Edição 371 | 29 Agosto 2011

A relevância interdisciplinar de Jonas

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Márcia Junges

Debate entre saberes pode ser estabelecido a partir do pensamento desse filósofo, e questionamentos e objeções apontados por Karl-Otto Apel e Paul Ricoeur suscitam a ampla investigação que merece ser feita sobre sua obra, frisa Robinson dos Santos

Um autor influente para a “geração que hoje se identifica fortemente com as questões ambientais, com o tema do desenvolvimento sustentável e a incógnita do futuro da civilização. Sua relevância extrapola, portanto, o âmbito de estrita discussão filosófica e sua obra abre-se para o debate de alcance interdisciplinar”. A afirmação é do filósofo Robinson dos Santos, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Segundo o pesquisador, “semelhante a Heidegger, em Jonas não se trata de uma mera satanização da técnica enquanto tal. Os artefatos em si não são tão importantes, mas, novamente, é o fenômeno da técnica, o significado que ela assume, que praticamente hoje se (con)funde com a própria essência do homem, que deve ser objeto de reflexão filosófica”.

Graduado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo – UPF, onde cursou mestrado em Educação, Robinson dos Santos é doutor em Filosofia pela Universidade de Kassel, na Alemanha, com a tese Moralität und Erziehung bei Kant (Kassel: Kassel University Press, 2007). Coordenador e professor do curso de Filosofia da Universidade Federal de Pelotas – UFPel, é autor de Saber e compromisso: Florestan Fernandes e a escola pública (Passo Fundo: Universidade de Passo Fundo, 2002) e um dos organizadores de Ética para a civilização tecnológica: em diálogo com Hans Jonas (São Paulo: Centro Universitário São Camilo, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as principais contribuições de Hans Jonas à filosofia contemporânea?

Robinson dos Santos – Essa pergunta não é tão simples de se responder. Penso até que pode ser apenas parcialmente ou provisoriamente respondida. Isso porque se parte de uma pressuposição, qual seja, a de que estaríamos já em condições de avaliar de modo cabal quais seriam efetivamente as contribuições de Jonas à filosofia contemporânea. E, em se tratando de um autor contemporâneo, cuja obra recém principia a ser compilada em uma edição crítica  e que, portanto, ainda necessita ser lida, analisada e interpretada – algo que exige tempo! –, pode-se considerar que esta tarefa está apenas iniciando. Todavia, gostaria de salientar que isso traz apenas uma dificuldade para um juízo cabal e não uma impossibilidade de se falar a respeito de suas ideias. Feita essa ressalva, poderíamos falar a respeito da ressonância ou repercussão que sua obra da maturidade O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica causou, sobretudo na Europa do pós-guerra. Jonas influenciou uma geração que hoje se identifica fortemente com as questões ambientais, com o tema do desenvolvimento sustentável e a incógnita do futuro da civilização. Sua relevância extrapola, portanto, o âmbito de estrita discussão filosófica e sua obra abre-se para o debate de alcance interdisciplinar. Concretamente, no âmbito da filosofia o foco de seus trabalhos está em três áreas: metafísica, filosofia da natureza e ética. Mas seus escritos transitam em áreas como a teologia, biologia e medicina também.

IHU On-Line – Além de Kant, quais foram as grandes influências filosóficas desse pensador?

Robinson dos Santos – Do ponto de vista da gênese de sua obra, é possível afirmar que houve várias influências. Estas podem ser consideradas desde os pensadores clássicos, como Aristóteles , Agostinho  e Kant, por exemplo, até os interlocutores que com ele tiveram um contato mais próximo e, em alguns casos, privaram de sua amizade, como Hannah Arendt, Karl Jaspers , o teólogo e orientador de seu doutorado Rudolph Bultman. A fenomenologia de Husserl também foi uma grande fonte de inspiração do pensamento jonasiano. Um mestre que decisivamente influenciou muito Jonas foi Martin Heidegger, que foi seu professor e interlocutor ao longo de toda sua formação, mas com quem Jonas não conseguiu mais reestabelecer a amizade após o envolvimento daquele com o nacional-socialismo.

IHU On-Line – Qual é a influência do conceito heideggeriano de técnica na filosofia de Jonas?

Robinson dos Santos – Sem dúvida há uma influência de Heidegger não apenas presente no conceito de técnica. A preocupação é bastante próxima quanto ao que Heidegger chama de “questão da técnica”, isto é, quanto ao significado que ela assume na vida humana. E, semelhante a Heidegger, em Jonas não se trata de uma mera satanização da técnica enquanto tal. Os artefatos em si não são tão importantes, mas, novamente, é o fenômeno da técnica, o significado que ela assume, que praticamente hoje se (con)funde com a própria essência do homem, que deve ser objeto de reflexão filosófica. Além disso, o próprio conceito de responsabilidade, amparado por Jonas numa ontologia, isto é, numa doutrina do ser, é marcado pelo conceito heideggeriano de Dasein (ser-aí) e os conceitos relacionados a ele como Sorge (cuidado), a imagem do homem como “pastor do ser”.

