Edição 196 | 18 Setembro 2006

A missão: peripécias das reduções jesuíticas

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IHU Online

Na manhã do primeiro dia do Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que acontecerá na Unisinos, de 25 a 28 de setembro, o professor e padre jesuíta Pedro Ignácio Schmitz será um dos comentaristas, ao lado do professor da Unisinos Gilberto Assis Brasil, do filme A Missão, de Roland Joffé, que será exibido às 10h no Anfiteatro Pe. Werner da Unisinos.

Pedro Ignácio Schmitz é professor e pesquisador no Instituto Anchietano de Pesquisas da Unisinos. É graduado em Geografia, História, Filosofia e Teologia e doutor em História. Trabalha, entre outros assuntos, com populações indígenas e missões religiosas na América Latina. Publicou e organizou 23 livros, entre eles: O estudo dos esqueletos escavados por Pe. João Alfredo Rohr S.J. no litoral de Santa Catarina. São Leopoldo: Unisinos, 2004; Casas Subterrâneas nas terras altas do sul do Brasil. São Leopoldo: Gráfica Unisinos, 2002; Içara: um jazigo mortuário no litoral de Santa Catarina. São Leopoldo: Unisinos, 1999 e Aterros Indígenas no Pantanal do Mato Grosso do Sul. São Leopoldo: Unisinos, 1999.

Ele concedeu entrevista para a IHU On-Line na edição número 183, de 19-6-2006, intitulada Os primeiros usos da araucária. No intuito de adiantar aos leitores e leitoras da revista IHU On-Line a forma como irá conduzir o debate sobre o filme durante o Seminário da próxima semana, padre Ignácio nos enviou o artigo que segue. Confira.

Um filme histórico?

O filme “A Missão” não é uma narração histórica no sentido literal, mas a dramatização de um evento, usando elementos da história, de seus protagonistas e do seu contexto e cenário. É nesse sentido que deve ser entendida a colocação inicial do filme de que se trata de fatos realmente acontecidos.

O filme conta o constrangimento moral dos jesuítas e o impasse dos índios quando Portugal e Espanha, em 1750, no Tratado de Madri , buscando evitar uma guerra na Europa, tentam acomodar a situação da fronteira entre as colônias ibéricas da América do Sul. O acontecimento central da narração é a controvertida troca das sete reduções jesuíticas do Rio Grande do Sul, fundadas em território da colônia espanhola, pela Colônia do Sacramento, criada por portugueses em frente de Buenos Aires, originalmente também território espanhol. Por ocasião do tratado de transferência, essas reduções já tinham todas mais de sessenta anos de existência e tinham se transformado em pequenas cidades, ricas e de boa qualidade de vida. O tratado pede que seus moradores deixem suas cidades, levando só os bens móveis e semoventes, para recomeçar no outro lado do rio Uruguai, nesse momento densamente povoado por reduções ainda mais antigas. Esta seria a terceira fundação: primeiro no Rio Grande do Sul, depois na Argentina, novamente no Rio Grande do Sul e mais uma vez na Argentina.

Para contar esta história o diretor do filme constrói seus personagens centrais:

- O capitão Mendoza, um mercenário, caçador de escravos índios, de boa família colonial, que, por competição por uma mulher, mata seu irmão em duelo e, arrependido, depois de longa penitência auto-imposta, torna-se jesuíta na missão entre os índios. O personagem simboliza aqueles jesuítas, de famílias espanholas importantes na Colônia, que entraram na Companhia de Jesus e trabalharam nas missões entre os índios. Lembro três nomes muito conhecidos: Roque González de Santa Cruz, nascido em Assunção do Paraguai, filho de escrivão imperial; Antonio Ruiz de Montoya, nascido em Lima, Peru, filho de abastado comerciante; Cristóvão de Mendoza, nascido em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia atual. Há muitos outros. Dois deles contam entre os vinte jesuítas que foram mortos nas missões de índios da Bacia Platina. Nenhum deles entrou na Companhia por decepção amorosa, ou por crime cometido, mas para prestar serviço ao próximo, dentro da idéia do tempo de empregar a própria vida naquelas empresas em que se conseguiria o melhor serviço e com isso a maior glória. Com o personagem Capitão Mendoza também se contextualiza a vida nas cidades coloniais, a caça de índios para o serviço pessoal dos colonos espanhóis e o espaço reservado para as missões em campos ainda não dominados pelos colonos espanhóis, “acima das cataratas”. Nas longas cenas da subida das cataratas, aparece muito claro o rigor com que, naquele tempo, se expiavam delitos e pecados.

