Edição 375 | 03 Outubro 2011

O passado pode nos ensinar a seu próprio respeito

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Thamiris Magalhães

Embora a atitude crítica não seja cultivada pelos seus praticantes, os estudos de arqueologia da mídia, pela sua própria metodologia, estabelecem confrontação de seus resultados com o culto do novo que tanto marca a cultura da mídia e o avanço das tecnologias, constata Francisco Rüdiger

A arqueologia da mídia pode ser entendida como um “método de estudo da história, em que as técnicas de comunicação são iluminadas pela cultura e o imaginário social de cada época, em que se pesquisam as conexões, mas também as rupturas, as continuidades e esquecimentos do processo em que os fenômenos de comunicação, seus meios sobretudo, se vão formando e entrelaçando com outros processos e estruturas coletivas”. É o que afirma o docente Francisco Rüdiger, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para Rüdiger, os estudos de mídia costumam ser ofuscados pelo fetiche da novidade. “O novo tem um valor intrínseco nesse meio profissional e intelectual. O resultado é uma cegueira para o fato de que um processo histórico precede e ajuda a entender o seu aparecimento, tanto quanto a dinâmica de seus fenômenos”. Para ele os estudos arqueológicos evitam o historicismo puro e simples, que nega a criação inovadora, mas também o culto do modismo de última hora, que desconhece o lastro do presente dentro do passado.

Francisco Rüdiger é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1995) e mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1987). Professor Titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Seus estudos concentram-se no campo da crítica à indústria cultural e dos estudos sobre pensamento tecnológico e cibercultura. É autor, dentre outros, de As Teorias da cibercultura: perspectivas, questões e autores (Porto Alegre: Sulina, 2003, 2007, 2011) Cibercultura e pós-humanismo (Porto Alegre: Edipucrs, 2008) e As teorias da comunicação (Porto Alegre/São Paulo: Artmed/Penso, 1995, 2010).

Confira a entrevista.
 

IHU On-Line – Como podemos definir a arqueologia da mídia?

Francisco Rüdiger –
Inspirando-se na metáfora da arqueologia do saber proposta no final dos anos 1960 por Foucault, alguns estudiosos contemporâneos têm se valido da expressão para dar conta, hoje, dos estudos que buscam as formas e inventos culturais originários, ou melhor, que subjazem ao que se entende por meios de comunicação desde o final da II Guerra Mundial. Siegfried Zielinski, Tom Standage , Erkki Huhtamo  e Jussi Parikka, esses dois últimos finlandeses, são alguns dos pesquisadores considerados referenciais em relação ao desenvolvimento desta linha de investigação. Também inspira esses autores o estudo inacabado de Walter Benjamin  sobre a Paris do século XIX, o qual ele pensou que pudesse valer como um estudo de pré-história da cultura e modo de vida instalados plenamente no século XX. Lá e cá, existe a preocupação em entender as relações entre técnica e cultura sem reducionismo e desde um ponto de vista genético, ainda que descontínuo.


IHU On-Line – De que maneira estudar o conceito pode contribuir para o melhor entendimento das “mídias mortas” e das atuais?
Francisco Rüdiger –
Os estudos de mídia costumam ser ofuscados pelo fetiche da novidade. O novo tem um valor intrínseco nesse meio profissional e intelectual. O resultado é uma cegueira para o fato de que um processo histórico precede e ajuda a entender o seu aparecimento, tanto quanto a dinâmica de seus fenômenos. Os estudos arqueológicos evitam o historicismo puro e simples, que nega a criação inovadora, mas também o culto do modismo de última hora, que desconhece o lastro do presente dentro do passado. A contribuição que nos fornecem está, em resumo, na lembrança do fato de que as formas técnicas e culturais, incluindo aí as da mídia, não costumam falecer, mas, uma vez criadas, são antes reelaboradas em novas circunstâncias, ainda que por vezes possam sofrer uma longa hibernação. O helicóptero foi desenhado por Leonardo da Vinci , para se tornar realidade no século XX. Serviços que hoje nos presta a internet são derivados de experimentos noticiosos com a telefonia no começo do século XX.


IHU On-Line – Podemos compreender a mídia como histórica, a partir do conceito de arqueologia da mídia?

