Edição 387 | 26 Março 2012

A mulher empreendedora da atualidade

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Thamiris Magalhães

Para a jornalista Sueli Batista dos Santos, as mulheres ainda não possuem autonomia plena

“Total autonomia as mulheres ainda não possuem. No aspecto econômico, acredito que seja preciso potencializar as ações que promovam a equidade de gênero no mercado produtivo, pois não bastam apenas mudanças quantitativas dentro da população economicamente ativa”, afirma a presidente da Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais – BPW Brasil, Sueli Batista dos Santos, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ela, muitas vezes, a mulher se submete a um processo contraditório em relação a sua efetiva conquista para ascender na carreira. “É claro que na construção de tal autonomia há exceções, e temos cases que nos remetem a acreditar que o caminho está sendo pavimentando, mas há ainda muita dependência”. No mercado de trabalho, por exemplo, continua Sueli, “a maioria das mulheres aceita remunerações mais baixas do que as oferecidas para os homens, para assim assegurar a manutenção de sua fonte de renda e atuação formal”. E continua: “a mulher precisa ser incentivada a ingressar na formalidade, mas precisa também exigir salários iguais e participar mais efetivamente de políticas que visem um modelo de desenvolvimento com recorte de gênero”.

Sueli Batista dos Santos é jornalista e empresária na área de Comunicação e Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Socioambiental. Tem MBA em Terceiro Setor e Políticas Públicas. É membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM e presidente da Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais (ou Business Professional Women) – BPW Brasil, que tem como missão “agregar mulheres de negócios e profissionais, orientando e coordenando seu desenvolvimento pleno nas esferas de poder público e de mercado”.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Quais são as políticas públicas existentes que beneficiam as mulheres empreendedoras no Brasil?

Sueli Batista dos Santos –
São muitas as políticas públicas que beneficiam as mulheres empreendedoras. Tais políticas passam por programas de governo que estimulam a autonomia econômica feminina. Isso é muito amplo e ocorre, por exemplo, via educação (focada principalmente na capacitação técnica, incluindo-se o aprendizado na área de tecnologia); fomento e desenvolvimento dos negócios e atividades produtivas que visam geração de renda (via cooperativismo, associativismo, criação e formalização de microempreendimentos, acesso ao microcrédito produtivo e demais serviços financeiros, que visam apoiar o desenvolvimento de atividades que geram emprego e ampliação de renda e fortalecimento de vínculos com o mercado produtivo, além de introdução a novas concepções de gestão).


IHU On-Line – Acredita que hoje as mulheres já possuem total autonomia? O que falta?

Sueli Batista dos Santos –
Total autonomia as mulheres ainda não possuem. No aspecto econômico, acredito que seja preciso potencializar as ações que promovam a equidade de gênero no mercado produtivo, pois não bastam apenas mudanças quantitativas dentro da população economicamente ativa. Muitas vezes, a mulher se submete a um processo contraditório em relação a sua efetiva conquista para ascender na carreira. É claro que na construção de tal autonomia há exceções, e temos cases que nos remetem a acreditar que o caminho está sendo pavimentando, mas há ainda muita dependência. No mercado de trabalho, por exemplo, a maioria das mulheres aceita remunerações mais baixas do que as oferecidas para os homens, para assim assegurar a manutenção de sua fonte de renda e atuação formal. A mulher precisa ser incentivada a ingressar na formalidade, mas precisa também exigir salários iguais e participar mais efetivamente de políticas que visem um modelo de desenvolvimento com recorte de gênero.


IHU On-Line – Quais são as principais atividades desenvolvidas pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e quais suas políticas públicas?

