Edição 391 | 07 Mai 2012

Uma era pós-manicomial?

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Luta antimanicomial tem tradição libertária, observa Osvaldo Saidon. Opor razão e loucura é uma falsa injunção, pois ninguém é racional ou louco 24 horas por dia

“Parece importante renovar o debate teórico em relação aos conceitos que suscitam uma proposta antimanicomial para não deixá-la limitada à questão de fechamento, ou não, de manicômios e para que enfrente os desafios de uma época que já poderíamos chamar de pós-manicomial”. A afirmação é do psicanalista argentino Osvaldo Saidon, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Em seu ponto de vista, a “luta antimanicomial se inscreve numa tradição de luta libertária que aporta aos direitos humanos a potencialidade para poderem superar uma prática que, às vezes, só tende a repetir o politicamente correto, como sustentam muitas das chamadas ONGs dos direitos humanos”. E provoca: “A questão é detectar em cada época e em cada lugar onde está o manicômio. A exclusão, a reclusão, ou o crime que a luta antimanicomial denuncia estão hoje, mais do que em loucura, no gatilho fácil, na brutalidade e na marginalidade que condena milhares de jovens, os crackeiros, os sem-trabalho, os milhões de desocupados jovens que em países colonizados e colonizadores já parecem condenados a não terem nenhum futuro”.

Osvaldo Saidon é médico, psicanalista e professor universitário, natural da Argentina. Tem desenvolvido trabalhos de análise institucional no Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Nicarágua. Viveu no Brasil entre 1976 e 1988. De sua produção bibliográfica, destacamos Practicas grupais: La escena institucional e clinica y sociedad. Esquizoanalisis. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Lutar por uma sociedade sem manicômios é lutar pelos direitos humanos? Por quê?

Osvaldo Saidon - Gostaria de inverter a pergunta, pois isso me permitiria responder melhor o que penso dessa relação. A pergunta seria então: lutar pelos direitos humanos é lutar por uma sociedade sem manicômios? Melhor seria, então, dizer que a luta antimanicomial permite à defesa dos direitos humanos ter questões concretas de luta e evitar cair numa defesa às vezes demasiado generalista, ou abstrata, dos direitos humanos, que pode deixar inadvertidas as injustiças de classe – as questões coloniais e a denúncia dos crimes que o império perpetra, com sua política não somente belicosa, senão cultural e econômica. A luta antimanicomial se inscreve numa tradição de luta libertária que aporta aos direitos humanos a potencialidade para poderem superar uma prática que, às vezes, só tende a repetir o politicamente correto, como sustentam muitas das chamadas ONGs dos direitos humanos.

Na Argentina o trabalho das mães e dos filhos da Praça de Maio  tem sempre alentado a luta antimanicomial e isso tem sido parte, muitas vezes, de sua incorreção política em relação às instituições. Essa incorreção é a que lhes tem dado o nome de “loucas da Praça de Maio” e, com isso, a potência que continuam desdobrando.

IHU On-Line - Qual é a importância da prática psicoterapêutica e psicanalítica na desinstitucionalização da loucura?

Osvaldo Saidon - A prática psicoterapêutica tem mudado sua implicação nos processos de desinstitucionalização segundo as épocas e os lugares onde se tem desenvolvido. Tem havido uma diferença de tempo e lugar entre o sucedido no Brasil, na França e na Argentina, considerando-se os três países onde a prática psicanalítica tem tomado um desdobramento importante na saúde pública. Desde o final dos anos 1960, a psicanálise, na Argentina, participava ativamente em projetos de reforma psiquiátrica e de humanização da prática hospitalar. Os grupos operativos, a experiência de serviços de saúde mental em hospitais públicos, a politização de amplos setores de profissionais e a ruptura por razões ideológico-políticas da Associação Psicanalítica foram difusores de uma prática que, de fato, questionou os institutos e instituídos desse momento. Muitos do que tiveram de se exilar nos anos 1970 levaram essas propostas a vários lugares, onde encontraram maior ou menor repercussão.

No Brasil o processo de maior compromisso social e de crítica institucional dos psicanalistas somente começou com a volta dos exilados brasileiros que realizaram sua formação na França e com a associação que nós, psicanalistas de esquerda chegados da Argentina junto de colegas mais politizados do Rio, de São Paulo e Belo Horizonte, conseguimos desenvolver.