- O superior da missão de São Carlos representa bem o regime da Companhia de Jesus, destacando o comando pessoal e irrestrito do superior, que aparece na obediência que este exige de Mendoza obrigado a desculpar-se pela afirmação certa, mas considerada ofensiva; na impossibilidade de abençoar o seu companheiro e com isso de assumir que ele vá lutar ao lado dos índios, o que era expressamente proibido pelo prelado, emissário do Superior Geral de Roma; e aparece na cena em que o superior da missão, buscando salvar as mulheres e crianças, vai ao encontro dos inimigos, também cristãos, numa procissão do Santíssimo. Estes hesitam um momento, mas depois vão ao ataque desapiedado em que massacram a população desprotegida, sobrevivendo poucos meninos e meninas.

- O prelado, Altamirano, na realidade um jesuíta andaluz, ambicioso e bastante ligado à corte do Império Espanhol, à qual procurava agradar, que vem como representante plenipotenciário de um superior geral fraco, que busca salvar a Companhia de Jesus ameaçada de extinção pelas cortes de vários países europeus. A ordem dos jesuítas é expulsa, sucessivamente, de vários países europeus e de suas colônias e, finalmente, é supressa pelo Papa, também pressionado pelas cortes.

- A autoridade espanhola, que representa a política das cidades coloniais, dependentes do serviço do índio para sua sobrevivência e que se sente roubada pelos jesuítas que, nas missões, conseguem um estatuto especial de liberdade para os índios ali reunidos, que estão proibidos pela lei de servir aos colonos.

- Os outros personagens são secundários, na trama do filme, como, por exemplo, o do único cacique da redução de São Carlos. Ele representa mal o papel dos chefes nas missões e no episódio do tratado de Madri. Vários caciques aparecem, mas de passagem, no grande conselho presidido pelo Prelado, simbolizando a forte reação deles à transmigração, nas cartas às autoridades coloniais, na permanente hostilidade ao emissário de Roma e no comando das ações contra a Comissão Mista Demarcadora.

- Mais forte é a figura do menino anônimo, que aparece perto de Mendoza e representa a sabedoria da população indígena. Nas missões, os meninos sempre tiveram papel importante como ajudantes dos padres.

O diretor também constrói ou escolhe cenários: o rio Iguaçu, com suas cataratas e suas densas matas, onde coloca as cenas principais, o começo da missão e sua destruição; a pequena cidade colonial, terra de origem do Capitão Mendoza, onde se mostra a vida e o acidente que afeta toda a vida de Mendoza; o lugar do conselho, onde aparecem os personagens principais e discutem-se os termos e condições da transmigração; a chamada capital das Reduções, visitada pelo prelado e onde se mostra a vida das missões em meados do século XVIII.

Os elementos históricos

O drama construído pelo diretor incorpora, sem os enunciar, muitos elementos históricos, dos quais recordo alguns:

- Em Mendoza ele lembra aquele irmão jesuíta, que tinha sido miliciano na Europa, depois treinou os índios da redução de Jesus Maria e que finalmente morreu com um tiro de arcabuz no ataque dos bandeirantes àquela Missão.