IHU On-Line – Em que aspectos o pensamento deste filósofo transcende e rompe com a herança kantiana?

Robinson dos Santos – Primeiramente, deve-se esclarecer o que se entende aqui como herança kantiana. Se entendermos esta “herança” relacionada à obra como um todo, tem-se uma perspectiva determinada para avaliar. Se por “herança” entendermos algo especificamente relacionado com a ética kantiana, por exemplo, teremos outra perspectiva. Vou optar pela segunda perspectiva, isto é, a relação da ética de Jonas com a ética kantiana. A relação de Jonas com Kant neste aspecto é, a meu ver, bastante ambígua e, a julgar pelas leituras feitas até o momento, me arrisco a afirmar que é, até mesmo, bastante superficial. Jonas não faz uma interpretação sistemática dos escritos de filosofia moral de Kant. Em determinados momentos tem-se a nítida impressão de que ele quer um rompimento ou uma “correção” e, deste modo, uma superação da ética kantiana, mas essa impressão se desfaz em algumas passagens na medida em que ele mesmo assume uma postura nitidamente kantiana e se beneficia, por exemplo, da formulação do imperativo categórico e assume o princípio de universalização de máximas. Jonas envolve-se igualmente em dificuldades com a sua acusação de antropocentrismo, por exemplo. Se o ser humano é, em última instância, aquele que está encarregado de zelar pela vida, pelo futuro da natureza e da humanidade, a ética continua fortemente ancorada numa compreensão do que é (e do que deve ser) o ser humano. É claro que sua visão privilegia não mais apenas a vida humana, mas a vida desde uma perspectiva ampla, isto é, no conjunto da natureza. Isso está claro em suas preocupações. O que pretendo apontar é que o problema do antropocentrismo que ele supõe presente nas éticas da tradição não é efetivamente superado em sua proposta.

IHU On-Line – Gostaria de destacar outros aspectos?

Robinson dos Santos – Gostaria de salientar aqui alguns aspectos problemáticos que merecem ser amplamente investigados ainda. Dois interlocutores contemporâneos dedicaram em suas reflexões um espaço para a ética da responsabilidade de Jonas. Refiro-me a Karl-Otto Apel e Paul Ricoeur . Eles levantam algumas questões e objeções a Jonas que, em meu modo de entender, não podem ser ignoradas por quem quer se dedicar à interpretação da ética jonasiana. O primeiro destaca um problema bastante significativo relativamente à fundamentação do imperativo da responsabilidade: quando Jonas formula o princípio de que se deve agir de tal modo que os efeitos da ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a terra, está pressuposto para Jonas que aquilo que pode ser considerado uma autêntica vida humana já esteja presente, isto é, já esteja realizado para nós. Deste modo, sabendo em que consiste uma autêntica vida humana, saberemos como preservá-la ou preservar as condições que garantam sua continuidade. Apel, com razão, considera isso problemático. Com base em quê podemos afirmar que aquilo que denominamos uma autêntica vida humana já esteja realizado entre nós? Isso equivaleria a sustentar que somos o que há de melhor que a humanidade poderia fazer de si mesma. Há uma presunção bastante forte nisso. Outro ponto que levanta Ricoeur é a questão de determinação do alcance temporal da responsabilidade. Ele está de acordo que quanto mais aumenta nosso poder, mais aumenta a responsabilidade que temos, na mesma proporção. No entanto, ao ampliar a responsabilidade para o infinito, esse cálculo traz um problema para a imputação da responsabilidade. Quem deve efetivamente responder pelos malefícios que andam de mãos dadas com os progressos da técnica? Na medida em que a responsabilidade se dilui e todos se tornam responsáveis por tudo, ninguém é responsabilizado por nada. Sobre isso não temos muitos elementos em Jonas (ao menos nos textos que até o momento temos acesso) para dar uma resposta concreta. Mas aqui seria preciso ainda esclarecer de modo pormenorizado (algo que fica como tarefa para a pesquisa) a distinção entre a responsabilidade ex post facto, isto é, sobre o que foi feito (imputação) e a responsabilidade, que é aquela que Jonas pretende defender, do que tem de ser feito. Essas objeções e questionamentos (tomei aqui apenas dois aspectos particulares) e tantos outros, ao contrário do que possa parecer, demonstram que a ética de Jonas merece ser amplamente investigada. Eu não me arriscaria, portanto, a apresentar já conclusões definitivas sobre ela.

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