Na Europa, por outro lado, a luta antimanicomial ou anti-institucional, ligada de certo modo aos movimentos de anticultura emergentes do maio francês, se desenvolveu através de uma discussão sobre a prática e a teoria psicanalítica. Citemos os trabalhos de Basaglia, a rede de antipsiquiatria, a crítica institucional de Lourau e Lapassade, as contribuições definitivas que traz a História da loucura, de Foucault, e o Anti-Édipo  de Deleuze  e Guattari , ou os trabalhos de Castel sobre o psicanalismo.

Era pós-manicomial

Esses estudos nos surpreenderam “com a mão na massa”. Estavam se desenvolvendo uma infinidade de experiências, tratamentos e projetos que questionavam as instituições, mas que tinham uma forte marca psicanalítica. Poucos se atreveram a assumir os desafios que nos propunham, por um lado, a antipsiquiatria de Basaglia ou as experiências de Cooper . Por outro lado, a contundência e o fio teórico que trazia o Anti-Édipo de Deleuze e Guattari dividia águas e era impossível evitar o enfrentamento com um lacanismo que vinha com seus foros renovados salvar a institucionalização da psicanálise, o que terminava por produzir uma exclusão de toda proposta social ou política no campo da prática psicoterapêutica.

Franco Basaglia costumava dizer que alguns psicanalistas argentinos são uma raridade, já que foram os que mais se identificaram com as propostas antipsiquiátricas nos anos 1970. Ou seja, mais do que ver quais as correntes da psicanálise que mais contribuíram aos processos de desinstitucionalização na saúde mental, podemos afirmar que o papel dos “psi” dependeu – e creio que assim continua – do compromisso social que assumiram ou assumam em seu trabalho e na defesa do hospital público frente às corporações da saúde.

Na atualidade, as relações entre saúde mental e direitos humanos seguem tendo que encarregar-se dessa contradição. Constatamos ainda o avanço e a contrarreforma que hoje voltam a impulsionar os setores biologistas da psiquiatria, em muitos casos com alianças com institutos psicanalíticos de diverso signo. Nesse sentido, me parece importante renovar o debate teórico em relação aos conceitos que suscitam uma proposta antimanicomial, para não deixá-la limitada à questão de fechamento, ou não, de manicômios, e para que enfrente os desafios de uma época que já poderíamos chamar de pós-manicomial.

IHU On-Line - Quais são os horizontes que se abrem, a partir do trabalho na clínica, no diálogo entre a razão e a loucura?

Osvaldo Saidon - Esta pergunta dá pé para ampliar um pouco as referências que fazíamos à retomada psicanalítica que se deu a partir dos anos 1980 no campo da saúde mental e a qual se tenta legitimar por um paradigma que se qualifica a si mesmo de científico. Este fundamenta o seu acionamento, tanto em matemas ou tempos lógicos como nas investigações neurocientíficas que os laboratórios avalizam através de medicamentos psicotrópicos de última geração.

Se a isso se referem quando falam da razão frente à desrazão, a uma produção de verdade que se considera asséptica, neutra e definitiva, então a loucura, ao opor-se, é somente desordem e caos. Se por loucura, como por razão, entendemos produções subjetivas datadas, mutantes e marcadas por processos opostos, porém complementares, participando de algo comum - o da instituição que os alberga -, abrimos outras possibilidades de pensar... Em definitivo, razão e loucura são uma mescla produtora de obras as mais diversas e com potencialidades criacionistas sempre vigentes. Ninguém é louco 24 horas por dia, nem racional ou razoável o dia inteiro. Por isso não vejo por que opor razão e loucura. Basta ver o esforço vão que os grandes obsessivos fazem em discriminar razão e caos, o que termina por aumentar suas dúvidas ao infinito.

IHU On-Line - A “escuta de si” seria uma forma adequada de compreendermos o campo de trabalho da psicoterapia e da psicanálise?

Osvaldo Saidon - Prefiro falar de sucesso, de evento, de acontecimento, mais do que de escuta de si. É melhor convocar um “para fora”, mais do que um a “si mesmo” que pode ser enganoso e reiterar-nos nesse narcisismo tão bem-vindo nestes modelos individualistas e neoliberais, como se diz hoje...

