Edição 196 | 18 Setembro 2006

O Humanismo inaciano

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IHU Online

O Prof. Dr. Dominique Bertrand, da Universidade de Lyon, na França, jesuíta, participará do Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que se realizará na Unisinos, de 25 a 28 de setembro. No evento, ele falará sobre O humanismo desolado e a pertinência do projeto espiritual da Companhia de Jesus.

Bertrand realizou seus estudos em Paris, em colégios jesuítas, tendo se licenciado em Filosofia e em Teologia Escolástica. Doutorou-se com a tese A Política de Santo Inácio de Loyola. Uma análise social, publicada originalmente sob o título La politique de Saint Ignace de Loyola. Paris: Lês Editions du Cerf, 1985.  Entrou para a Companhia de Jesus em 1953 e foi ordenado padre em 1964. Bertrand foi administrador da Revista Christus e diretor da Coleção Christus em Paris, de 1966 a 1983. Foi diretor do Instituto de Pesquisas Cristãs em Lyon, e professor de Teologia Espiritual nos Institutos Católicos de Lyon (1975-1984) e de Paris (1986-1996). É autor de, entre outros, Un corps pour l'Esprit. Essai sur la vie communautaire selon les Constitutions de la Compagnie de Jésus (Um corpo para o Espírito. Ensaio sobre a vida comunitária conforme as constituições da Companhia de Jesus) Paris: Desclée De Brouwer, 1974; Pierre Favre, un portrait (Pedro Fabro, um retrato) Bruxelas: Editions Lessius, 2006; além de numerosos artigos sobre espiritualidade e história da espiritualidade.

Confira, a seguir, a entrevista que ele concedeu, por e-mail, para a revista IHU On-Line.

IHU On-Line - As cartas dos missionários jesuítas para seus superiores podem mostrar as bases da definição de um método missionário da Companhia de Jesus? Que método seria esse?

Dominique Bertrand -
A correspondência entre os jesuítas é certamente um documento de capital importância para compreender quais foram os métodos missionários da nova ordem., porque, na verdade, os jesuítas não são os primeiros a terem praticado a missão. A missão, com as viagens de Pedro, nos Atos dos Apóstolos, a de Paulo, neste mesmo livro, e em suas cartas, continuam desde os primórdios da Igreja em todo o Império Romano e no Oriente, com os Partos até o presente. A Igreja é missionária ou não é Igreja. No século XVI, esta Igreja missionária estava em crise nas regiões que a viram nascer. No momento desta crise, marcada, como vou retomar, pelo humanismo e pelo protesto conduzido, no seio deste mesmo humanismo, por Lutero  e seus seguidores, a Companhia de Jesus, fundada no coração deste drama, encontra aí as razões de sua nova maneira de ser para si mesma e para os demais. Esta nova maneira de ser se expressa nos Exercícios Espirituais que comandam a existência da Companhia para si mesma e nas Constituições e para os outros, nas missões. Assim, os jesuítas retomam a missão imemorável da Igreja, tendo no espírito e no coração os Exercícios Espirituais, o que vai freqüentemente acarretar nas incompreensões das ordens mendicantes  que levaram adiante, precisamente antes dos jesuítas, a preocupação missionária da Igreja no final da Idade Média. 

Dito isso, a correspondência da qual você falou constitui um corpus imenso. Santo Inácio redigiu mais de seis mil documentos.  Francisco Xavier , mais de duzentos ( em treze anos), Pedro Fabro , aproximadamente 150 (em dez anos). Neste volume, há dois gêneros literários: as “instruções” para as missões, por um lado; e os “relatórios” de missões, por outro. Existe, portanto, um cuidado muito grande por parte dos jesuítas para com o bom desenvolvimento das missões. De acordo com que critérios? Nos Exercícios Espirituais, há o critério da fidelidade à doutrina da Fé, Credo e Evangelho, há também o critério do discernimento dos espíritos atentos ao contentamento profundo e duradouro das populações a serem conquistadas por esta mesma doutrina. Este segundo critério era pouco conhecido, senão desconhecido, dos missionários da época precedente (os mendicantes). As “Reduções” foram o exemplo mais perfeito desta ação missionária dos jesuítas.

IHU On-Line - O que caracteriza a política de Inácio de Loyola? Como o senhor define o humanismo na contemporaneidade? Por que se refere a um humanismo desolado, ferido?

Dominique Bertrand -
Para responder a esta pergunta, é preciso situar bem o humanismo e sua crise no início do século XVI. O humanismo, cujo herói e arauto é Erasmo , pode ser definido como o cume máximo da Renascença. Ele tem a preocupação de adaptar a Igreja aos novos tempos, de reformá-la, uma reforma que no seu início é inteiramente católica. Os historiadores positivistas do século XIX, facilmente anticlericais e, talvez, por razões válidas, cometeram o anacronismo fatal de pensar um Erasmo, por exemplo, à sua imagem. Os humanistas são apaixonados por tudo quanto se refira ao homem, tanto como reformador como evangelista católico. E eles são impelidos por um vigoroso otimismo quanto às capacidades que o homem possui de ser bem sucedido nesta operação de se salvar. Pode-se dizer que o Concílio de Latrão V, de 1517, é humanista, sob a condução do Papa Médicis, Leão X. Ora, 1517 assinala também o surgimento de Lutero, a questão das indulgências se consolidava em uma recusa radical do otimismo humanista. O homem Lutero se sente incapaz de salvar-se. Desde então, o humanismo – porque Lutero era também um humanista no início – está ferido. Ele continuará sua evolução, mas o protesto, doravante negativo, se desenvolve com ele, até nossos dias. Tal é a crise aberta que eu chamo de humanismo ferido.

