Edição 372 | 05 Setembro 2011

Por que não defender o default e o uso multitudinário do default?

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart | Tradução de Moisés Sbardelotto

O capitalismo contemporâneo é captura sem organização, bloqueio sem desenvolvimento, acumulação sem promessa de progresso, diz Gigi Roggero

“Para que se pudesse falar de agentes de desestabilização, seria preciso demonstrar a estabilidade do sistema sem esses agentes, que, ao contrário, são o produto natural do sistema. Como se o problema fosse a multiplicação dos corruptos, e não o sistema que produz, ele mesmo, corrupção. E a interdependência global atingiu um nível tão profundo e irreversível que ninguém pode se considerar protegido. Os comentaristas, às vezes até os aterrorizados formadores de opinião neoliberais, se escandalizam com a completa perda de soberania do Estado-nação, mostrando uma realidade que é evidente para nós há algum tempo. O espetáculo, é preciso dizer, é divertido”. A reflexão é do economista Gigi Roggero, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, “uma nova fase do capitalismo só pode se assemelhar ao aprofundamento da crise permanente, ao aumento da violência em medida inversamente proporcional à possibilidade de organização e de estabilidade”.

Gigi Roggero é formado em História Contemporânea pela Università degli Studi di Torino. É coautor de Futuro Anteriore. Dai “Quaderni Rossi” ai movimenti globali: ricchezze e limiti dell’operaismo italiano (Roma: DeriveApprodi, 2002). Trabalha no campo da pesquisa social. É doutor pelo Departamento de Sociologia e Ciência Política da Università della Calabria. Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado no Departmento de Política, Instituições e História da Universidade de Bologna, Itália.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De uma forma geral, como o senhor descreve a atual crise financeira mundial que ameaça os Estados Unidos e a zona do euro? Quem são os principais agentes e quais são as causas dessa crise?

Gigi Roggero – Para uma análise mais detalhada e aprofundada da fase atual refiro, em particular, os artigos de Christian Marazzi  e Andrea Fumagalli , que, no sítio Uninomade (uninomade.org), estão acompanhando o desenvolvimento da crise com diários e textos de extraordinária clarividência. Limito-me aqui a algumas considerações taquigráficas. Primeiro, mostra-se com toda a evidência a miserável mentira de quem, em particular na Europa, anunciou mais de uma vez o fim da crise, buscando dar vida a uma espécie de profecia que se autorrealiza. Se ainda fosse necessário, a fase atual mostra o caráter permanente dessa crise. O andamento em L temido por alguns economistas inicialmente marcados como “catastróficos”, isto é, a queda seguida de estagnação ou recessão sem recuperação, é agora não mais uma previsão, mas sim um fato dado.
Em segundo lugar, o exercício de encontrar os agentes de desestabilização (os especuladores ávidos, os Estados-nação que desperdiçam, as más agências de classificação, etc.) pode ser reconfortante, mas certamente não pode durar muito. A Alemanha, por exemplo, tentou isso. Recentemente, ela atribuiu a crise à tradicional e alucinada tendência ao desperdício dos países do sul da Europa, agora rebatizados de PIIGS (o segundo I é da Itália, que assim chega à companhia de Portugal, Grécia e Espanha, além da Irlanda, que pertence ao Sul não geograficamente, mas por dado histórico). Como se o desenvolvimento alemão tivesse sido possível, também, pela aquisição de títulos de estado “suínos”, o que torna os bancos alemães prontos para fazer de tudo para evitar a falência da Grécia. Ao mesmo tempo, a China – que declara sua própria superioridade harmoniosa daquilo que está varrendo o mundo – dorme sonos muito agitados diante do possível default do seu principal credor, ou seja, aquela ex-potência que, não mais do que 20 anos atrás, foi incautamente declarada única e invencível dominadora de uma história que chegou ao seu fim. E, assim, o pobre vice de Obama, Biden, deve correr para Pequim para dar confusas justificativas sobre o downgrade norte-americano aos ex-canalhas da República Popular. Em suma, para que se pudesse falar de agentes de desestabilização, seria preciso demonstrar a estabilidade do sistema sem esses agentes, que, ao contrário, são o produto natural do sistema. Como se o problema fosse a multiplicação dos corruptos, e não o sistema que produz, ele mesmo, corrupção. E a interdependência global atingiu um nível tão profundo e irreversível que ninguém pode se considerar protegido. Os comentaristas, às vezes até os aterrorizados formadores de opinião neoliberais, se escandalizam com a completa perda de soberania do Estado-nação, mostrando uma realidade que é evidente para nós há algum tempo. O espetáculo, é preciso dizer, é divertido.

A exaustão das opções neoliberal e neokeynesiana

Finalmente, parece-me que as opções predominantes no debate público – a neoliberal e a neokeynesiana, cada uma das quais, obviamente, tem em seu próprio interior diferenças e facetas diversas – mostram a sua exaustão. Sobre a primeira, há pouco a acrescentar: é uma tentativa de repropor com violência uma ortodoxia vazia e irreversivelmente derrotada. A segunda opção começa agora a ver o risco do “double dip”, ou seja, do duplo mergulho na recessão no modelo da de 1937. Portanto, seria preciso seguir o primeiro Roosevelt , o pragmático “atuador” das receitas do Lord Keynes, evitando dar fim àquele que se deixou convencer da necessidade de colocar as contas públicas novamente em ordem a todo custo. Mas, evidentemente, não entendem que esse tipo de política estava ligado a um contexto específico, o do Estado-nação, e a uma relação historicamente determinada entre público e privado, agora definitivamente decaídos.
Sobre a dívida soberana, depois, a receita das duas opções, de direita e de esquerda, se unifica: sacrifícios e austeridade se tornam palavras de ordem dramaticamente esculpidas na necessidade da história. E então por que não começar a dizer, como já estamos fazendo há algum tempo: direito à falência? Direito à falência, sobretudo, para os trabalhadores precários, os pobres que recorreram ao perverso sistema da dívida para garantirem necessidades sociais conquistadas e agora financeirizadas. E contra a objetividade da austeridade e o uso capitalista do medo do default, por que não defender o default e o uso multitudinário do default? O caso da Argentina e da insurreição de 2001 não nos indicam, talvez, esse caminho?

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição