Edição 196 | 18 Setembro 2006

As possibilidades e desafios da Companhia de Jesus na contemporaneidade

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IHU Online

Entrevista com o padre Peter-Hans Kolvenbach, superior geral da Companhia de Jesus

O superior geral da Companhia de Jesus, padre Peter-Hans Kolvenbach, nasceu em Druten, nos Países Baixos, em 30 de novembro de 1928. Sua formação inicial se deu no colégio Pedro Canísio de Nimega. A entrada na Companhia de Jesus foi no ano de 1948. Dez anos depois, em setembro de 1958, Peter-Hans deixou sua terra com o primeiro grupo de jesuítas holandeses enviados para o Líbano, onde estudou teologia na Universidade Saint-Joseph de Beirute. Ele foi ordenado sacerdote em 1961. No Líbano, o jesuíta passou os anos centrais de sua vida, bebendo das línguas e das tradições eclesiais e litúrgicas do Oriente Próximo. Seus estudos concentraram-se no armênio.
Ensinou inicialmente filosofia, depois lingüística geral e armênio na Universidade Saint-Joseph de Beirute.

Em 1974, foi eleito provincial da vice-província do Oriente Próximo, que inclui as comunidades jesuítas do Líbano, da Síria e do Egito. Foram os anos em que o país dos cedros começou a ser destroçado pela guerra civil. Kolvenbach ficou lá até 1981, quando padre Arrupe, então superior geral da Companhia de Jesus, o chamou a Roma para ser reitor do Pontifício Instituto Oriental.
Na 33ª Congregação Geral, em 13 de setembro de 1983, Kolvenbach foi eleito superior geral da Companhia de Jesus. De índole ascética e espiritual, padre Kolvenbach manteve na direção da Ordem um perfil reservado e de diálogo, buscando soluções não-traumáticas às controvérsias. Padre Kolvenbach é membro de duas Congregações Vaticanas (Evangelização dos Povos e Institutos de Vida Consagrada) e consultor da Congregação para as Igrejas Orientais.

Em função de sua participação no Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que acontecerá na Unisinos, de 25 a 28 de setembro, a revista IHU On-Line propôs a ele uma entrevista. Kolvenbach aceitou responder as questões que seguem, formuladas em conjunto pelos colaboradores do Instituto Humanitas Unisinos. A entrevista inaugurou a nova página eletrônica do IHU que entrou em funcionamento, de maneira experimental, no sábado, dia 16-9-2006.
Ele será o responsável pela conferência de abertura do evento, cujo tema é As origens universais da Companhia de Jesus. Possibilidades e desafios para a contemporaneidade.

IHU On-Line - Na condição de instituição de ensino superior ligada à Companhia de Jesus como se devem trabalhar as questões relativas à humanidade do ser humano para que ele valorize uma vida pautada pelo humano?

Peter-Hans Kolvenbach -
Foi a 34ª Congregação Geral que levantou esta questão, sob inspiração da 32ª Congregação Geral que de nenhum modo desapareceu. Sempre na linha de Santo Inácio , ela lembrou que todo esforço sincero no sentido do Cristo requer uma conversão pessoal contínua e, também para todos, de um modo ou de outro, um contato concreto com os pobres de todos os tipos e com sua miséria. Pouco importam as condições de vida e o ministério que ele cumpriu e solicitou dele servi-lo e acompanhar diretamente todos aqueles que sofrem e que o Senhor pôs em seu caminho. Em seguida, tornar-se sensível e desenvolver atenção por todos aqueles com os quais nós estamos ou estaremos em contato, segundo as exigências da caridade do Evangelho e da justiça do reino, assumindo a responsabilidade social do Bom Samaritano  para realizá-las.
Finalmente, como o fazemos, participando de todas as iniciativas e mobilizações para a criação de uma ordem social mais justa numa “civilização de amor”, como o diziam nossos pastores universais desde Paulo VI . Nestes últimos anos, todo este movimento se desenvolve em e com a Igreja. As paróquias assumem responsabilidades sociais. Os Exercícios Espirituais  estão atentos à irradiação social do seguimento do Senhor e, quando se visita uma das universidades, colégios ou escolas, os dirigentes são capazes de vos dizer o que eles fazem, no programa dos próprios estudos, ou por atividades extra-escolares, para concretizar esta “co-naturalidade com os pobres” de que já fala Inácio.
 