Francisco Rüdiger –
Sim, mas considerando que a perspectiva desta última abordagem não é necessariamente continuista. A pesquisa deve estabelecer os casos e os planos em que há continuidade no fenômeno de mídia em consideração, tanto os casos e planos em que se verificam rupturas ou, mesmo, perdas, abandonos, esquecimentos de um elemento histórico.


IHU On-Line – Com os estudos da arqueologia da mídia seria possível “desenterrar caminhos secretos na história”, como disse Zielinski? E isso poderia nos ajudar a encontrar nosso caminho para o futuro? Por quê?

Francisco Ricardo de Macedo Rüdiger –
A conexão entre passado e presente, sempre que colocada em perspectiva, em vez de retrospectiva, é, em geral, um expediente assegurador de nossa boa consciência ou um esforço legitimador de nossos projetos – o que é problemático desde uma reflexão criticamente estruturada. O passado pode nos ensinar a seu próprio respeito e muito sobre as situações de onde viemos, mas não creio que possa nos dizer para onde vamos ou o que devemos fazer atualmente e/ou doravante. A contribuição que ele pode nos dar, nessa direção, é no sentido de aumentar nossa massa crítica e capacidade de reflexão sobre o que está ocorrendo e, eventualmente, sobre as bases dos planos de ação que pretendemos pôr em prática. Os “caminhos secretos da história” não são da história mesma, do processo histórico, mas do saber que, vasculhando seus materiais, seu legado, descobre planos, fatos e processos que podem nos ampliar não apenas o conhecimento do passado, mas o saber com que podemos intervir no contemporâneo. O processo histórico, embora se ancore em estruturas legadas pelo passado e que ele mesmo reproduz, é histórico, sobretudo porque é, também, criação.


IHU On-Line – A arqueologia da mídia é um conceito que pode ser tensionado com a pós-modernidade, especialmente por esta trazer a ideia de amnésia histórica?

Francisco Rüdiger –
Levando em conta que o conceito de pós-modernidade é, em seu sentido mais forte e apropriado, um conceito de filosofia da história, fica difícil aceitar que ele, no plano reflexivo, onde se constitui, implique em amnésia histórica. Pelo contrário, vendo bem, constata-se que os pós-modernos e, às vezes, os pós-modernistas (os cultores do pós-moderno) são essencialmente historicistas. Claro que se trata de um historicismo renovado, distinto daquele que se impôs no começo da modernidade, com as filosofias da história de cunho progressista. O novo historicismo dos pós-modernos pode, inclusive, ser entendido como uma redução do saber ao ato de construir e relatar histórias (no plural). Nesse sentido, reflexivo, ele seria bem o oposto da amnésia que, por outro lado, verifica-se em meio ao cotidiano da pós-modernidade. O capitalismo pós-moderno, radicalizando o consumismo e passando a se apoiar em uma economia que faz da informação cada vez mais veloz, múltipla e renovada a fonte do valor, está na raiz da consciência privada de memória coletiva e, cada vez mais, individual, que encontramos em nosso tempo. Sem dúvida, há aí, portanto, mas falando genericamente, um antagonismo ou um tensionamento dialético entre os estudos de arqueologia da mídia e o mundo tal como esta mídia está ajudando a instituir cotidianamente.


IHU On-Line – Muitos acreditam que, com o advento da internet, surge uma revolução. Algo nunca antes vivido pela humanidade, com a participação dos usuários. Como a arqueologia da mídia se posiciona perante esta ideia?

Francisco Rüdiger –
Embora a atitude crítica não seja cultivada pelos seus praticantes, os estudos de arqueologia da mídia, pela sua própria metodologia, estabelecem uma confrontação de seus resultados com o culto do novo que tanto marca a cultura da mídia e o avanço das tecnologias. Vendo retrospectivamente, verifica-se que toda mídia, da escrita à internet, surgiu em meio a opiniões contra e a seu favor, em meio a vozes que a saudavam ora como uma revolução benfazeja, ora como uma invenção perniciosa, mas sempre e em comum como algo singular, inédito. A perspectiva historicista, em geral, e os estudos arqueológicos, em particular, podem constituir um bom antídoto deste tipo de discurso, cuja proveniência pertence muito mais ao sistema ou às condições mais ou menos gerais que presidem ao surgimento de um meio de comunicação do que à reflexão interessada em seu entendimento. À atividade intelectual caberia ter claro quando é autônoma e quando não passa de um vetor interessado do que ocorre fora dela; quando é livre ou independente, e quando não é senão expressão de um sujeito social roteirizado, isto é, não passa de exercício de vassalagem a algum poder estabelecido. À criatividade que esta atividade sempre contém conviria que estivesse claro, como ideia reguladora ao menos, sua condição emancipada ou heterônoma.