Inácio e seus companheiros, especialmente o humanista Pedro Fabro, vivem intensamente os dois aspectos desta crise, o otimismo humano e a negação deste otimismo, demasiadamente humano, que esvazia a fé em Deus. Eles reencontram ao vivo a antiga doutrina patrística e monástica do “discernimento dos espíritos”. O princípio do “discernimento dos espíritos”, que remonta a Orígenes  e aos padres apostólicos, está expresso no n° 32 dos Exercícios . Ali está dito: “Eu pressuponho que três tipos de pensamentos existem em mim, os meus próprios e aqueles que me vêm seja do bom espírito, seja do mau espírito”. E o sinal do bom espírito como de Deus é a felicidade duradoura. Sobre esta base, o discernimento dos espíritos torna o homem capaz de enfrentar tanto a doutrina – e seu primeiro objetivo nós o vimos, diante de Erasmo e Lutero – como qualquer decisão, de ordem interior ou de ordem exterior no social e no político.

A política que Inácio põe em ação, a partir de sua conversão, é, portanto, uma gestão esclarecida das forças sociais e políticas que resulta em decisões que tornam feliz duradouramente, não apenas quem toma as decisões, mas também as massas atingidas por essas escolhas. Todas as escolhas inacianas são otimistas, criticadas radicalmente diante de Deus. Tem-se um belo exemplo de uma dessas escolhas na decisão tomada pela Companhia nascente de fundar colégios, fato a que ela não se destinava em seus primeiros passos. Diante dessa orientação, e inclusive entre os católicos, se erguem tanto realismos que não crêem na possibilidade de qualquer progresso, como utopias que sonham a felicidade do homem mais do que elas conseguem pôr em ação.

IHU On-Line - Como se compõe o projeto espiritual da Companhia de Jesus?

Dominique Bertrand -
Este projeto está bem expresso na célebre “Contemplação do Reino de Jesus Cristo, comparando-o com um rei terrestre que chama seus súditos para a guerra” . Podemos notar um pano de fundo político da citada contemplação. Eis aqui o duplo programa, aquele do rei terrestre e aquele do Cristo Rei: “Se este rei terrestre com sua chamada para a guerra merece que lhe seja dada atenção e obediência, quanto mais o Cristo, rei eterno, apresentando-se à vista do mundo inteiro, que chama especialmente por estas palavras: “Eis aqui minha muito justa vontade: reivindicar para mim a soberania do mundo inteiro, triunfar sobre  todos os meus inimigos e, enfim, entrar assim na glória de meu Pai. Em conseqüência, para quem quer que deseje ali estar comigo, é indispensável que ele sofra comigo, porque a recompensa valerá a pena”. O projeto é o humanismo evangélico total. Entretanto, este humanismo evangélico total passa pelo sofrimento que cada um suporta para a realização do projeto. Eis porque se pode dizer que o projeto espiritual inaciano é o realismo integral do combate quotidiano dos cristãos pela justiça e pela caridade que transforma o mundo. Fica evidente que tal projeto apóia-se fundamentalmente na realidade da Igreja que é, através dos séculos, através de seus altos e baixos, uma surpreendente escola de felicidade duradoura para o homem. Poderíamos dizer a mesma coisa, retomando a divisa da Companhia: ad majorem dei gloriam. Esta glória projetada não é uma superestrutura alta e sublime, como um teto barroco. Ela é o crescimento da glória de Deus, pouco a pouco, na rude massa humana da história. Esta é, modelo de todas as demais, a tarefa secular da Igreja militante neste mundo.

IHU On-Line - Qual o papel na sociedade contemporânea do projeto espiritual da Companhia de Jesus? Como ele atende às demandas dos homens e das mulheres do século XXI?

Dominique Bertrand
- Eu vejo duas utilidades complementares de tal projeto em nossa atualidade. Primeiramente, assiste-se a uma espiritualização arrebatada do espiritual, a qual assume as formas mais diversas, naquilo que tem sido chamado, há alguns anos, a new age. O espiritual é um suplemento da alma entendido de forma desencarnada. Rapidamente, todavia, uma tal espiritualização volta-se contra ela mesma, porque o suplemento da alma vai ser procurado nas técnicas corporais de desenvolvimento individual na linha de um pseudobudismo. Em segundo lugar, ao contrário, o real torna-se fechado a qualquer valor de interioridade, de gratuidade, de dedicação. Ele se confunde com o interesse individual compreendido da forma mais mesquinha. Vendo-se que esta dissociação traz inquietações para o nosso mundo, percebe-se o serviço que presta uma espiritualidade realista do tipo daquela que a via inaciana propõe. Fala-se, hoje em dia, de desenvolvimento sustentável. Não vejo absolutamente outro meio que tenha dado provas de tal desenvolvimento sustentável senão aquele da felicidade preconizada por Inácio como critério de decisão.
 