IHU On-Line - O que significa ser jesuíta hoje, em tempos de globalização?

Peter-Hans Kolvenbach
- Para um jesuíta, a globalização não deveria ser algo desconcertante. Mesmo se Inácio não emprega nossos termos, ele queria que, em seguimento do mistério da Encarnação, a Companhia atuasse na tensão universal e particular que se torna, em tradução moderna, pensar no mundial e trabalhar no local. O espírito de um jesuíta deveria sempre se mover para o universal e estar concretamente disponível para servir em toda a parte no mundo onde a carência apostólica é maior. De outra parte, ele deveria inserir-se no trabalho em terreno local, aprender as línguas e as culturas locais. Abrir-se ao universal, discernindo nele o que é positivo e o que pode tornar-se negativo e, ao mesmo tempo, trabalhar no particular, no local, sem acantonar-se nele ou ser dele prisioneiro, eis o que Inácio via como ideal também para nós.

IHU On-Line - Vivemos em uma sociedade capitalista neoliberal. Qual a orientação que o senhor dá, como superior geral, da Companhia para a inserção de uma universidade jesuítica numa economia de mercado? 

Peter-Hans Kolvenbach
- Se a universidade quiser permanecer fiel à sua vocação e à sua casa, ela deve resistir às lógicas econômicas e financeiras que gostariam de torná-la escrava do mercado. Sem dúvida, a universidade deve formar os estudantes para assumirem o trabalho profissional e a responsabilidade que o mercado também espera deles, mas esta formação não pode jamais se contentar com uma programação puramente profissional e de ofício. Isso seria esquecer que a economia não existe exclusivamente para o lucro econômico: a economia existe para o bem da humanidade e a formação intelectual e técnica não pode, pois deixar de lado a resposta da universidade à questão: uma economia, um mercado para quê e por quê? O ganho financeiro, a eficácia econômica, o produto industrial têm seu lugar numa economia sã, mas sempre em função dos valores que tornam esta economia humana e a serviço do homem. Eis a orientação que é também a da Igreja.

IHU On-Line - Quais os meios, os métodos que o senhor apontaria para fazer a missão da Companhia de Jesus conseguir chegar nas salas de aula? Na Carta de Santa Clara, o senhor escreve sobre a importância da missão chegar à sala de aula. Que meios o senhor indica para isso, considerando que temos aqui na Unisinos professores que têm mil afazeres e, muitas vezes, não sabem nem ao certo para onde estão indo?

Peter-Hans Kolvenbach
- É preciso, em primeiro lugar e na medida do possível, atrair professores que não se contentem em transmitir exclusivamente um saber ou um saber-fazer, mas que interessem os estudantes também por valores e por convicções que a ciência como ciência deve afrontar em sua aplicação na vida e na prática. Nenhuma ciência é neutra. Se outrora a teologia e a filosofia, e mais tarde as ciências humanas, se encarregavam de tomar posição diante de problemas que a ética humana põe, em nossos dias, todas as ciências ditas exatas estão implicadas nas discussões sobre bioética, do meio ambiente e da justiça social. O ideal é convidar professores que não se encerrem em suas especializações científicas e técnicas e que, com todo o respeito que a liberdade acadêmica impõe e propõe, desejem trocar com seus colegas os valores e as exigências morais implicadas em suas distintas matérias, a fim de que, a seguir, os estudantes possam tirar disso proveito para seu trabalho e responsabilidade futuros. É a direção da universidade ou da faculdade que tem a responsabilidade de animar e de organizar essas permutas interdisciplinares.

IHU On-Line - Quais são hoje as marcas principais, as características e tendências da missão da Companhia de Jesus nas universidades jesuítas pelo mundo?

Peter-Hans Kolvenbach
- A Companhia de Jesus, desde a fundação das primeiras instituições educativas no século XVI, teve sempre um cuidado especial pela pessoa que o estudante se torna. Já no início do século XVII, o padre Diego Ledesma mencionava quatro dimensões deste cuidado pessoal pelo estudante: dotá-lo de competência prática, habituá-lo a encarar sua profissão como responsabilidade social e política, habituá-lo a um discernimento crítico e analítico dos problemas que a ele se colocam e fazê-lo amar sua fé, não ao lado de sua função e de sua vida, mas como fonte de inspiração e de convicção para todo o seu agir. Essas quatro características da educação jesuítica nada perderam de sua atualidade. Os jesuítas estavam convencidos de que o melhor meio de ajudar e de mudar o mundo, é o de formar as pessoas como outros tantos “multiplicadores” dessa tarefa.

