Edição 391 | 07 Maio 2012

A alteridade radical de Levinas e a ética racionalista de Husserl

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Graziela Wolfart

Ao refletir sobre a atualidade destes dois importantes filósofos para o pensamento contemporâneo, Marcelo Fabri destaca que nosso tempo talvez seja um tempo de ressignificações, de novos dizeres sobre o ser humano, mas também da procura do Outro

Estará na Unisinos, no próximo dia 10 de maio, o professor da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Marcelo Fabri. Ele abordará o tema “Da mônada ao social: a intersubjetividade segundo Levinas”, das 19h30min às 22h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU. Um pouco antes, das 17h30min às 19h, no mesmo local, ministrará a palestra “O conceito husserliano de razão prática”. Aos leitores e leitoras interessados em Husserl e Levinas e nas filosofias da intersubjetividade, Marcelo Fabri adianta os temas na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, pensar a intersubjetividade, segundo Levinas, “significa (...) considerar de que maneira a relação social se funda numa separação entre o mesmo e o outro”. E constata: “o desejo levinasiano supõe, exatamente, a saída de si, uma abertura temporal que demanda responsabilidade, disponibilidade, relação com o outro ser humano. O mundo atual seria, em grande medida, um mundo sem transcendência, em que o desejo é imediato e, assim sendo, se torna aprisionado num individualismo de pura indiferença, e não de encontro com o Diferente”. E sobre Husserl, Fabri aponta que ele “traz à tona o conceito de uma ética que é racionalista sem ser reducionista ou imperialista, isto é, que retoma o conceito de razão prática a partir do ser humano concreto, pessoal, afetivo, sensível, intersubjetivamente comprometido”. 

Marcelo Fabri possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, mestrado em Educação e doutorado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é professor da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Ética Fenomenológica, atuando principalmente nos seguintes temas: subjetividade, cultura, motivação, Husserl, Levinas e ontologia contemporânea. É autor de, entre outros, Fenomenologia e cultura: Husserl, Levinas e a motivação ética do pensar (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a tese central do tema “Da mônada ao social: a intersubjetividade segundo Levinas”?

Marcelo Fabri – Diferentemente do que ocorre no modelo dialético, e mesmo dialógico de se pensar o tema da intersubjetividade, a perspectiva de Levinas  não sublinha inicialmente aquilo que é “comum” aos existentes em relação, mas sim a “diferença”, a “separação”, numa palavra o fato de que o existente é originariamente uma mônada enquanto existe (isso para falar fenomenologicamente). Nesse sentido, pensar a intersubjetividade, segundo Levinas, significa, antes de mais, considerar de que maneira a relação social se funda numa separação entre o mesmo e o outro. Com efeito, é essa separação que permite a Levinas enunciar a tese de uma alteridade radical, jamais superada totalmente por um mundo comum e intersubjetivo, mas que, curiosamente, é a condição para que esse mundo se constitua.

IHU On-Line – O que marca a passagem do sujeito “da mônada ao social”?

Marcelo Fabri – O sujeito que, originariamente, é mônada enquanto existe pode superar a sua solidão de diversos modos (pela fruição da vida, pelas tarefas cotidianas, pelo conhecimento, etc.), mas só poderá vencer seu fechamento, de modo verdadeiramente humano, pela abertura do tempo. Essa abertura se dá com a vinda do outro, que é uma alteridade radical. Sem isso, a relação social não teria início, não haveria uma saída de si como futuro ou quebra da imanência.

IHU On-Line – Qual a importância e a atualidade do conceito-chave de mônada na sociedade atual, tão marcada pelo individualismo e autonomia?

Marcelo Fabri – O desejo levinasiano supõe exatamente a saída de si, uma abertura temporal que demanda responsabilidade, disponibilidade, relação com o outro ser humano. O mundo atual seria, em grande medida, um mundo sem transcendência, em que o desejo é imediato e, assim sendo, se torna aprisionado num individualismo de pura indiferença, e não de encontro com o Diferente.

IHU On-Line – Qual a inspiração de Levinas e de sua intersubjetividade para refletirmos sobre os rumos da época contemporânea?

Marcelo Fabri – Na contemporaneidade, existe um paradoxo. De um lado, a impossibilidade da Palavra, isto é, um mundo em que o falar não existe, tendo em vista a quantidade de discursos, de ofertas de consumo, de dispersão, de mal-entendidos, bem como de tantas análises sobre os sentidos (psicanálise, sociologia, análise da linguagem, etc.). De outro, é em meio a uma ausência total de sentido (pois o que há é, paradoxalmente, uma infinidade de sentidos), que a subjetividade humana emerge como um lugar em que o falar e o responder se tornam possíveis. Em meio a essa crise, o humano pode emergir como um poder de falar, de responder. O humano é precisamente isto: a responsabilidade por outrem.

IHU On-Line – Em que sentido o pensamento de Levinas pode ser tomado como referência em nossos dias?

Marcelo Fabri – Em vez de pensar o discurso ético como uma consequência de discussões teóricas básicas, o ponto de partida de Levinas é este: a ética é a filosofia primeira, é o sentido sem o qual o humano seria apenas uma função do ser, ou busca de persistir em seu ser. O ético, portanto, é o sentido que torna possível uma suspensão desse esforço. O eu está, desde o início, em questão. A referência de Levinas se torna decisiva quando se procura pensar a justiça, a paz, o bem comum, etc. não apenas como conceitos ou teses filosóficas que precisam ser demonstradas, mas como termos que se tornam “significativos” em virtude da responsabilidade do sujeito, isto é, da relação com o outro ser humano.