IHU On-Line – Siegfried Zielinski afirmou em A arqueologia da mídia que “se quiser lazer audiovisual ou ler construções de som-imagem-texto, colocarei um disco no drive do CD-ROM quando ele ultrapassar a complexidade que um livro e um videoteipe me oferecem”. Como o senhor avalia essa afirmação?

Francisco Ricardo de Macedo Rüdiger –
De Zielinski, conheço o trabalho citado, mais um ou outro ensaio, e não tenho sobre eles um conceito favorável, tanto do ponto de vista epistêmico quanto do ponto de vista intelectual mais abrangente. Lendo o autor, fica-se, ao menos como primeira impressão, com a ideia de um antiquarismo curioso que resgata materiais em si mesmo interessantes, mas que os explora como matéria morta devido à falta de reflexão histórica mais abrangente. O questionamento, nos seus textos, é ao mesmo tempo muito pobre e exaustivo; exaustivo, porque a análise envereda por uma micrologia do detalhe por demais cansativa; pobre, porque o discurso procede por blocos estanques, não explorando, por desinteresse epistêmico, as conexões dos fatos e problemas descobertos com os processos sociais em curso e os processos históricos de longa duração já conhecidos pelo saber disponível.


IHU On-Line – De que forma a pesquisa (an) arqueológica pode nos ajudar a compreender a arqueologia da mídia?

Francisco Rüdiger –
Creio que o emprego da expressão arqueologia, no fenômeno em foco, é, sobretudo, metafórico e, portanto, o trabalho dos arqueólogos strictu sensu talvez tenha pouco a influir no seu desenvolvimento. Arqueologia da mídia seria, a meu ver, bem entendida como um método de estudo da história, em que as técnicas de comunicação são iluminadas pela cultura e o imaginário social de cada época, em que se pesquisam as conexões, mas também as rupturas, as continuidades e esquecimentos do processo em que os fenômenos de comunicação, seus meios sobretudo, se vão formando e entrelaçando com outros processos e estruturas coletivas. Aproximam-se bastante desse critério as análises sobre a eletricidade e a telegrafia propostas por Carolyn Marvin em When old technologies were new (1990).
 

IHU On-Line – Quais foram as contribuições de Foucault e Flusser para a construção do conceito?

Francisco Rüdiger –
De Flusser parece provir uma preocupação com a materialidade dos meios, enfoque que ele adotou, aliás, de McLuhan . Flusser passou a ser cultuado no final da vida entre alguns pesquisadores europeus, como uma espécie de McLuhan com pedigree. Lendo seus textos sobre mídia e comunicação, porém, não se vislumbra muito além do que fora dito pelo pensador canadense. Excetuando seus textos sobre a fotografia e a arte digital, encontra-se nele muito pouco que justifique atenção maior do que a devida a tantos outros pesquisadores contemporâneos. Já Foucault elaborou uma sofisticada reflexão metodológica sobre o que chamou de arqueologia do saber. O problema é que essa, embora referida, não comparece como tal nos estudos dos arqueólogos da mídia, sendo inclusive uma referência muito mais fraca do que a que neles exerce a pesquisa sobre a pré-história da modernidade proposta e esboçada, em vários textos, por Walter Benjamin. Creio que uma reflexão crítica e epistemológica sobre a arqueologia da mídia, comparativamente, teria de passar muito mais por esta última referência do que pelos textos de Flusser ou Foucault.

 

Leia mais...

Francisco Rüdiger
já concedeu outra entrevista à IHU On-Line:

* McLuhan, da filosofia pop ao ostracismo. Revista IHU On-Line, edição 357, de 11-04-2011

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