Edição 196 | 18 Setembro 2006

A música nos sete povos das missões

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IHU Online

Durante o Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que acontecerá na Unisinos de 25 a 28 de setembro, o professor Décio Andriotti será o responsável pelo minicurso O valor da educação musical nos Sete Povos das Missões. Ele ainda ministrará, na tarde missioneira de 27 de setembro, a palestra intitulada Óperas e principais composições das missões jesuíticas.

E foi justamente sobre a música na época das missões que a IHU On-Line realizou uma entrevista por telefone com o professor, no intuito de adiantar os temas que ele vai abordar no evento da próxima semana.

Décio Andriotti é formado em Humanidades (Letras) pela antiga Formação de Humanidades dos jesuítas, bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Cristo Rei, hoje Unisinos, e licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez pós-graduação em História da Arte pela antiga Faculdade Palestrina, em Porto Alegre. Confira também uma entrevista que ele concedeu à IHU On-Line número 174, de 3 abril de 2006, sobre Mozart.

IHU On-Line - Como se caracterizavam as óperas na época das missões jesuíticas? Quais eram os principais temas?

Décio Andriotti
- Os temas das óperas das missões jesuíticas seguiam o objetivo da catequização: eram temas religiosos (bíblicos ou não) ou históricos (relacionados à religião). No período dos Sete Povos, acompanhava-se o estilo em uso na Europa, que era o barroco. Alguns escritos da época, referentes ao assunto, usavam a expressão “em estilo de ópera italiana”.

IHU On-Line - De onde eram os compositores? Qual o relacionamento que eles tinham com o tema escolhido para suas óperas? 

Décio Andriotti
- Todas as óperas, com exceção de uma, perderam-se ou pela destruição efetuada pela guerra guaranítica ou posteriormente. A única que sobrou foi encontrada na Bolívia e tem duração de pouco mais de meia hora. O CD será apresentado na Unisinos durante a palestra do dia 27 de setembro. Bernardo Illari fez a análise dessa ópera, denominada de San Ignacio. Alguns compositores participaram dela, inclusive indígenas, além de Domenico Zipoli e Martin Schmid. Em São Borja, em 1760, durante a intervenção do exército espanhol, comandado por Dom Pedro Cevallos, organizaram-se festejos para a coroação de Carlos III. Além de outras modalidades, apresentaram, na ocasião quatro, óperas, de 4 a 20 de novembro. Todas seguiam o objetivo catequético e de homenagens.

O perfil dos compositores e intérpretes

As óperas eram cantadas e representadas dentro das igrejas. Não havia teatro. Devido à aculturação, nenhum indício restava da música anterior. Os maiores responsáveis dessa aculturação foram os próprios índios e não as imposições dos padres. Encantados com a cultura européia, descartaram a sua própria. Aliás, isso é fenômeno constante em todas as civilizações e em todas as épocas. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, temos tradições musicais gaúchas. O que mais observamos em Porto Alegre? Músicas gauchescas ou o rock? Se a aculturação ocorre hoje, mesmo com os movimentos de defesa das tradições citadas, imaginem na época! É interessante enfatizar aqui que os índios tinham mais inclinação natural para registros altos de voz. Raros eram os de registro baixo. Eles aprendiam com extraordinária facilidade e rapidez.

IHU On-Line - Quais eram os instrumentos musicais utilizados na época? Eram diferentes dos de hoje? Era acrescido aos instrumentos tradicionais de orquestra algum que lembrasse a sonoridade da música dos índios?

Décio Andriotti
- Os antigos instrumentos indígenas foram praticamente descartados. Eram construídos instrumentos europeus (cordas e sopros), sob a orientação dos padres e irmãos jesuítas. Tão bons que até eram exportados para Europa.

IHU On-Line - Como se deu a introdução da música européia no Brasil por intermédio das missões jesuíticas? Como foi a relação com a música dos índios?

Décio Andriotti
- O período missioneiro divide-se em duas etapas. A primeira, abrangendo as décadas iniciais do século XVII, sofreu a pilhagem e a perseguição dos paulistas; porque Portugal pertencia à Espanha e, como tal, a toda a América do Sul. Após a separação de Portugal, e os paulistas sendo derrotados pelos índios missioneiros, a catequização entrou em nova e próspera fase: a dos Trinta Povos das Missões. Sete deles eram localizados no atual território do Rio Grande do Sul. A nova situação deu um extraordinário impulso para a educação musical missioneira, que durou mais de cem anos.  

IHU On-Line - Essas óperas eram compostas para serem apresentadas para que público?

Décio Andriotti
- As óperas eram pensadas tanto para os missioneiros quanto para os espanhóis que se relacionavam com eles.

IHU On-Line - De que maneira era abordada a imagem do Brasil e para quem se queria vender essa imagem?

Décio Andriotti
- Não existia Brasil, somente Espanha ou Portugal. Devido ao Tratado de Madri (1750), a maior parte do Rio Grande do Sul, que era da Espanha, passou ao domínio português enquanto a maior parte do atual Uruguai passou para o domínio espanhol. Dessa forma, torna-se difícil criar uma imagem precisa e duradoura.

IHU On-Line - Qual o conteúdo fundamental dessas óperas?

Décio Andriotti
- Imagens bíblicas, preceitos religiosos ou personagens históricas e católicas. Além disso, eram constantes as referências sobre tentação, demônio, pecado e ética. Raros eram os conteúdos políticos.

IHU On-Line - Como foi o processo de educação musical nos sete povos das missões? Qual o valor que isso representava para os jesuítas e para os índios?

Décio Andriotti
- Nos Sete Povos das Missões, houve um jesuíta muito especial: o austríaco Padre Sepp, fundador da missão de São João Batista. Reformulou e modernizou, para a época, a música nas missões, em geral, e nos Sete Povos, em particular. Trouxe a nova escrita musical e os novos estilos, principalmente o barroco mais moderno, que era o austríaco. Ensinou partituras de novos compositores europeus (como Schmelzer e Biber) ainda não conhecidos pela Península Ibérica. O processo de educação era incrível! Grande parte do horário era reservada para a música. Cada povo missioneiro tinha orquestra e coros, que faziam intercâmbio entre os povos, principalmente nas datas festivas.

IHU On-Line - Por que os jesuítas apostavam em dedicar tanto tempo da educação com a música?

Décio Andriotti
- A música é a primeira na ordem ontológica das artes. Alguém pode viver sem a pintura, a escultura, a arquitetura, a literatura... Jamais sem a música. Isso ocorre historicamente em todos os povos. Através da música, facilita-se o contexto educacional, e o indivíduo se realiza na percepção de si mesmo.

Alta formação musical

A missão de Yapeju, localizada perto do rio Uruguai, parte que hoje pertence à Argentina, tornou-se um conservatório central das missões. Famílias abastadas de Buenos Aires mandavam filhos a Yapeju para se aperfeiçoarem musicalmente em pleno ambiente indígena. Os povos missioneiros tornaram-se o maior centro musical da América do Sul. Nenhuma cidade competiu com eles nessa época: nem Rio de Janeiro, nem São Paulo, nem Buenos Aires, nem Lima.

IHU On-Line - O que resta disso tudo nos dias de hoje?

Décio Andriotti -
Com a destruição criminosa efetuada por Espanha e Portugal, muitos dos nossos índios se dispersaram. Estancieiros do Rio Grande do Sul contratavam-nos como peões e capatazes; tal a formação, o conhecimento e o trato que eles tinham com o gado. Tocavam ou cantavam, nos sítios em que trabalhavam, parte das músicas aprendidas nas missões, ainda com resquícios do estilo barroco. Em função das constantes transformações culturais, é impossível detectar concretamente, hoje, as procedências dessas sonoridades.

 

 

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