- Na montagem dos canhões de madeira ele lembra os canhões de bambu com que os índios rechaçaram os bandeirantes na batalha fluvial de Mbororé, no rio Uruguai, quando, depois da destruição das reduções do Rio Grande do Sul, eles procuram destruir também as reduções no território argentino. A batalha fluvial na missão de São Carlos, comandada por um jesuíta, reproduz, de certa maneira, a batalha de Mbororé, inclusive nas suas estratégias: os índios ficam escondidos em suas canoas e caem repentinamente sobre a grande esquadra bandeirante. O resultado é diferente: em Mbororé eles vencem, aqui são vencidos.

- Os dois jesuítas que se puseram do lado dos índios (Mendoza e o jesuíta anônimo) lembram aqueles dois padres jesuítas (P. Henis de São Miguel e P. Claret de São João), que acompanharam as tropas que enfrentaram os demarcadores luso-castelhanos em Caiboaté. No filme os dois jesuítas organizaram a defesa quando, na realidade, foram chefes indígenas das reduções que encabeçavam os índios: primeiro Sepé Tiaraju, da redução de São Miguel, depois Nicolau Neenguirú, da redução de Conceição. Na documentação do tempo às vezes há insinuação de que ao menos um desses sacerdotes teria ajudado os índios na sua revolta, quando isto era terminantemente proibido pelo representante do Superior Geral.

Os índios durante, mas principalmente depois da batalha, quando já desarmados, foram trucidados pelas tropas demarcadoras. Este fato pode ter servido de fundo para mostrar o esmagamento das mulheres e crianças que seguem o superior da missão na procissão do Santíssimo.

- O drama de consciência e constrangimento dos jesuítas está bem representado e eles fazem bonito papel no filme porque morreram na luta. Na realidade, por causa de seu voto de obediência, ficaram muito desmoralizados perante os índios e muito mal colocados perante as autoridades pelo fato de que, apesar de infinitos esforços e várias tentativas, não conseguiram transferir os índios para a banda ocidental do rio Uruguai. Os índios simplesmente não aceitaram abandonar suas cidades, igrejas, fazendas, ervais para entregar tudo isso aos portugueses e recomeçar do outro lado do rio Uruguai, que já se encontrava densamente povoado. Posso dizer: “Felizes os jesuítas do filme, que morreram lutando. Infelizes os jesuítas reais, primeiro desmoralizados, depois expulsos de suas obras, encarcerados, mortos de fome e frio em fortalezas européias, onde, muitas vezes, nem mesmo receberam um sepultamento decente.”

- Quando as negociações se mostraram infrutíferas, e as exigências se tornaram cada vez maiores, os moradores das reduções tomaram algumas medidas para defender suas coisas, buscando deter as tropas demarcadoras antes que elas chegassem às cidades reducionais. Mas, como estavam mal armadas e mais mal comandadas, foram esmagadas na batalha de Caiboaté. Dos 1.680 índios que saíram das diversas reduções e lutaram, 1.511 foram mortos, 154 foram feitos prisioneiros. Depois desta batalha, os demarcadores não encontraram mais oposição importante, tomaram as reduções, onde ficaram instalados durante anos, até que um novo tratado anulou o anterior. Mas o estrago já estava feito e as reduções entraram em decadência definitiva.

- A transferência para a Argentina se fez, então, sob a força militar. Durante a ocupação, entre 1757 e 1758, dos aproximadamente 30.000 habitantes que havia nas sete reduções do Rio Grande do Sul, 14.284 foram levados para o outro lado do rio Uruguai; 2.000  morreram na guerra; 14.000 ficaram extraviados ou levados para o território português por Gomes Freire de Andrade, governador do Brasil, em várias levas, que se fixaram em Cachoeira, Rio Pardo, Estreito. Finalmente, em 1762, Gomes Freire levou 700 famílias (3.500 índios) de Santo Ângelo para a Aldeia dos Anjos (Gravataí).

O tratado de Madri foi anulado depois de dez anos de vigência, os índios transferidos para o lado argentino do rio Uruguai e os que tinham fugido para os matos, foram voltando para as reduções semidestruídas.

Em 1768, os jesuítas foram retirados das missões, que em poucos anos se arruinaram, dispersando-se os índios definitivamente.

- A cena dos meninos e meninas que embarcaram na canoa e se perderam no mato não é real, mas altamente simbólica: condensa a história dos índios missioneiros posteriormente ao tratado de Madri: eles se dispersaram pelas fazendas e cidades; as reduções ficaram abandonadas, e destruídas em sucessivas guerras na Bacia Platina; a riqueza das igrejas em estátuas e vestimentas foi destruída, em parte levada por um caudilho uruguaio. 

Donde vêm, então, os índios Guaranis das reservas do Paraguai e da Argentina e os que perambulam pelo Sul do Brasil? Os antropólogos e historiadores especulam, mas não sabem.

As discordâncias históricas

O diretor de A Missão, num filme de 124 minutos, buscou representar um episódio importante dos cento e cinqüenta anos da história das missões entre os guaranis da Bacia do rio da Prata. Um historiador minucioso pode discordar de algumas coisas que o diretor do filme usou para apresentar e demonstrar o seu tema.

- A redução de São Carlos é fictícia. Havia uma redução de São Carlos no interior da Argentina, longe do rio Uruguai e do Paraná. Perto das Cataratas, em território hoje paranaense, estava a redução de Santa Maria do Iguaçu, que foi transferida de lá após a destruição pelos bandeirantes das reduções do Guairá. As cataratas e as matas que as cercavam, proporcionaram um cenário selvagem e fantástico para a implantação do drama do filme: a chegada dos missionários, a conversão dos índios, a penitência de Don Mendoza, o ataque à redução, as cenas de combate na água, a canoa com os meninos e meninas se perdendo rio abaixo.

- A igreja que o Prelado visitou como sendo de São Miguel, a capital das reduções, é a igreja de San Ignácio Mini, na Argentina, bem longe dali e não implicada na transferência. O aparecimento de casas cobertas com palha também não corresponde ao momento do tratado de Madrid (1750), quando as reduções estão consolidadas, como mostram as ruínas tanto do Rio Grande do Sul, como da Argentina e do Paraguai. 

- A visita do Prelado a uma primeira redução mostra os índios, transportando bananas. A banana praticamente não é mencionada nas reduções do Paraguai. A exportação era de erva-mate, de tecidos de algodão, de couros e de sebo.

- A pacificação dos índios está representada pelo toque da flauta. O trabalho não foi tão simples. Os reunidos nas primeiras reduções eram índios encomendados, que já trabalhavam temporariamente para os espanhóis. Grandes caciques, com ascendência sobre várias tribos eram os principais auxiliares e protetores do missionário que entra no mato e a aceitação do missionário pelas tribos não era tão fácil e muitas vezes terminou com a morte.

Conclusão

O diretor do filme construiu um enredo que tem como fundo as peripécias das reduções, especialmente o tratado de Madrid, de 1750. Não se trata de uma história das reduções, nem mesmo do evento da transferência dos índios para a margem direita do Uruguai, contado como os historiadores gostariam; nem se trata de uma análise ideológica da ação dos jesuítas, como sociólogos ou filósofos poderiam desejar; mas da dramatização de um evento importante para todas as trinta reduções dos Guaranis, mais um passo na definitiva decadência desta fantástica experiência. É uma narrativa construída sobre este importante evento da história das reduções, habilmente entretecida de outros elementos simbólicos e paisagísticos, mas sem insistência em excessivos detalhes. Afinal de contas, trata-se de um filme para grande público, não uma história escrita com todos os cânones. Eu conheço os detalhes da história, mas gostei mais de como o diretor conta o drama da transmigração.  

 

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