Edição 388 | 09 Abril 2012

Um humorista iconoclasta

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Thamiris Magalhães e Márcia Junges

Millôr Fernandes (1923–2012) Millôr Fernandes foi um iconoclasta lato sensu. Em todas as manifestações artísticas nas quais atuou, tratou de subverter o estabelecido, oferecendo uma nova visão da vida, com um humor inteligente e único, constata Henrique Rodrigues

“Millôr Fernandes utilizava-se de formas bastante conhecidas na produção humorística: trocadilhos, duplos sentidos, traduções arbitrárias, reescrita de clássicos. Também lançou mão de quaisquer modos textuais imagináveis, seja em verso, seja em prosa, além dos desenhos”, constata Henrique Rodrigues, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, o humorista utilizou o computador tão logo se tornou possível, “lançou um CD-ROM com textos e charges e também utilizou a internet (afirmava que tinha um ‘saite’ para ‘teleitores’)”. E continua: “é como se ele utilizasse tudo o que lhe punham à frente como uma possibilidade de produzir humor. Um aspecto marcante é o fato de não se curvar a nenhum poder estabelecido, seja da Igreja, dos militares ou dos grandes grupos de comunicação”.

Henrique Rodrigues é formado em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, com especialização em Jornalismo Cultural pela mesma instituição. É mestre em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio, com dissertação sobre o humor político na obra de Millôr Fernandes, intitulada: Millôr Fernandes: a vitória do humor diante do estabelecido. Trabalha com projetos de cultura e educação e é doutorando em Literatura pela PUC-Rio. É autor de sete livros de literatura. Seu endereço na internet é: www.henriquerodrigues.net.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como podemos caracterizar o humor realizado por Millôr Fernandes? O que ele pretendia com esse humor?

Henrique Rodrigues –
Millôr Fernandes foi um iconoclasta lato sensu. Em todas as manifestações artísticas nas quais atuou (textos em prosa e verso, desenhos, roteiros, tradução etc.), tratou de subverter o estabelecido, oferecendo uma nova visão da vida, com um humor inteligente e único. Pela extensão do seu trabalho, esse humorista observou atentamente vários momentos importantes da história recente do Brasil, manifestando-se sempre contra as versões oficiais dos fatos. Desse modo, exerceu uma crítica “ampla, geral e irrestrita” a várias instâncias da compreensão da realidade.


IHU On-Line – Quais eram as características mais marcantes de Millôr Fernandes?

Henrique Rodrigues –
Ele se utilizava de formas bastante conhecidas na produção humorística: trocadilhos, duplos sentidos, traduções arbitrárias, reescrita de clássicos. Também lançou mão de quaisquer modos textuais imagináveis, seja em verso, seja em prosa, além dos desenhos. Utilizou o computador tão logo se tornasse possível, lançou um CD-ROM com textos e charges e também utilizou a internet (afirmava que tinha um “saite” para “teleitores”). É como se ele utilizasse tudo o que lhe punham à frente como uma possibilidade de produzir humor. Um aspecto marcante é o fato de não se curvar a nenhum poder estabelecido, seja da Igreja, dos militares ou dos grandes grupos de comunicação.


IHU On-Line – Que contribuição e lição o escritor deixa para o nosso país?

Henrique Rodrigues –
Primeiramente, a lição do questionamento imbuído de uma ideologia. É importante salientar que Millôr expôs, pelo humor, o que o homem tem de mais cruel, justamente para evidenciar que não precisamos ser apenas uma caricatura. E isso sem ser careta ou panfletário, mas fazendo o seu leitor se sentir inteligente. Outra questão marcante é a extensão da obra: Millôr produziu por mais de 70 anos, tornando-se um dos mais profícuos artistas brasileiros.


IHU On-Line – Como avalia a morte, em menos de uma semana, de dois grandes humoristas brasileiros: Chico Anysio e Millôr Fernandes? O que o Brasil perde com a morte desses dois grandes humoristas?

