Edição 196 | 18 Setembro 2006

Antônio Vieira: um jesuíta milenarista

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Durante o Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que acontecerá na Unisinos, de 25 a 28 de setembro, o professor Marcus Alexandre Motta, da UERJ, será o responsável pela palestra Antonio Vieira: um jesuíta milenarista.


Marcus Motta é professor no Departamento de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa e Filologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e da Universidad Politecnica de Valencia. Graduado em História pela Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro, é mestre em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a dissertação O imaginário da conversão: retórica, missão e fé nas cartas de José de Anchieta, e doutor em História pela UFRJ, com a tese Essa nova e nunca ouvida história: escrita e história na História do Futuro de Antônio Vieira. É também pós-doutor pela Universidade de Lusíada, Portugal.
Motta é autor de Anchieta - Dívida de Papel. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000; Antônio Vieira - Infalível Naufrágio. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001 e Desempenho da Leitura - sete ensaios de Literatura Portuguesa. Rio de Janeiro: Sete Letras, 2004.
A seguir, a entrevista que Motta concedeu, por e-mail, para a IHU On-Line, falando sobre Antonio Vieira. Confira:

IHU On-Line - O que faz de Antonio Vieira um jesuíta milenarista?
Marcus Motta -
Posso entender sua pergunta de um modo menos contábil e mais contemporâneo, tomando as idéias de Vieira como algo sem eixos temporais de circunscrição. Se pensarmos que a escatologia é um além da história, chamando os homens para a jurisdição da história e do futuro, suscita que o cálculo é a plena responsabilidade de fé que a chama. Tal chamamento implica uma tomada de posição capaz de produzir um valor de fé que afirma a existência de uma identidade religiosa antes da eternidade, antes da conclusão da história.

Vieira vive um mundo de guerras que acaba com tudo sem deixar nada acabar de fato. Ser milenarista é, num tempo de guerra e impérios, manter a aptidão para a palavra fim – já que guerra e impérios são mundos em que não se fala, mas que apenas dita sua continuidade. É na fala escatológica – como alguém que se levanta e diz: “Existo e me responsabilizo pelo mundo” – que se consegue uma significação sem contexto, na qual a visão milenarista se consuma numa ética; que, de fato, é uma ótica; visão sem imagens, pois o brilho da transcendência impõe a “subjetividade” que fala o instante em que os olhos se retiram do céu e se colocam expressivos na pronúncia da fé no mundo, segundo o cálculo do fim. Espero que tenha me feito compreender.

IHU On-Line - No seu livro, Infalível naufrágio, o senhor apresenta a vida do padre Vieira por meio de diálogos teatrais entre os personagens: a Ironia, o Luto e o Mar. Quem esses personagens representam?
Marcus Motta -
De fato, a Ironia, o Luto e o Mar são personagens, na medida em que pronunciam uma história a ser contada – aquela de Antônio Vieira. Ao mesmo tempo, não são personagens em razão de demarcarem expressões de idéias que comungam o valor de uma mente jesuítica. Quero dizer que: a Ironia, na sua forma sublimada, equivale à relação distanciada entre a noção de destino e Providência, sendo, portanto, um tipo de sorriso na certeza antecipada do fim – entra no livro para dar tom ao não de Vieira ao mundo; o Mar é a maestria desse equipamento de um novo Céu e um novo Sol da profecia de Isaías, aquilo que permite Vieira a “revisionar” os saberes da fé ante uma nova humanidade, os antípodas, reconhecer as transformações do Mesmo e simular uma metáfora última de Deus; já o Luto é uma antecâmera da metafísica no agora do mundo, é um tipo de desejo de fé pela plenitude das coisas dos mortos. Em Vieira, o luto acontece no favor que o fim promove como momento derradeiro, quando se há de decidir o valor da fé em um mundo cansado de tanto esperar pela felicidade, à qual os homens têm por direito.

Assim, A Ironia, o Luto e o Mar são rostos que não detêm uma figuração delineada de suas presenças, e sim fazem brilhar a exterioridade da subjetiva assimetria da impessoalidade de Antônio Vieira, pois ele é um artista em língua portuguesa.
 