IHU On-Line – Em que sentido podemos entender que nosso tempo carece de modelos que provoquem a capacidade humana da relação? Qual a contribuição de Levinas nesse sentido?

Marcelo Fabri – Nosso tempo talvez seja um tempo de ressignificações, de novos dizeres sobre o ser humano, mas também da procura do Outro. O grande perigo é tornar esta busca banalizada, superficial, retórica. Levinas chama a atenção para isto: é preciso radicalizar a questão ética como questão fundamental, primeira, incontornável. Nenhum discurso edificante ou sofisticadamente teórico poderia encobrir a inumanidade de que, historicamente, fomos capazes. A esse respeito, Levinas é chocante: o Outro entra sem pedir licença, ele desconcerta a boa consciência de indivíduos bem situados socialmente. Mas esse choque é, também, um despertar, uma quebra de minha feliz posse do mundo, numa palavra, a alteridade radical do Outro pode inaugurar uma autêntica relação intersubjetiva.

IHU On-Line – O que podemos entender pelo conceito husserliano de razão prática?

Marcelo Fabri – Nos trabalhos de Husserl,  o tema da ética não é lembrado, sobretudo porque durante sua vida os textos sobre o assunto não foram publicados. Mais recentemente, os trabalhos ficaram mais conhecidos (infelizmente, não no Brasil), e isso despertou meu interesse, principalmente no que se refere à relação entre razão teórica e razão prática. A explicitação da intencionalidade, tema central da fenomenologia, permite compreender o quanto a esfera afetiva é fundamental para se pensar a ética, mas sem esquecer a razão. Nesse sentido, Husserl traz à tona o conceito de uma ética que é racionalista sem ser reducionista ou imperialista, isto é, que retoma o conceito de razão prática a partir do ser humano concreto, pessoal, afetivo, sensível, intersubjetivamente comprometido.

IHU On-Line – Qual a atualidade da ética husserliana?

Marcelo Fabri – Na medida em que recupera este lado interpessoal e afetivo da razão prática, sem, no entanto, esquecer a racionalidade dos atos afetivos, Husserl torna possível uma discussão com os filósofos que deram continuidade à fenomenologia de um modo mais crítico, entre eles, Levinas. Essa retomada permite, ainda, colocar os temas atuais da ética, sobre os quais autores como Levinas e Ricoeur , por exemplo, tanto se debruçaram, tais como: vontade, os atos de valoração, o si mesmo, a intersubjetividade, a alteridade, o estrangeiro, etc.

IHU On-Line – Que relação pode ser estabelecida entre a razão teórica e a razão prática no interior da fenomenologia? Há uma explícita herança kantiana nesse sentido?

Marcelo Fabri – A relação se dá como analogia, ou seja, assim como nos atos teóricos tomamos posição do ponto de vista do juízo, na afetividade tomamos posição valorativa e volitivamente. Kant  é, sem dúvida, uma herança fundamental, mas sua proposta é questionada exatamente pelo fato de que não há, na ética fenomenológica, como prescindir do lado afetivo para a construção de uma racionalidade prática. Desde Brentano,  essa herança, que vem de Hume,  parece ter sido incorporada à discussão. Sem o papel dos sentimentos não há ética. No entanto, apesar da forte influência do empirismo, o ceticismo de Hume também é posto em questão, pois sem isso não se poderia falar em analogia entre razão teórica e razão prática.

IHU On-Line – Como o senhor define o conceito de “humanidade autêntica”?

Marcelo Fabri – É a expressão de Husserl, que aposta numa retomada da racionalidade filosófica, e isto em uma época de grande crise (um pouco antes da segunda guerra mundial). É como se histórica e factualmente pudéssemos visar uma ideia de humanidade a partir de nossa crença na razão, na ciência e na relação dessas com a justiça e o bem. Humanidade autêntica é, portanto, aquele sentido teleológico inerente à história do Ocidente, que, mesmo numa época de crise, estaríamos tentando realizar enquanto seres vinculados à cultura e à história. Levinas, por sua vez, que viu e sentiu os resultados da guerra, não fala mais assim. Ele fala do humano, que não é uma ideia, nem um sentido ideal, mas uma significação que ele denomina “um para o outro”. Antes de qualquer esforço teórico ou prático para pensar a humanidade ou tentar realizá-la, é o Outro como rosto que me elege e individua, isto é, que me convoca à responsabilidade.

IHU On-Line – Em que consiste a reflexão fenomenológica sobre a esfera do estrangeiro?

Marcelo Fabri – Sendo o outro ser humano um Outro, ele será também o estrangeiro, isto é, aquele 1) que vem de outro lugar, 2) que me causa estranhamento, 3) que não faz parte daquilo que me é próprio. Enquanto tal, o estrangeiro só comparece na medida em que houve uma resposta. Antes de toda pergunta, há o responder a outrem (“responsividade”). Mas tudo depende da resposta que iremos dar. Pode ser: “fora, todos os estrangeiros”, como li no assento em um transporte público europeu. De qualquer modo, a tese de Levinas permanece: a subjetividade é hospitalidade, é acolhimento do outro. A alternativa à primeira resposta seria, assim, o compromisso com a construção de uma autêntica intersubjetividade.

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