IHU On-Line - Como o cristianismo é visto no mundo hoje? Como os valores do cristianismo se enquadram na realidade contemporânea em que os sentimentos e experiências são tão efêmeros?

Dominique Bertrand
- É fundamental não reduzir o cristianismo ao inacianismo. Muito conscientemente, eu, sem cessar, substitui este último por “mais vasto” que ele, este “mais vasto” sendo a Igreja, tal como Paulo a descreveu para nós no capítulo 12 da Primeira Epístola aos Coríntios: o corpo místico dos carismas, o “discernimento dos espíritos” sendo apenas um dos nove “dados pelo mesmo Espírito”. Permanece o fato de que, pela proposição inaciana, nós descobrimos alguma coisa do cristianismo que, finalmente, em sua especificidade inaciana em si, serve para todos. Por exemplo, o cristianismo continua a crer de forma realista no homem e a fazer crer no homem tal como ele é, em suas forças positivas como em suas derrocadas de violência e de falsidade. E ainda: o cristianismo que, no século XVI, atravessou efetivamente e não sem prejuízos, a crise do humanismo afligido pelo concílio de Trento, afrontou pelo concílio Vaticano II o drama do humanismo ateu, para falar como o Padre de Lubac , e abriu caminhos extremamente encorajadores para a colaboração da Igreja e da sociedade civil, para aquela das diversas confissões na Igreja que se sabe e que se quer ecumênica, para aquela, enfim, da Igreja e das religiões. Finalmente, sem nada subtrair em relação à diversidade das épocas e dos desafios, é o mesmo combate no Espírito de salvar o humanismo aflito de Erasmo e de Lutero, e o humanismo ateu, que insidiosamente se transformou, há pouco tempo, em humanismo falsamente espiritual.

IHU On-Line - Qual é a importância de comemorar o Ano Jubilar Inaciano?  E a importância de realizar um seminário sobre a Globalização e os jesuítas na Unisinos?

Dominique Bertrand
- Um jubileu, na tradição do Antigo Testamento, é uma vitória sobre o tempo que se realiza da seguinte forma: a cada cinqüenta anos, se recomeça, e isso na alegria tonitruante das trombetas. E pode-se recomeçar porque, por um lado, Deus não se cansa jamais de conduzir o tempo que passa; por outro, porque o sinal desta infatigabilidade de Deus não se encontra nos céus, mas em uma aliança firmada com um povo entre os povos da terra. Assim, o jubileu inaciano possui o mérito de ser a festa de um reinício: recomeça-se a ser inaciano.

Aqui intervém a palavra globalização. Ela indica uma diferença imensa entre o século XVI e o nosso. No século XVI, o Ocidente e o Extremo Oriente, sem nos esquecermos da América que aparece um pouco como uma espécie de prolongamento do Extremo Oriente (Índias orientais e Índias ocidentais) descobrem a sua diferença em uma humanidade comum. Eles começam a penetrar-se. Em quinhentos anos, esta penetração ultrapassou um limiar. Ainda que as grandes massas humanas permaneçam solidárias, em relação ao seu território de origem, pelas migrações, pelo funcionamento da economia, todos os povos estão doravante presentes em todos os povos. Todos os povos são melting-pots. O cristianismo não é mais a única religião do mundo. Todas fazem o mesmo esforço, sobretudo o Islã e, em uma medida menor, o budismo. Esta distância entre as duas épocas constitui o desafio.

Refletida, como nós acabamos de fazê-lo, a tradição inaciana do discernimento dos espíritos revela uma tripla pertinência.

1. Ela permite não considerar a globalização como um destino, mas como lugar de humanismo em crise, onde, Deus nos ajudando, não há qualquer razão para não continuar o combate do mencionado humanismo.
2. Ela valoriza um aspecto bíblico de Deus, muito esquecido nas décadas e até mesmo nos séculos precedentes: o Deus da sabedoria com o qual é benéfico para o homem colaborar em todas estas decisões, isto é, a figura de Salomão. E, como diz Jesus, « nele e com ele há mais do que Salomão ». 3. Enfim, ela valoriza, no homem moderno, a sua inteligência para buscar uma felicidade duradoura por meio das boas decisões. Isso tudo se expandirá, na grande noite da morte de cada um e de todos nós e no grande novo dia da ressurreição para cada um e para todos nós, em felicidade eterna do homem.

Obrigado, pois, à Unisinos por ter, por ocasião dos aniversários inacianos, colocado de forma ampla e pública uma questão tão vital para o nosso humanismo em suas aspirações e em seus impasses. Nós estamos seguros, quanto à fé de nossos predecessores, que Deus continua ainda a agir “em benefício de seus generosos desígnios”.

 

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