Sueli Batista dos Santos –
O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM é um colegiado consultivo e deliberativo e tem uma atuação muito abrangente, sendo que participa na elaboração de critérios e parâmetros para o estabelecimento e implementação de metas e prioridades que visem assegurar as condições de igualdade às mulheres. Inclusive, dentro das suas competências, consta a apresentação de sugestões para a elaboração do planejamento plurianual do governo federal, o estabelecimento de diretrizes orçamentárias e a alocação de recursos no Orçamento Anual da União, visando subsidiar decisões governamentais relativas à implementação do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres. Muitos dos trabalhos do CNDM são desenvolvidos através das Câmaras Técnicas e o colegiado integra a estrutura da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República – SPM/PR.


IHU On-Line – Como a sociedade civil se organiza em prol das políticas públicas para as mulheres?

Sueli Batista dos Santos –
O próprio Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, devido a sua composição, que conta com representantes da sociedade civil e do governo, já é uma demonstração do referido engajamento. Ou seja, há um corpo representativo de mulheres, dos diversos segmentos, inclusive as empreendedoras, representadas pela Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais – BPW Brasil. Além do CNDM, notamos que há na sociedade civil diversas entidades alinhando seus propósitos em prol das políticas públicas, inclusive desenvolvendo projetos para contribuir com a execução de programas de governo voltados à autonomia econômica da mulher. As entidades ligadas a movimentos feministas e de mulheres têm vital importância nesse sentido, até mesmo porque têm uma trajetória na qual não deixaram suas representatividades somente em discursos, mas também na inserção de novos valores e práticas nas relações sociais, políticas e econômicas, sejam em níveis de espaços públicos ou privados.


IHU On-Line – Como analisa a posição das mulheres hoje nos negócios, comércio, profissões e na vida econômica?

Sueli Batista dos Santos –
No foco do empreendedorismo, a mulher está praticamente caminhando lado a lado com os homens. Vale lembrar, para legitimar o que estou falando, que em 2009 o estudo do Global Entrepreneurship Monitor – GEM revelou que as empreendedoras ultrapassaram com 53% os empreendedores, e no último estudo do GEM, em 2010, caíram para 49.3. Se for analisar 3% de erro, em pesquisas, pode-se chegar à conclusão de que há uma perfeita equidade de gênero nesse sentido. Outro dado que é animador e que contribui para a formalidade, é que nos números computados de empreendedores individuais no país em 2011 a mulher já deteve 45% do universo de registros. Na profissão, embora a mulher seja a que mais se sujeita à ocupação de empregos precarizados e de receber em média 30% a menos que os homens, elas têm aumentado suas ocupações em cargos executivos, de gestão e com alta remuneração. No que tange à forma de atuar no mercado, percebe-se que buscam participar mais de eventos para melhorar sua gestão, inclusive de feiras e missões comerciais no Brasil e no exterior. O momento é ainda de transição, mas há visivelmente avanços e temos o que comemorar.


IHU On-Line – De que forma a mulher empreendedora pode promover o exercício de cidadania?

Sueli Batista dos Santos –
Exercendo como qualquer pessoa os seus direitos civis, políticos e sociais. Só conhecendo e entendendo tais direitos é que se pode promovê-los. Especificamente tratando-se da mulher empreendedora, esta deve promover em seus negócios a igualdade de gênero, não colocando a mulher em condições desfavoráveis em níveis de cargos e salários, em relação aos homens.


IHU On-Line – Acredita que os principais objetivos da Política Nacional para as Mulheres ocorrem de forma eficiente no país?

Sueli Batista dos Santos –
Sem dúvida que acredito, mesmo porque vivencio e acompanho resultados nesse sentido, tanto no CNDM, na qualidade de conselheira, como à frente da Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais – BPW Brasil, que é parceira na execução de projetos inseridos nos programas de governo. Vale salientar que são prestadas, por exemplo, contas à sociedade brasileira dos legados deixados tanto pelo primeiro como pelo segundo Plano Nacional de Políticas Para as Mulheres. Isso através de documentos no qual cada ação desenvolvida e parcerias construídas estão contidas. O conjunto de ações é grande e as áreas estratégicas de abrangência também. São experiências compartilhadas que valem a pena ser acessadas, e isso está no Portal do Governo, dentro da SPM/PR, www.sepm.gov.br. Vale a pena visitar e conhecer a gama de trabalhos e publicações originadas dentro dessa esfera.