Jung , citado por Thomas Mann , diz, referindo-se a Freud  num prólogo que escreveu Ulloa  - já veem quantos encontros, quantos entres: “Resulta muito mais direto e evidente, em verdade mais impressionante por sua carga emotiva, observar o que me sucede, do que observar o que faço”. Essa ênfase no que sucede agrada-me lê-lo como um sublinhado do sucesso do acontecimento, não só no sentido de uma autoanálise, a qual seguramente se refere em Freud, mas também como um elogio do acontecer, do desejo que transporta. Marca-se, assim, uma preponderância do acontecimento sobre a representação.

IHU On-Line - Abandonar o “monólogo” da razão sobre a loucura e oportunizar que o sujeito se interrogue e fale sobre suas vivências é uma forma de “insubmissão” desse sujeito? Por outro lado, como se apresentam as relações de poder intrínsecas a esse processo de saber e de poder na clínica?

Osvaldo Saidon - Essa é a questão mais complicada sobre a qual deveríamos interrogar-nos todos os dias e em cada sessão, com cada paciente na coordenação dos grupos no momento de uma demanda institucional. Todavia, é uma questão que está talhada e esculpida impregnando nossas relações institucionais, as relações com nossos colegas, os atravessamentos na conjugalidade na família, na relação com os filhos, no modo de fazer política, na relação que estabelecemos com as normas, ou em como gastamos o nosso dinheiro. Por que então agarrá-la somente com o diálogo psicanalítico, como se, ao não fazer psicanálise, estivéssemos então a salvo ou prevenidos contra todas as misérias que as jogadas do poder nos impõem em todos esses espaços?

Viemos recuperando na clínica a ideia de parrésia , a qual dá conta das relações entre verdade e coragem, necessárias para fazer frente à retórica complacente que propiciam certas ideologias no campo “psi”. As análises brandas que ultimamente parecem dar-se bem com a neuropsiquiatria dominante são um exemplo de como a adulação e a sedução vêm substituindo a clássica atitude média antipática e distante do psicanalista. Falamos de um tipo estranho de amizade, onde dizer o que se pensa apesar dos interesses e das conveniências seja não apenas um valor, mas também uma estratégia para contraefetuar a ação mediocrizante da comunicação que propicia a mídia. Entendemos assim uma clínica alegre frente ao que às vezes chamamos uma clínica do ressentimento.

IHU On-Line - Em que medida a luta antimanicomial dá voz ao discurso do diferente, do desviante, daquele que não está inscrito na norma?

Osvaldo Saidon - Os resultados nos mostram momentos melhores e piores, êxitos e fracassos nesse sentido. A questão é detectar em cada época e em cada lugar onde está o manicômio. A exclusão, a reclusão, ou o crime que a luta antimanicomial denuncia estão hoje, mais do que em loucura, no gatilho fácil, na brutalidade e na marginalidade que condena milhares de jovens, os crackeiros, os sem-trabalho, os milhões de desocupados jovens que em países colonizados e colonizadores já parecem condenados a não terem nenhum futuro. Sempre foi uma questão central saber como dar voz ao diferente. É por isso que vale a pena insistir na criação e invenção dos dispositivos que permitam a expressão do desviante. Creio que entre outras coisas a isso se referia Guattari na última época, quando insistia no paradigma estético. No entanto, a questão das redes sociais e da internet em geral é um desafio à criação de novas formas de expressão, ao mesmo tempo em que gerou enorme atraso na implicação social de grandes grupos. É por isso que a luta antimanicomial oferece hoje grandes subsídios teóricos e práticos para repensar a questão da marginalidade, da transgressão e da subversão social. Da mesma forma, o debate sobre a democracia direta, os modos autogestionais de organização, a autodeterminação, em definitivo, tem muito a obter dos estudos que suscitou a luta antimanicomial.

IHU On-Line - Empreender uma reforma psiquiátrica é empreender, sempre e novamente, um trabalho crítico cujo horizonte é a liberdade? Por quê?

