Edição 387 | 26 Março 2012

“Todo sagrado nasce de um encontro”

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Thamiris Magalhães

Um tema profano pode explicitar o sagrado, pois o sagrado não está na obra, e sim na relação estabelecida entre ela e uma pessoa, explica José Maria Fernandes

A obra não precisa conter algo de religioso para falar do sagrado. Segundo José Maria Fernandes, uma mesma obra pode ter significados distintos para duas pessoas que a contemplam. “Todo sagrado nasce de um encontro. Um exemplo clássico é o chamado ‘sono de Jacó’ – Gen. 28, 10-22. Uma simples pedra adquire o aspecto sagrado, após uma marcante experiência pessoal”, analisa, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. A pedra onde Jacó repousa sua cabeça é uma pedra como outra qualquer, continua José Maria. “É a sua essência, seu significado, podemos dizer é sua identidade profunda, sua interioridade, sua invisibilidade que se faz visível no âmbito do sagrado. A sua exterioridade dá o sentido da matéria; sua interioridade dá o sentido do Espírito; do encontro de ambos – na experiência humana – desvela-se na profundidade o sentido do sagrado que objetiva o transcendente”.

José Maria Fernandes possui graduação em Artes Plásticas e especialização em Desenho pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, em Litografia, pela Fundação Guienard – Belo Horizonte e é projetista técnico/civil – Arquitetura pela UFMG/Petrobrás. É filósofo e teólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG e Centro de Estudos Superiores/CIA de Jesus. Possui pós-graduação em Arte Sacra pela Universidade Gregoriana – Roma. Atualmente é diretor do Centro Loyola de Fé e Cultura, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio e responsável pelo projeto de restauração do complexo do Pátio do Colégio, na cidade de São Paulo, além de professor da PUC-Rio em Comunicação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como podemos relacionar arte e fé?

José Maria Fernandes – Antes de entrar nessa questão, gostaria de esclarecer que existe um fio condutor que costura e entrelaça tudo, quando falamos de arte, espiritualidade, simbólico, transcendência, estética, fé, beleza, sagrado. São elas palavras quase sinônimas. Isso posto, falemos então da relação arte e fé. Desde o alvorecer da humanidade, quando ela quis dizer de outra e invisível realidade, foram a arte e o simbólico as linguagens possíveis para se referir a essa invisibilidade que chamamos de Sagrado. A fé é a expressão verbal, dialógica, do âmbito do sagrado. Ela é o conteúdo e a arte a embalagem, que diz o que contém. Essa é a relação básica entre ambos os elementos – arte e fé.

IHU On-Line – Em que sentido espiritualidade e experiência estética estão relacionadas? 

José Maria Fernandes – Espiritualidade é uma forma da relação do ser humano com Deus, suscitada pelo Espírito Santo nos tantos contextos da vida. O grande desafio é sintonizar entre o que o Espírito propõe e as seduções que a vida desperta. São circunstâncias contextualizadas em que necessitamos de Deus, sem, contudo, nos alienarmos do mundo.

A experiência estética nos possibilita adentrar nas realidades enigmáticas e poderosas que se apresentam nas realidades objetivas – sem objetivar-se – e de se explicar, se expressar e de se articular com os elementos expressivos. Em outras palavras, a experiência estética é o processo na nossa interioridade que aponta sentido para várias situações vivenciadas, sinais, percepções que nos conduzem a um aprofundamento cada vez maior. Um processo existencial que nos aproxima de um transcendente. A experiência estética engrandece a alma e dá sentido à vida de ser humano. Alguém já disse que experiência estética tem algo do sopro do Espírito de Deus e resulta daí sua relação com a espiritualidade.

IHU On-Line – Qual seria a principal diferença entre experiência estética e experiência religiosa? Qual a semelhança?

José Maria Fernandes – Em parte, penso que o falado anteriormente esclarece essa pergunta. Só acrescento que nem sempre uma experiência puramente religiosa me proporciona um sentido maior para a vida. Posso me emocionar, por exemplo, numa bela celebração eucarística pelo contexto, pela música etc. E finda a celebração, finda-se a emoção. É o senso estético, esse dom que conduz a uma passagem de uma situação a outra. A imagem que uso é o sair do real visível para a invisibilidade e retornar à realidade enriquecido com um sentido de mais plenitude de vida.

