHU – Acompanho as notícias e a Revista IHU On-Line. Mas hoje acompanho mais pela internet. Leio as matérias que me interessam e vejo que são abordadas com profundidade. Além disso, é um veículo de entrosamento e união da comunidade. Aprecio bastante o trabalho. 

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