IHU On-Line - Qual o principal desafio da presença de jesuítas em universidades numa época marcada pelo pluralismo religioso e cultural de valores? Como ser presença jesuítica em uma sociedade marcada pelo individualismo?

Peter-Hans Kolvenbach -
A experiência das reuniões internacionais dos antigos alunos [ex-alunos] mostra que as características da educação jesuítica comportam valores que, sendo clara e explicitamente de origem cristã, exprimem ideais, caminhos e responsabilidade que também outras religiões e culturas esperam e procuram. É assim que no meio universitário e escolar se engaja naturalmente o diálogo da vida e o da ação, compartilhando as preocupações humanas num espírito religioso que respeita as próprias tradições religiosas e culturais. É bem conhecido o modo como o padre Arrupe soube dirigir apelo aos 3 milhões e meio de estudantes que se formam em centenas de universidades e de instituições educativas da Companhia, no sentido de serem e se tornarem homens e mulheres para os outros, lutando assim contra todo individualismo reinante.

IHU On-Line - O que poderia ser feito para que as associações de ex-alunos fossem realmente uma continuação do pensamento e da obra de Inácio de Loyola? Como fazer os ex-alunos das instituições jesuíticas de ensino serem transformadores da realidade com base no que aprenderam e multiplicadores da pedagogia inaciana?

Peter-Hans Kolvenbach
- Há alguns anos, o estilo das associações de antigos alunos mudou. Nas grandes reuniões internacionais, escutavam-se algumas conferências e celebrava-se o evento segundo a cultura dos países onde se davam as reuniões. Hoje os antigos alunos comunicam entre si o que fazem nas associações locais, assumindo iniciativas freqüentemente em uníssono com as prioridades e as preocupações dos jesuítas locais. Se em certos lugares as associações vêm em auxílio das universidades e colégios dos quais são os frutos, sobretudo no domínio da educação, em outros lugares os projetos vêm em ajuda dos pobres, sobretudo das pessoas “em movimento”, refugiados e imigrados, pessoas sem documentos e aqueles que procuram asilo. O serviço aos refugiados da Companhia pôde fazer muito na África, graças à ajuda das associações dos antigos alunos. O boletim da federação internacional fornece uma lista impressionante do que as associações fazem e podem fazer. O elo com os jesuítas na escolha desses projetos é vivo, mas, no fundo, a irradiação de uma associação depende inteiramente do dinamismo de seus membros, os antigos alunos, cuja educação inaciana urge-os a não olharem os dons recebidos nesta formação por si mesmos, mas a compartilhá-los com outros, particularmente com aqueles nos quais o Senhor quer ser servido, os pobres de todo gênero.  
 
IHU On-Line - Em que sentido Inácio de Loyola e a missão da Companhia de Jesus podem ser inspiradoras para o enfrentamento dos desafios atuais da sociedade contemporânea?

Peter-Hans Kolvenbach
- O mestre da vinha chamou Inácio e seus “amigos no Senhor” para continuar sua missão entre os homens e as mulheres de nosso tempo, aqueles e aquelas que este Senhor colocou em nosso caminho. João Paulo II  expressou claramente esta missão. De uma parte, trata-se de edificar o reino de Deus, libertando a humanidade do mal sob todas as suas formas, e, de outra parte, de reconhecer e promover a atividade amorosa de Deus que está presente na história humana e que a transforma. Conseqüentemente, na conduta de nossas vidas pessoais e comunitárias, e em todos os ministérios que assumimos – quer se trate de serviço pastoral, de trabalho universitário, de educação, quer se trate de ministério espiritual – nós viveremos de modo a visar sempre o crescimento deste reino do Cristo, no qual reinarão o amor e a justiça, e não o pecado e o ódio do homem. O que nos anima e inspira, é que nós levamos este dom do Cristo, com fidelidade e coragem, a um mundo que tem terrivelmente necessidade dele para não se destruir.

 

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