IHU On-Line – Em que sentido a arte pode ser considerada transcendente?

José Maria Fernandes – A arte não é transcendência, é possibilidade de. Transcendência é a experiência da pessoa diante da arte, seja ela um quadro, um poema, uma música. Expondo melhor, relato um fato marcante na vida do grande compositor Haendel .

Diz ele que, uma noite, na parte antiga de Londres, caminhava um tanto abatido e uma aridez no espírito, quando ouviu um grupo ensaiando um salmo. Uma voz se sobressaía dizendo das promessas e do Messias esperado. Aproximou-se atento e fez algumas anotações.

Voltando à casa, relacionou o seu estado pessoal com a situação de um povo à espera de um Salvador e ele relata – “Pouco a pouco meu ser se iluminou interiormente” – e passou a escrever. Ficou nesse estado por 22 dias – “eu estive em transe e vi uma obra criando corpo, um estado que se funda quando uma pessoa anseia algo e se encontra com esse acontecimento histórico que chamamos ‘História de Israel à espera do Messias’. O fruto dessa experiência de encontros é sua obra maior – ‘O Messias’” . Quando foi apresentada pela primeira vez, a plateia o ovacionou de pé gritando – “Sublime! Sublime!”.

Eis, claro, um exemplo de como as artes podem proporcionar uma experiência de profundo sentido na vida.

IHU On-Line – Qual a diferença existente entre arte religiosa e arte sacra?

José Maria Fernandes – Arte religiosa enfatiza a harmonia das formas, cores, proporções etc. sobre uma temática religiosa; a arte sacra tem por preocupação primeira visibilizar a Teologia e usa para tanto de elementos simbólicos.

IHU On-Line – Quais são as principais características da arte sacra? 

José Maria Fernandes – A arte sacra por excelência são os ícones com os seus cânones e a linguagem simbólica das cores; o uso de certos elementos, a estrutura da composição, tudo tem de estar em sintonia com a teologia. O artista não pode se ausentar disso e fazer o que quer. Há um longo processo, desde a escolha do tema à preparação espiritual do iconógrafo, da madeira a ser trabalhada para a pintura à técnica a ser usada. É todo um “anterior” que precede a obra.

IHU On-Line – Como podemos perceber a manifestação do sagrado em uma determinada obra de arte?

José Maria Fernandes – A obra não precisa conter algo de religioso para falar do sagrado. Uma mesma obra pode ter significados distintos para duas pessoas que a contemplam. Um tema profano pode explicitar o sagrado, pois o sagrado não está na obra, e sim na relação estabelecida entre ela e uma pessoa. Todo sagrado nasce de um encontro. Um exemplo clássico é o chamado “sono de Jacó” – Gen. 28, 10-22. Uma simples pedra adquire o aspecto sagrado após uma marcante experiência pessoal.

IHU On-Line – Qual seria a especificidade da obra que apresenta o sagrado em sua essência?

José Maria Fernandes – Não há nada de específico em uma obra, ninguém diz: “vou fazer uma obra sagrada”. A pedra onde Jacó repousa sua cabeça é uma pedra como outra qualquer. É a sua essência, seu significado, podemos dizer; é sua identidade profunda, sua interioridade, sua invisibilidade que se faz visível no âmbito do sagrado. A sua exterioridade dá o sentido da matéria; sua interioridade dá o sentido do espírito; do encontro de ambos – na experiência humana – desvela-se na profundidade o sentido do sagrado que objetiva o transcendente.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo? 

José Maria Fernandes – Recordo as palavras de Pavel Evdokimov na sua grande obra “La teologia della bellezza”: “ser humano é ter os pés nus, cansados e feridos no difícil caminho terreno; ter os olhos úmidos de lágrimas voltados para o sol e as estrelas e – diante da beleza – encontrar o mistério do sagrado. Ali a beleza torna-se harmonia e a harmonia torna-se arte”.

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