Edição 374 | 26 Setembro 2011

Glauber e a catedral latino-americana. Ou o legado que não devemos renunciar!

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Augusto de Sá Oliveira

Em 1958, um jovem baiano de apenas 19 anos, autoproclamado crítico de cinema, escreveu uma sobre o filme Raíces, do cineasta mexicano Benito Alazraki. Se ainda hoje o intercâmbio de filmes latinos dentro do próprio continente é precário, muito mais o era naquela época.

Por Augusto de Sá Oliveira*

Também eram limitadas as informações gerais sobre a cultura destes países no Brasil, e vice-versa. No entanto, o crítico escreve uma resenha longa, comenta o papel pioneiro do jovem realizador Alazraki, a superação das fontes culturais mexicanas, seja o romantismo de Figueroa e Fernández, seja o muralismo de Orozco, Rivera e Siqueiros. Discorre sobre a influência de Zavattini e Eisenstein na obra de Alazraki. Define o filme como uma visão das “raízes do espírito mexicano”, presentes no índio. Indica a importância de uma narrativa psicológica, de o diretor fazer o “lançamento da fome”, e de a cena final trazer um travelling sobre a corrida do marido e da filha no deserto “até a terra diluir o homem e completar a intenção dramática”.
Mais tarde, estes três elementos – o índio, a fome e o travelling da corrida final – estarão presentes em seu filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), sendo o índio substituído pelo sertanejo nordestino, enquanto a fome será o elemento em torno do qual se articularia aquilo que deveria ser o Cinema Novo, bem como o cinema latino-americano, em sua opinião. Conclui reconhecendo que o filme “contribui para o futuro da linguagem cinematográfica no México, nos países latinos e principalmente na Argentina e no Brasil”.

O jovem crítico participará, já como cineasta reconhecido, da Resenha Latino-Americana de Cinema, Gênova (Itália), em 1965, com o seu texto manifesto que ficou internacionalmente conhecido como Estética da fome ou Estética da violência. A fome já foi lançada e reconhecida como tema, no filme de Alazraki. O que desejo destacar aqui é que, em 1958, além de amplo conhecimento geral sobre cinema, principalmente se se considerar a escassez de fontes no Brasil daquela época, ele possui um saber específico do cinema e da cultura latino-americanos – neste caso, do México –, em um período histórico no qual a intelectualidade brasileira vivia de costas para a América Latina. O diálogo que estabelece com o continente desde o começo de suas reflexões críticas e suas primeiras obras, sendo pouco mais do que um adolescente, é pioneiro no cinema brasileiro. Neste ponto, ele se antecipa à intelectualidade brasileira (hegemonizada pelo “nacional-desenvolvimentismo”), que só tomará a América Latina como tema importante de suas preocupações a partir da segunda metade da década de 1960.

Definidos adversários e companheiros de viagem do Cinema Novo, a forma e a intensidade da inserção do movimento na realidade sócio-histórica do país, era necessário deixar claro o contexto em que o Brasil estava inserido, o campo maior de batalha. Isto é, realizar em nível internacional as definições estabelecidas no campo interno, os aliados e os inimigos no plano internacional e a particular contribuição brasileira a partir do cinema. Tratava-se, portanto, de definir o lugar de fala do Cinema Novo nos planos interno e externo, e este era, naquele momento, prioritariamente a América Latina.
Glauber Rocha é o primeiro e principal cineasta brasileiro a ser efetivamente latino-americano, isto é, dotado de uma perspectiva de pensar o cinema e o Brasil inseridos na América Latina, mesmo quando isto era algo que parecia extemporâneo. Sua condição de um “sertanejo” baiano, que ele mesmo fez questão de afirmar e explorar em diversos momentos, a exemplo de “[sou] um sertanejo de Vitória da Conquista que chegou à compreensão científica do mundo e a exprimiu em cinema e letras e política” (Análise do último período, texto inédito), e seu vínculo carnal com o Brasil, afirmado e sustentado por diversos personagens, entre cineastas e críticos (Cacá Diegues, Paulo Emílio, entre outros), já foram por demais estudados e apontados na vasta literatura sobre Glauber e sua obra.
Penso que faltava estudar a sua condição de cineasta latino-americano. É o que estamos fazendo, e, ao ponto que chegamos, já é possível apontar que sua condição de latino-americano, no sentido que afirmamos aqui, é desde sempre, isto é, está umbilicalmente ligada à sua “h(eu)stória”. É verdade também que, nomeadamente a partir dos seus exílios, voluntários ou não, Glauber se torna cada vez mais, principalmente após filmar na África e na Europa, um cineasta terceiro-mundista, mas isto é uma fase posterior.

Glauber Rocha foi um intelectual comprometido com as “causas importantes de seu tempo”, sendo sua originalidade a compreensão de que o Cinema Novo “não pode desenvolver-se efetivamente enquanto permanecer marginal ao processo econômico e cultural do continente latino-americano” (Estética da fome). Para Glauber, o Cinema Novo e o Brasil tinham seus destinos ligados à América Latina, o que não fazia parte do pensamento hegemônico na esquerda brasileira, nem do reformista e tampouco do revolucionário, até meados dos anos 1960. Foi dentro deste cenário intelectual e nesta perspectiva que Glauber se movimentou com grande versatilidade.

Para as novas gerações, 30 anos após a sua morte (22-08-1981), o melhor do legado de Glauber é a sua latinidade, seu internacionalismo. O cineasta Cacá Diegues afirmou que Glauber foi “um grande artista visionário que não se conformou com o estado do país que lhe deram para viver”. E nem com a América Latina que lhe deram para viver.

* Augusto de Sá Oliveira é professor do curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, da Faculdade 2 de Julho (F2J/Bahia), membro do Cepos, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PPGCCC) pela Faculdade de Comunicação – Facom e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, ambos da Universidade Federal da Bahia - UFBA. O autor agradece bolsa de estudos da Capes, realizada na França. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição