Edição 196 | 18 Setembro 2006

Cartografias da floresta: descobrir e redescobrir o Grande Rio das Amazonas. As crônicas de Alonso de Rojas (SJ) e Christóbal de Acuña

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Em continuidade às discussões que antecedem o Seminário Internacional A globalização e os jesuítas: origens, história e impactos, marcado para  25, 26, 27 e 28 de setembro, na Unisinos, o Instituto Humanitas Unisinos (IHU) oferece, nesta quinta-feira, 21-06-2006, a palestra Cartografias da floresta: descobrir e redescobrir o Grande Rio das Amazonas. As crônicas de Alonso de Rojas, SJ (1640) e Christóbal de Acuña, SJ (1641). A palestrante é a Prof.ª Dr.ª Maria Cristina Martins, da Unisinos. Por e-mail, a historiadora adiantou à IHU On-Line que os relatos feitos pelos jesuítas são de “notável modernidade”, pois aliados a novos instrumentos teóricos, “se apresentam como um corpus documental ainda capaz de fazer avançar o conhecimento”. Além disso, proporcionam o diálogo transdisciplinar entre antropologia, história e lingüística. O evento é gratuito, aberto a toda comunidade acadêmica, e acontece na Sala 1G119 do IHU, às 17h30min.


Maria Cristina Martins é graduada e mestre em História pela Unisinos. Doutorou-se na mesma área, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com a tese A festa guarani nas reduções: perdas, permanências e recriaçã,   com a historiadora Eliane Cristina Deckmann Fleck, também docente na Unisinos, é organizadora da obra Dossiê América Latina Colonial. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004.
Entrevista com Maria Cristina Martins

Crônicas jesuíticas, um relato atual

IHU On-Line - Como é possível descobrir e redescobrir o Rio Amazonas nas crônicas de Alonso de Rojas e Christóbal de Acuña?
Maria Cristina Martins –
Devemos lembrar primeiramente que, desde os tempos iniciais da conquista e através da utilização da escrita e de outros dispositivos de poder, os europeus observaram e construíram a realidade americana à semelhança de sua própria. Assim é que, a partir do “texto fundante” do dominicano Francisco de Carvajal, Relación del  nuevo descubrimiento del famoso Rio Grande …  de 1540,  uma série de narrativas sobre a Amazônia contribuíram para configurá-la, tanto como espaço geográfico-histórico, quanto como espaço simbólico. As crônicas de Rojas e Acuña, respectivamente o Descubrimiento del Rio de las Amazonas y sus dilatadas Províncias … (1640)  e o Nuevo Descobrimiento  del gran rio de las Amazonas (1641) , escritas um século após a “viagem inaugural” de Orellana  e Carvajal, inserem-se neste  conjunto de textos pelos quais se construiu historicamente uma certa compreensão sobre a Amazônia e suas populações, na mesma medida em que, a partir de atuais aparatos conceituais e de crítica, podemos rever e reescrever novos entendimentos  sobre elas.

IHU On-Line - Que aspectos destacaria como mais marcantes desses relatos? Como é a linguagem utilizada?
Maria Cristina Martins –
Eles são, primeiramente, a evocação de um mundo fascinante e remoto, são notícias de aventuras fantásticas em meio a povos e lugares que, aos olhos dos europeus, se apresentavam como portadores de radical alteridade. Eles são fonte historiográfica, mas também testemunhos de experiências pessoais e coletivas, marcadas pela esperança e pelo desejo (de riqueza, sucesso e  glória) de um lado; de outro, de fome, medo e miséria. São o registro de encontros perdidos no tempo, e das formas pelas quais estes encontros poderiam se configurar: estranhamento, rechaço e conflito em alguns casos, ou  hospitalidade e  acolhida festiva  em outros. Talvez o dado mais significativo destes textos, contudo, esteja na oportunidade que eles oferecem para a revisão de alguns paradigmas acerca das populações amazônicas à época da conquista européia. Eles corroboram, assim, as indicações de modernos estudos arqueológicos na região, no sentido de que o padrão de ocupação da várzea pelas populações ribeirinhas era muito diferente daquele que se estabeleceu junto com a afirmação da ordem colonial, isto é, os relatos quinhentistas e aqueles das primeiras décadas dos seiscentos nos falam de grandes aldeias, densamente povoadas, ocupando as margens do “Grande Rio”.

Segundo tais textos, os povoados cobriam amplos espaços, ainda que de forma descontínua, e suas sociedades apresentavam um grau de complexidade e sofisticação muito maior do que tradicionalmente lhes é atribuído. As aldeias, que se comunicavam por meio de caminhos abertos na mata, teriam amplas praças e imponentes paliçadas, isto é, algumas possuíam estruturas públicas, possivelmente de caráter político-cerimonial. Nelas, ao lado da caça e da pesca, criavam-se  tartarugas (as crônicas falam de “currais” com centenas delas) e  havia se estabelecido uma agricultura capaz de prover com folga estas populações. Seus chefes eram imponentes e capazes de convocar apreciável número de soldados e aliados. Ou seja, mesmo os modelos teóricos tradicionais sobre a demografia e os padrões de assentamento indígena pré-colombianos (Steward, 1946-1949; Service, 1962), segundo os quais o ambiente da  floresta amazônica  não teria permitido  ou oportunizado o estabelecimento de grandes populações  e  o surgimento de sociedades complexas, passam  a ser  alvo de revisão.

IHU On-Line - Qual é a atualidade dessas crônicas? 
Maria Cristina Martins –
Creio que, como afirmei acima, sua atualidade se revela na medida em que, à luz de novos instrumentos teóricos, elas se apresentam como um corpus documental ainda capaz de fazer avançar o conhecimento. Elas são também, uma feliz oportunidade para o diálogo transdisciplinar – entre a antropologia, a história e a lingüística, por exemplo, o que, sem dúvida, se revest, também, de notável modernidade. Além do mais, elas são, na grande maioria das vezes, o único registro histórico disponível sobre populações que, em meados do século XVIII, haviam já desaparecido.

IHU On-Line - O que elas revelam desse ecossistema naquele momento? Como esses relatos podem ajudar as gerações atuais na conscientização do cuidado com a natureza?
Maria Cristina Martins –
As crônicas chamam a atenção para a riqueza dos recursos naturais da região: falam da abundância de pescado, tartarugas, peixes-boi, entre outros. Falam também de extensas roças com grande produção de milho e mandioca, alimentos que permitiram aos aventureiros europeus sua incursão sobre um ambiente que não conheciam e que, para eles, era hostil e amedrontador. Lamentavelmente, contudo, elas nos lembram que a dinâmica que a história imprimiu a esta região trouxe resultados tremendamente infelizes para suas populações. Algumas décadas depois das “relações” de Rojas e Acuña, os europeus estavam produzindo o “descimento” de índios do interior para repovoar a região...

 

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