Osvaldo Saidon - O esforço de empreender novamente é um resultado da incrível resistência que volta a ter a reforma psiquiátrica, inclusive quando parecia mais consolidada. Isso se deve - além dos interesses econômicos que afeta - não tanto a que o avanço da ciência, entre aspas, esteja mais atraído por sua submissão ao Estado e ao poder dominante, mas sim ao empenho de impulsionar forças inovadoras e revolucionárias. A ciência se comporta de modo muito parecido às religiões monoteístas e cada vez é mais chamativo ver como o ateísmo, que parecia ser uma bandeira dos cientistas positivistas do século passado, já é esquecido e é frequente ver os homens de ciência com uma Bíblia, um crucifixo ou uma versão do Corão entre suas mãos.

IHU On-Line - Sob quais aspectos o adoecimento mental do sujeito também reflete o tipo de sociedade, capitalista e excludente, na qual vive e o modelo de saúde/doença imposto? 

Osvaldo Saidon - Essa afirmação é forte e não deve fazer cair numa resposta sociológica para uma questão como a do sofrimento que funda suas raízes na própria existência, com toda a complexidade à qual nos convoca. Nunca fomos muito afetados por uma ideologia do sucesso e da felicidade, tão difundida pelo marketing televisivo e que inunda a comunicação social. Os trabalhos sobre produção de subjetividade e os desenvolvimentos da análise institucional têm se encarregado dessa problemática. Agora não posso mais do que recordar que o Anti-Édipo de Deleuze e Guattari anunciava sua proposta no subtítulo “Capitalismo e esquizofrenia”.

IHU On-Line - O que é, hoje, doença mental e normalidade?

Osvaldo Saidon - Com certo esforço, poderia dizer o que é enfermidade mental. Porém, sobre normalidade não tenho quase nenhuma ideia. Enfermidade mental hoje é, em primeiro lugar, algo que já se nos apresenta mesclado, barroso. Não existe uma enfermidade pura, um diagnóstico único. Os pacientes se nos apresentam com suas características mescladas com os processos de tratamento que um ou outro modelo impõe aos sujeitos. Não se observa uma aura, uma origem da enfermidade. Seu desenrolar já vem gerida por tratamentos medicamentosos e/ou pela assistência em escolas, hospitais, gabinetes psicoterapêuticos, grupos de autoajuda. É por isso que, hoje, não concebemos uma clínica senão a partir de ser tomada em conta a dimensão institucional.

IHU On-Line - De que modo a vivência brasileira e o contato com Cláudio Ulpiano e Cecília Coimbra marcam sua trajetória e concepções acerca da luta antimanicomial?

Osvaldo Saidon - O contato com Cláudio Ulpiano  e Cecília Coimbra  vai muito além das questões relacionadas à prática antimanicomial. Esta questão me trouxe à memória uma linda recordação. Cláudio me presenteou uma edição da editora Fondo de Cultura Econômica, em espanhol, de A história da loucura, de Foucault. Creio que se referiu, naquele dia, à ideia foucaultiana de a loucura como falta de ação – depois disso nunca escutei nada de Cláudio em relação à atividade antimanicomial. Suas aulas eram uma “contraefetivação” a qualquer tipo de estigmatização, de diagnóstico preconcebido; eram sempre um modo de aventurar-se no pensamento, e seria muito lindo que este espírito pudesse estar sempre presente na luta antimanicomial. Na realidade, quando chegavam amigos de fora ao Rio de Janeiro, levava-os a visitar o Corcovado ou aos shows de chorinho. Nós os levávamos às aulas de Cláudio e sempre era um episódio emocionante. Já veem: ali loucura e razão não se opunham, elas se potenciavam.

Cecília Coimbra permitiu-nos habitar um postulado de coerência. Soube pôr em todo momento, com sua crítica e sua militância, um freio às concessões que nós profissionais estamos sempre dispostos a outorgar. Nesse sentido, pensando na pergunta feita, seu modo de pensar e de operar influenciou enormemente na persistência da crítica à prática e às teorias “psi” e à violência que se realiza através delas. Se alguém consolidou a relação entre seres humanos e saúde mental de um modo singular, é Cecília – e é ela que nos permite falar de uma escola brasileira nesse campo. Que lindo terminar esta entrevista junto de Claudio e Cecília. Penso que muitos “entre” ainda estão aguardando entre nós.

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