Edição 379 | 07 Novembro 2011

José Alberto Baldissera

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Thamiris Magalhães

Muito exigente. O professor do curso de História da Unisinos, José Alberto Baldissera, assim se autodefine. Docente e apresentador do programa Desatando Nós da TV Unisinos, Baldissera procura ser organizado e diz que sempre busca fazer o melhor possível, mesmo sabendo que muitas vezes deixa a desejar. Ator profissional, já ganhou diversos prêmios. Seus maiores sonhos são continuar tendo muita saúde e ainda poder viajar bastante. Conheça um pouco mais da sua história, em entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line.

Autodefinição – A pior coisa é nos definirmos. Mas acredito que sou bastante exigente comigo mesmo. E se sou comigo mesmo, também sobra para os outros. Aprendi isso com meus pais, essa questão de responsabilidade. Eles me ensinaram duas coisas que nunca esqueço: respeito aos outros, de qualquer religião, nível social, etnia, orientação sexual etc., e exigência consigo próprio, sempre fazer o melhor. Além disso, procuro entender as pessoas e gosto também que elas me entendam.

Origem – Nasci em Veranópolis, aqui no Rio Grande do Sul, e depois vim para São Leopoldo, já com 16 anos, para estudar. Fiquei morando 22 anos aqui e depois fui para Porto Alegre, onde estou até hoje. Moro sozinho a maior parte do tempo. Meus pais já são falecidos, mas chegaram a morar certo tempo comigo em São Leopoldo. Tenho um irmão que mora em São Leopoldo, outro em Porto Alegre e um que faleceu pequenininho, com seis meses de idade. Nunca casei. Já estive em outros estados civis, mas não casado. Não tenho filhos.

Formação – Formei-me na então Faculdade de Ciências e Letras Cristo Rei, de São Leopoldo, que depois deu origem à Unisinos. Quando eu terminei os cursos, começou a Unisinos. Estudei na Faculdade durante toda a década de 1960, cursando Filosofia, História e Letras – Português. Fiquei nove anos lá. Antigamente, fazíamos mais rápido os cursos. Em nove anos, fiz três licenciaturas. Fiz mestrado, na área de educação, mas dirigido ao ensino de história, e doutorado, ambos na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Tenho dois livros publicados e vários artigos, um feito a partir da dissertação de mestrado, intitulado O livro didático de história e uma visão crítica; o outro, como organizador em parceria com um colega, cujo título é Qual ensino? Qual história? E qual cidadania? Durante o mestrado, por minha conta, fiz uma disciplina como “sanduíche” nos Estados Unidos, na Universidade de Cornell.

Ingresso na Unisinos – Em 1975 e 1976 fiz dois cursos de Especialização na Unisinos. Nessa ocasião, fui convidado a participar do curso de História por uma colega que faleceu ano passado, a professora Beatriz Franzen , que era a coordenadora do curso. Então, foi quando comecei a dar aula de História Antiga, em 1976, há exatamente 35 anos. Hoje, leciono para o curso de História, trabalhando com os alunos que fazem estágio de História e também a disciplina História e Imagem. Trabalho ainda com a área da administração, que é no curso Gestão, Inovação e Liderança – GIL. Além deles, ainda apresento um programa na TV Unisinos e assessoro as gravações das aulas em Educação a Distância (EAD).

Teatro – Comecei a fazer teatro em 1962, mas naquele tempo era teatro universitário. Teatro que a Faculdade, depois Unisinos, continuou. Nós, inclusive, viajamos para atuar. Era a época em que o teatro universitário tinha muita importância no Brasil. Depois, com a ditadura civil-militar, praticamente não houve como manter aberto, porque ele era muito apontado, os estudantes eram os mais visados, junto com os artistas e professores de história e filosofia. Comecei a fazer teatro profissional em Porto Alegre em 1972. Já totalizam cerca de quarenta peças encenadas; desde textos mais comerciais, passando Shakespeare e também tragédias gregas. Mesmo assim, em 1979 nós repetimos uma peça aqui na Unisinos, com grande sucesso, que havia sido produzida em 1969, que era a Rômulo – O Grande. Depois, ainda cheguei a atuar com a mesma peça em Porto Alegre em 1989. Já fiz cinema também, uma dúzia de curtas-metragens, e participei de três longas daqui do Rio Grande do Sul. Foram sempre participações especiais. Faz dois anos que não atuo em teatro por outros compromissos, mas ano que vem pretendo voltar.

Prêmios – No teatro, já ganhei alguns prêmios. Não sei se merecidos, pois havia concorrido com colegas excelentes. Mas como receber um prêmio é sempre muito bom, e faz bem pro ego, claro que aceitei. Por Rômulo – O Grande ganhei o Prêmio Açorianos de melhor ator. Em 2007, ganhei o Prêmio Açorianos de melhor ator coadjuvante, em uma tragédia grega – Medeia, em que interpretava um escravo. Ademais, ganhei um prêmio também do sindicato dos atores do Rio Grande do Sul, em 1994, por um velho cego, na peça Alpes em Chamas. Outros prêmios também foram ganhos no teatro amador.