IHU On-Line – Como são realizadas atualmente as políticas públicas para as mulheres empreendedoras no Brasil?

Sueli Batista dos Santos –
São desenvolvidas através de programas. Vou citar dentre eles, um que conheço muito bem, por atuar como uma das coordenadoras de projetos para sua implementação, que é o Programa Nacional Trabalho e Empreendedorismo da Mulher. Esse tem como objetivo estimular o empreendedorismo feminino, apoiando as mulheres na criação e desenvolvimento de seus próprios negócios. O Programa foi implantado, em 2007, contemplando cinco regiões, e já foram concluídas as etapas da região sudeste, representada pelo Rio de Janeiro; a centro-oeste, representada pelo Distrito Federal; a sul, representada por Santa Catarina. Atualmente está em fase de encerramento a região nordeste, representada por Pernambuco e a região norte, representada pelo Pará. O programa é desenvolvido através de convênios. São parceiros o Instituto Brasileiro de Administração Municipal, o Sebrae e a Federação de Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais – BPW Brasil, em nível individual e através de suas organizações locais. Há ainda a parceria de governos municipais e estaduais e de outras redes locais. No projeto “Gênero, inclusão tecnológica e autonomia econômica da mulher pernambucana”, que a BPW Brasil criou para o referido programa, são realizados cursos de alfabetização digital, políticas públicas, empreendedorismo e educação financeira. O Sebrae ministra os cursos “Juntos somos fortes”, “Determinação empreendedora” e “Aprender a aprender”. Há muitos exemplos no país de ações concretas e com mensuração de resultados de programas que contribuem com o empreendedorismo da mulher brasileira.


IHU On-Line – De que maneira a mulher pode conquistar o seu espaço como cidadã?

Sueli Batista dos Santos –
Se você perguntasse como eu conquistei meu espaço como cidadã, eu lhe diria que foi buscando o conhecimento. Embora no meu caminho tenha havido muitas privações, obstáculos e busca pela superação, foi através da educação que eu tive as maiores conquistas na carreira profissional e como empresária. Portanto, respondo pela minha própria experiência que a educação é o melhor caminho para a cidadania, e quando isso está atrelado a uma consciência política, atuação em rede, principalmente aos movimentos que defendem os direitos das mulheres, em todos os níveis, a conquista da cidadania tem valor agregado, porque ela é plena.


IHU On-Line – Como assim? Em que sentido a cidadania pode ser considerada plena?

Sueli Batista dos Santos –
Foi esta plenitude que exerci quando votei de forma consciente; quando fiz meu juramento como jornalista; quando fundei a Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais – BPW Cuiabá; quando fui eleita presidente da BPW Brasil; quando participei com direito de voz e voto, em todas as conferências nacionais de políticas para as mulheres; quando passei a integrar o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher; quando fui uma das palestrantes no painel “Economia Verde e Responsabilidade Social Corporativa”, que aconteceu no Fórum Internacional sobre Mulher e Desenvolvimento Sustentável, em Pequim, a convite da All-China Women’s Federation; quando chefiei a delegação brasileira no Congresso da BPW Internacional, em Helsink, e falei sobre desenvolvimento sustentável; quando acompanhei na Itália as vencedoras da etapa Nacional do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, como uma das gestoras dessa importante premiação; quando acompanhei a ministra da SPM/PR na 55ª Reunião da Comissão sobre a Situação da Mulher – CSW, na ONU, em Nova Iorque e, principalmente, quando ganhei do Senado o Diploma Mulher Cidadã Bertha Lutz, entregue anualmente só para cinco mulheres brasileiras. Esse resultado eu não obteria se não fosse pela educação, mesmo porque nasci no seio de uma família humilde, na periferia de São Paulo. Mesmo se eu ganhasse sozinha na loteria, e não estudasse, eu não teria essas conquistas.

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