Henrique Rodrigues –
Essa coincidência pode, daqui a um tempo, representar um marco na história do humorismo brasileiro. Chico teve forte atuação no rádio, foi o maior humorista da TV, ao passo que Millôr é considerado o mais importante da imprensa. Ambos representaram, em suas obras, um século XX cheio de mudanças e contrastes e a necessidade de manter, sobretudo, a nossa lucidez diante da condição humana.


IHU On-Line – Com a morte dos dois humoristas citados, como percebe o cenário atual do humor no Brasil? Vê a possibilidade de surgimento de outros artistas como Millôr? Quem são os nomes promissores do humor no país?

Henrique Rodrigues –
Bem, todo artista é fruto também de um contexto histórico e social. Se o Millôr tivesse nascido hoje, não seria o Millôr que conhecemos, mas outro tipo de humorista. Provavelmente se chamaria Milton mesmo. (Na hora do registro, o funcionário do cartório fez o traço do “t” sobre o “o” e não concluiu o “n”, criando oficialmente o nome “Millôr”.) Assim, pode ser meio arbitrário esperar um novo Millôr. Mas temos grandes humoristas, muitos até pouco conhecidos, cujas obras circulam pela internet. Gosto muito das tirinhas do André Dahmer, pois elas possuem um tom crítico, quase amargo, mas com a dose certa do riso inteligente.


IHU On-Line – Que contribuição o humorista deixou para a política? Como podemos definir o humor que Millôr realizava nesse segmento?

Henrique Rodrigues –
Millôr teve na política um grande objeto para construir humor. Para citar alguns presidentes, não poupava puxar um aspecto caricaturesco: Figueiredo e sua fixação por cavalos (“enfim um presidente Horse-Concours”); Sarney e sua pretensão literária (“Assim que saiu da posse na Academia, Sir Ney se reuniu, feliz, com um grupo de militares: está convencido de que fardão é o aumentativo de farda”); Collor e a figura do presidente atleta (“Collor não só tem aquilo roxo, como é pau pra toda obra, sempre com o Cooper feito”). E Fernando Henrique Cardoso: “É normal que uma pessoa se ache mais inteligente do que outra. Mas Fernando Henrique Cardoso é o único intelectual que se acha mais inteligente do que ele próprio”. Millôr não hesita em criticar todos os níveis da política, inclusive o mais alto posto.


Teatro

A obra teatral do Millôr também foi muito importante como questionamento político. Peças como Liberdade, liberdade(1965) e Um elefante no caos (1962) são referências na história do teatro brasileiro. Essa última foi censurada antes da estreia, em 1960, por ter como título Por que me ufano do meu país, sob a justificativa de agredir a imagem intelectual do Conde de Afonso Celso. Ironicamente, mudou-se para Um elefante no caos (ou Jornal do Brasil), embora o conteúdo se mantivesse o mesmo, e assim a peça cumpriu com o seu papel de cutucar a submissão cultural, as autoridades competentes, enfim, todo o ridículo que merece ser levado a público sob as circunstâncias especiais que o teatro permite.


IHU On-Line – Há alguma influência do trabalho de Millôr no surgimento de programas como “CQC”, que misturam crítica política com humor?

Henrique Rodrigues –
Não vejo uma ligação direta. A proposta do CQC é expor diretamente os políticos ao ridículo ao se explicitar a incompetência desses representantes.


IHU On-Line – Conheceu Millôr pessoalmente? Quais as principais recordações que guarda dele?

Henrique Rodrigues –
Estive com o Millôr apenas uma vez, numa feira do livro no Rio de Janeiro, quando lhe deixei uma cópia da minha dissertação de mestrado sobre a obra dele. Pediu o meu e-mail e duas semanas depois me mandou uma mensagem longa e generosa sobre o trabalho, que imprimi e guardei junto ao diploma. Recordar significa trazer de volta ao coração, e terei o privilégio de sempre poder, em cada releitura, voltar ao Millôr, esse gênio que me ensinou a pensar direito – e esquerdo.



Leia mais...

Confira outra entrevista concedida por Henrique Rodrigues à Revista IHU On-Line:

* O riso como arma e libertação. Entrevista publicada na Revista IHU On-Line, número 367, de 27-06-2011

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