IHU On-Line - Como a história de Portugal se entrelaça com a história de vida de Pe. Vieira?
Marcus Motta -
Esta pergunta é um tipo de antecipação historicista, que promove um contexto para dar sentido à obra de Vieira. Contrário a essa determinação, proponho a seguinte sentença: a obra de Antônio Vieira é fenômeno histórico e não fenômeno circunscrito à época. A sua obra traduz perfeitamente a ambigüidade fundamental da arte discursiva no esforço de apreender, para além das circunstâncias de época, o significado máximo do tempo para um religioso. Ora, salvar-se ou perder-se depende do que se faz. Quem tem poder está acima da ambigüidade e da incerteza; a revelação é graça, a graça salvação, o poderoso é um salvado. O artista Vieira deve salvar-se com aquilo que faz; ser capaz de intuir a revelação além do fenômeno. A época pode fornecer-lhe o patrimônio; a vida pode dar-lhe sustentação, os homens do poder podem indicar-lhe o que deve fazer, o objetivo que deve alcançar, mas nenhum desses traços pode indicar-lhe a maneira de agir, de alcançar o objetivo.

Tal aspecto teórico demonstra que o escritor Vieira realiza uma experiência que demanda o mais preciso e adequado ao assunto que trata, tornando-se com ele uma expressão que escapa das medidas comunicativas às quais todos estamos acostumados. Mas isso torna ainda mais difícil o resultado historiográfico; ao passo que, a partir da vida una e coesa da historiografia ou marcada por contornos de caráter e contexto, as frases de Vieira são gratificadas com certa apreensão, estabelecendo parâmetros métricos para a cultura positivista que ainda nutre os estudos dedicados ao jesuíta.

IHU On-Line - O senhor pode explicar a idéia contida na imagem do "entardecer do Reino", e do "Quinto Império", proposto por Vieira, por meio das faculdades de perdoar e prometer?
Marcus Motta -
O “entardecer do Reino” foi uma expressão que pensei para dar conta do momento em que se conta uma história, pedindo à noite que empreste forma ao amanhã. Rapidamente abandonei essa expressão em favor da seguinte sentença: o livro Anteprimeiro da História do Futuro se expressa tal e qual um prefácio do que ainda não é, segundo uma ressonância do apelo ao futuro que testemunhará a arcaica familiaridade entre ler, predizer e evocar. Já o Quinto Império no escrito de Vieira obtém autonomia do seu quadro bíblico. Essa autonomia é o elemento messiânico em si mesmo – o reino de Deus como tê-los de seu domínio histórico. De algum modo, o Quinto Império é o movimento espiritual que conduz os homens à imortalidade – o Reino da Justiça e da Felicidade. Perdoar e prometer são claros sentidos da Fé antes de qualquer tematização. Se eu fosse responder, o que de fato são tais faculdades, estaria a torná-los temas, e, com certeza, me negaria como cristão. Há no perdão e na promessa a improcedência de qualquer significação. São estados éticos, pré-significativos, que não se ajustam a uma tematização da moral que carregam e, portanto, são sempre, e já, história do futuro.

IHU On-Line - Como essas faculdades contribuem para o pensamento e o viver contemporâneo?
Marcus Motta -
No âmbito de nossos dias, é possível pensar que o livro Anteprimeiro da História do Futuro (perdão e promessa) nos conduza à restituição de uma secularidade messiânica. Isso significa dizer: o ritmo que se desprende da leitura desta obra é a realidade do eternamente evanescente de nossas preocupações poéticas com a felicidade dos homens, pois sua ressonância messiânica é a nossa natureza a par de sua eternidade evanescente. Pensar essa evanescência é ter um método poético sem apelo a qualquer niilismo. Melhor: uma forma de concepção mística da história, sem poder expor tal concepção por uma imagem – e no lugar dessa impossibilidade expositiva, surge um presságio: há de se abrir mão da inteligência do saber em favor de saber sentir-se responsável pelo luto e pela manhã de todos os homens.

IHU On-Line - O que representa o "desmaio do Mundo", de Antonio Vieira?
Marcus Motta -
Outra expressão que foi abandonada. Ela surgiu num texto publicado, tentando dar sentido ao momento em que se induz o mundo a dormir. Estando dormindo, a moral, a justiça e a felicidade se tornam inatacáveis no sonho. Hoje admito que a expressão deslize facilmente na mente do leitor, perdendo força.