TV Unisinos – Tenho um programa chamado Desatando Nós, que é de entrevistas – já foram feitas mais de 300, e também realizamos gravações de educação a distância – EAD. Funciona assim: os professores gravam e faço uma espécie de assessoria nas gravações das aulas em EAD. Estou na TV desde quando ela começou, em 1999. No programa, entrevistamos professores (daqui ou de fora), funcionários, pesquisadores, alunos, artistas de teatro, enfim, pessoas interessantes que sempre têm alguma coisa para dizer. Até o ex-presidente Lula nós já entrevistamos, antes dele ser presidente da República.

Trabalho – Trabalhei em escolas do Estado, e também particulares. Em escolas estaduais fiquei mais de 35 anos. Estou aposentado desde 1995. Continuo trabalhando agora só na Unisinos. Fui alfabetizador numa vila aqui em São Leopoldo por quase seis anos, logo que comecei a estudar na Unisinos. Aprendi muito sobre isso com uma colega professora, na época com mais idade do que eu, e com mais experiência. Daquele tipo de professora que entendia tudo e que, hoje, já quase não existe mais. Foi uma das melhores fases da vida de professor.

Lazer – Quase não tenho horas livres. Meu tempo disponível tiro para estudar aquilo que eu tenho que fazer. Gosto de ir ao teatro, cinema, o que acaba fazendo parte do que estou trabalhando, porque, por exemplo, a arte, como pintura, escultura, arquitetura, e também o cinema, fazem parte da História. Há mais de 15 anos me interessa a relação entre História e Imagens, por isso faço pesquisas nessa área, inclusive com vários artigos publicados. Então, o lazer acaba fazendo parte do próprio trabalho. Além disso, adoro viajar, conhecer coisas, culturas novas e pessoas diferentes.

Organização – Têm três coisas em torno das quais procuro organizar a minha vida: trabalho, que é dar aula e a televisão; o teatro, que é a minha outra profissão. Tenho carteirinha e tudo do sindicato dos artistas do Rio Grande do Sul, ou seja, sou sindicalizado, e o outro bloco é viajar – disso não abro mão, já que aproveito para estudar, pois tudo tem relação com os assuntos que trabalho em aula e pesquiso.

Autor e livro – Tem um livro que já li várias vezes e para mim o personagem e o livro são muito significativos, que é o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Esse é o personagem que mais chamou minha atenção na vida, porque acredito que acabamos sendo, de alguma forma, Dom Quixote em nossas vidas, senão o tempo inteiro, pelo menos em muitos momentos, vivendo no mundo dos sonhos, querendo conquistar uma coisa ideal.

Filme – Penso mais em filmes do cinema antigo, considerados cult, que acabam sendo reprisados e fazem muito sucesso, como Cidadão Kane, Casablanca, ... E O Vento Levou. Além deles, nunca esqueci o filme de Fellini, cineasta italiano, A Estrada da Vida, um longa simples, pobre, do neorealismo italiano, que é lindo. E outro, também de Fellini, Amarcord, que é belíssimo. Além deles, gostei muito do filme Agonia e Êxtase, sobre Michelangelo e a pintura da Capela Sistina.

Religião – Fui batizado na Igreja Católica pelos meus pais que eram católicos praticantes, mas considero-me católico não praticante. Acredito que religião é acreditar que existe alguma coisa, não precisa ter nome. Tudo bem que temos que respeitar todas as crenças, porém, não necessariamente precisamos ser catalogados dentro de uma determinada religião, seja ela qual for, para termos uma consciência religiosa. Acredito que existe algo superior.

Sonho – Não tenho sonhos muito exigentes. Primeiramente, desejo ter muita saúde, porque sem ela não fazemos absolutamente nada, e depois viajar bastante ainda. E ler muita coisa que está atrasada.

Unisinos – Estou há 35 anos na Unisinos. Estudei mais nove, quando ainda era Faculdade. Estou, então, praticamente há 45 anos aqui. Mais da metade da minha vida, muito mais. Ela representa muita coisa. Coisas boas como estudar, trabalhar, conviver com pessoas. Se eu falo da minha vida, não posso deixar de incluir a Unisinos de qualquer forma. Para mim está sendo muito bom. Olho para trás e penso que a Unisinos faz parte da minha vida, é lógico. A maioria das recordações é muito boa.

IHU – Já participei bastante, concedendo entrevistas e alguns textos para a revista. Leio sempre e recomendo vários artigos para os alunos. É uma publicação séria e muito elogiada. Além disso, tenho recomendado a revista para pessoas de fora, como professores de outras universidades, que gostam bastante.

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