IHU On-Line - Os escritos de Vieira representavam o drama do Mundo que visivelmente se arruinou em política, religião e linguagem. Qual a contribuição desses escritos na conjuntura atual? É possível estabelecer uma relação entre o mundo em que vivemos e o mundo retratado por Vieira em seus sermões?
Marcus Motta -
Não há contribuição no sentido comum do termo e nem uma relação direta com o mundo de Vieira – que por sinal ele nunca retratou. Não herdamos coisas de Vieira, mas sim uma tarefa. A herança que ele nos deixa é uma tarefa. Tarefa esta que não fica como uma aplicação de suas palavras e idéias. O que vou falar vai soar delírio. O que eu quero dizer é que temos que ser Vieira para ler Vieira, sermos autores, como ele, dos seus textos – como o conto Pierre Menard autor de D. Quixote, de Jorge Luís Borges. Sem esse gesto nunca teremos como cumprir a tarefa, pois a tarefa é reivindicar o direito de não supor para a herança um sistema de entendimento, nem um sistema de mundo, propriamente dito, a ele conseqüente, e tampouco a exigência de unidade em nossos julgamentos sobre o que Vieira é; o que intenta a tarefa é a idéia de que no esforço de Antônio Vieira há a criação de um escape para a nossa precária humanidade – chamo a isso de literatura.

IHU On-Line - Qual a principal contribuição de Vieira no período da colonização? E sua principal crítica à colonização?
Marcus Motta -
A contribuição seria a manutenção de um projeto próprio à Companhia de Jesus, forjado no século XVI por Nóbrega, Anchieta e outros. Este projeto missionário é quase uma autonomia em relação ao projeto de colonização dos leigos. As missões são uma novidade imensa no cenário da colonização; um tipo de justiça que pretende cumprir a ação humanista criada no renascimento artístico. Claro que houve várias circunstâncias que quase apagaram esse valor; contudo as ações de Vieira no Maranhão e Grão-Pará dão a medida dos riscos e do valor desse projeto. Já sua maior crítica é: Portugal não deixa de ser Portugal, o que significa que não cumpre sua missão de fé.

IHU On-Line - Por que acha que sua trajetória contribui para pensar sobre os jesuítas em tempos de globalização?
Marcus Motta -
Bem, eu conheço poucos que tenham a envergadura humana de Vieira. E se tomo o livro Anteprimeiro como medida, posso dizer que não conheço nenhum autor, pelo menos em língua portuguesa, que tenha provocado qualquer coisa próxima à força do título História do Futuro e tampouco consigo achar algo mais revelador do que sua atitude de desespero e esperança para com o futuro; sequer alcanço enxergar outra percepção humanística que tenha feito do procedimento do declínio de um tipo de mundo o rascunho da esperança absoluta na escrita autoral, forçando-a a ser a evidência do fim para o sofrimento humano (com todos os limites de seus “preconceitos”). Isso já seria mais que suficiente para pensar o papel dos jesuítas em tempos de globalização. Em Vieira, encontra-se um tipo de respeito à alteridade, que é, assim gosto de pensar, uma marca da Companhia de Jesus. Num mundo como o nosso, feito de tantas certezas flácidas, o rigor de Vieira em pensar a resolução de todos os problemas humanos é de fato encantador. Claro que o nosso mundo parecerá mais complexo do que aquele no qual Vieira viveu; porém, lendo, o sinto o avesso de nós; ou seja, nossas vidas parecem rápidas porque temos a alma lenta, o mundo de Vieira parecia mais lento porque sua alma era veloz.
 
IHU On-Line - Qual o papel de Antonio Vieira nas relações Metrópole-Colônia?
Marcus Motta -
Papel nenhum. Posso dizer que ele é a cara e a coroa daquela relação; um inventor tremendo do século XVII português. Não há ninguém com sua estatura em Portugal do período. Seu nome é imenso como o mar que divide o jogo de espelho entre Colônia e Metrópole

IHU On-Line - Qual a principal riqueza da obra História do Futuro? O que é o futuro para Vieira?
Marcus Motta -
A História do Futuro é única forma de escrever-se de maneira cristã o tempo da espera. E como tal, o Futuro é uma relembrança por antecipação messiânica.

IHU On-Line - Como era o mundo sonhado por Antônio Vieira diante das descobertas que desvelam realidades em mudança?
Marcus Motta -
Ele é assim (sinto-o de maneira delirante e alegre): uma nova e nunca ouvida história. Isso quer dizer: que o mundo sonhado por Vieira é um tentar redizer (ele assim o fez) sem cerimônias o que já foi mal entendido no inevitável que há em cada coisa que vai de um Mundo ao outro - as expectativas não realizadas. Logo, o “mundo” de Vieira recebe de todos os mundos – aqueles de antes ou aqueles de depois, incluindo o nosso – aquilo que nos falta cumprir das expectativas irrealizadas em qualquer um deles. O mundo de Vieira ainda é o meu mais uma vez, pois nada de fato mudou – a desesperança parece ser o único patrimônio a que temos direito.

 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição