Edição 369 | 15 Agosto 2011

Um cético e um naturalista

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Márcia Junges

Ambas tendências são unidas na filosofia humeana, abrindo espaço para a investigação da racionalidade. Tal tentativa, aponta Bruno Pettersen, explica exemplarmente “como pensamos e como deveríamos pensar”

“Hume é tanto um cético como um naturalista, unindo duas tendências filosóficas diversas apenas como um grande filósofo pode fazê-lo”, observa o filósofo Bruno Pettersen na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Para ele, Hume pavimentou os caminhos da investigação “a partir de seu ceticismo, naturalismo, empirismo e principalmente a junção que ele faz destas várias tendências em sua filosofia”. E completa: “historicamente é fundamental conhecermos o empirismo humeano como uma tentativa exemplar de explicar como pensamos e como deveríamos pensar”.

Graduado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Bruno é doutorando em Filosofia pela mesma instituição com a tese A narrativa neopirrônica. Atua como professor visitante do Departamento de Filosofia da UFMG, é professor da Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia – Faje e membro do Grupo Hume – UFMG-CNPq. É um dos organizadores de Ensaios sobre Hume (Belo Horizonte: Segrac, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os pontos em comum entre o empirismo de Hume e Quine?

Bruno Pettersen – Hume pode certamente ser pensado como um dos heróis da filosofia analítica. De Russell a Quine, ele sempre fora um dos filósofos citados com mais atenção. Mais especificamente, quando nos voltamos a Quine, essa influência humeana se deve a dois motivos: o empirismo e o naturalismo. Apesar de podermos dizer que Quine herda de Hume o empirismo, precisamos distinguir o que realmente do empirismo de Hume que Quine herda. Assim, se Hume tem um tipo de empirismo do “véu das ideias” onde impressões são sucedidas por ideias na mente, Quine, e boa parte da tradição contemporânea, nega esse tipo de empirismo fundacionista e reducionista. O empirismo de Quine é, ao contrário de Hume, holista com a justificação se dando no todo teórico e não nas partes (impressões/ideias). O que há de especial no empirismo de Quine surge justamente da negação do empirismo reducionista dos modernos. No entanto, Quine é um empirista como Hume, e isto quer dizer simplesmente que, ao fim e ao cabo, para ambos o acesso ao mundo se dá por meio das nossas terminações nervosas.
Voltemos ao começo da fala, como disse: há duas características humeanas herdadas por Quine, o empirismo e o naturalismo; vejamos esta última. O naturalismo de Quine é uma doutrina que, pelo menos inicialmente, é idêntica à tese humeana: se queremos estudar o ser humano (e o mundo), devemos partir para uma investigação da natureza física. O naturalismo de Quine é mais radical que o de Hume, mas certamente o fundamento é o mesmo.

IHU On-Line – Qual é a atualidade do conceito de empirismo humeano?

Bruno Pettersen – Podemos separar essa questão em dois pontos: o primeiro da história da filosofia, e o segundo argumentativo. No que tange à história da filosofia, o empirismo de Hume é absolutamente central. Hume estrutura o conhecimento humano com elegância a partir de princípios simples apoiados na distinção entre impressões e ideias. A partir desta distinção, Hume estabelece seu “princípio da cópia”, onde toda ideia deve ter surgido de uma impressão. Este princípio permite a Hume verificar qual ideia seria justificada (aquelas decorrentes de uma impressão) e aquelas ideias que carecem de justificação (aquelas que não podemos encontrar uma impressão correspondente). Tal movimento dá a energia epistêmica necessária para que Hume desenvolva a sua investigação da mente. Assim, historicamente é fundamental conhecermos o empirismo humeano como uma tentativa exemplar de explicar como pensamos e como deveríamos pensar.
 Já no que tange à atualidade argumentativa do empirismo de Hume, não há realmente uma tese no empirismo de Hume que permaneça. Depois da crítica de autores como Quine e Sellars  é praticamente impossível manter o empirismo de Hume, afinal o reducionismo extremo e o fundacionismo não são, hoje, teses com forte apelo argumentativo. Contudo, não podemos perder de vista outros aspectos da filosofia de Hume que permanecem tão atuais como eram em sua época, tais como o naturalismo e a crítica a uma metafísica puramente especulativa.

IHU On-Line – Há uma relação entre o empirismo e o ceticismo desse filósofo?

Bruno Pettersen – Esta é uma questão de difícil resposta, isto porque o real aspecto do “ceticismo” de Hume é algo que é debatido pelos seus intérpretes. Muitos destes como Don Garrett não aceitam o ceticismo de Hume, e outros como Robert Fogelin pensam em um Hume cético.
Do modo que eu vejo, há um ponto no qual Hume é certamente um cético: ele duvida seriamente das capacidades de a razão humana compreender o real. Hume, como muitos outros céticos modernos, tais como Bayle e Montaigne, é um cético no que tange ao uso da razão. Mas Hume certamente não é um cético acerca da possibilidade de construção de uma ciência da natureza física e humana. Para ele é possível descrever as propriedades da natureza e as características da natureza humana desde que não se busque uma explicação fora daquilo que nos é acessível pelos sentidos. Deste ponto de vista, Hume é tanto um cético como um naturalista, unindo duas tendências filosóficas diversas apenas como um grande filósofo pode fazê-lo.
Depois desta explanação acerca do ceticismo de Hume, voltemos à questão do empirismo. Se pensarmos que o empirismo de Hume é uma forma de apontar que a fonte de justificação é a experiência e não a razão, vemos que o empirismo de Hume é dado em simbiose com o seu ceticismo: enquanto o ceticismo bloqueia o uso da razão, o empirismo estabelece os caminhos da investigação.

IHU On-Line – Quais são os grandes desafios do ceticismo contemporâneo?

Bruno Pettersen – O ceticismo vivia atualmente um período de formação. Até recentemente não havia, de fato, um conjunto bem estruturado de teses que poderíamos chamar de um ceticismo eminentemente contemporâneo. Se voltarmos um pouco, veremos que depois do século XVIII, quando tínhamos fortes tendências céticas, entre o século XIX e o fim do século XX, quase não tivemos manifestações originais de ceticismo. Já por outro lado, houve um aprofundamento das pesquisas acerca dos céticos antigos e modernos. Este interesse por uma história do ceticismo não gerou inicialmente uma reação cética clara.
Podemos marcar como iniciativas locais no século XX o ceticismo de Stanley Cavell, Barry Stroud e Peter Unger. Mas eles não têm realmente um conjunto de teses semelhantes. Contudo, no começo da década de 1990, o brasileiro Oswaldo Porchat e o americano Robert Fogelin publicam quase simultaneamente obras sobre um tipo de ceticismo que realmente é contemporâneo, e eles, mesmo sem nunca ter tido qualquer contato, começaram a trabalhar no que eles chamam de um ceticismo neopirrônico. Desde 2006 tenho trabalhado no ceticismo destes dois autores tentando oferecer alguma unidade ao ceticismo contemporâneo. Esse trabalho está agora chegando ao final com a defesa de minha tese sobre este assunto.

Acerca deste ceticismo neopirrônico podemos colocar alguns desafios. Vamos a eles. O primeiro é o desafio histórico: Como o ceticismo neopirrônico é realmente inovador em relação ao pirronismo clássico? O ponto central da inovação do ceticismo contemporâneo é a atualização tanto dos modos céticos quanto da descrição da vida comum.
O segundo é um desafio teórico: A quem o cético contemporâneo combate? Porchat focou sua análise deste assunto na crítica de teorias da verdade que supõem oferecer uma descrição metafísica da verdade. Porchat aponta que o único modo de falarmos acerca da verdade é se optarmos por uma descrição menos comprometida com a metafísica, sendo por outro lado mais focada na descrição do mundo. Já Fogelin, concentrou sua tese na crítica da racionalidade, indicando que é próprio da razão ter anomalias irresolúveis; para ele muitos dos problemas filosóficos atuais (como o problema de Gettier) surgem justamente da tentativa de superação destas anomalias.

O terceiro e mais importante desafio é: Qual é a relevância do ceticismo hoje? Em minha opinião, o ceticismo atual surge como um crítico da racionalidade, em dois sentidos. No primeiro sentido, como Hume, o ceticismo contemporâneo entende que a razão humana é apenas parte da descrição do conhecimento. No segundo sentido da crítica à razão, o ceticismo nos ajuda a compreender como lidar com certos aspectos da vida contemporânea, como a ciência, mesmo depois de percebermos a fragilidade da razão.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Bruno Pettersen – Neste ano em que se completam os 300 anos do nascimento de David Hume, é oportuno relembrarmos o pensamento deste filósofo com a intensidade que ele merece. Do ponto de vista teórico, Hume é um dos maiores filósofos da história, desenvolvendo um tipo de filosofia unindo uma argumentação penetrante e um estilo de escrita impressionante. Não podemos nos esquecer dos muitos caminhos de investigação que Hume pavimentou a partir de seu ceticismo, naturalismo, empirismo e principalmente a junção que ele faz destas várias tendências em sua filosofia. Sabemos hoje que Hume organizou estas três orientações, mas realmente permanece um desafio exegético entender como ele o fez, desafio este fundamental na tentativa de compreensão do humano.
Do ponto de vista acadêmico, é ótimo pensar que atualmente existem vários grupos de pesquisa nas universidades pelo mundo dedicados ao pensamento de Hume, e aqui no Brasil temos especialmente na última década um florescimento da pesquisa em Hume indo de trabalhos de iniciação científica, dissertações, teses até artigos e livros sobre este filósofo. Não podemos deixar de mencionar os muitos eventos nacionais e internacionais sobre Hume aqui no Brasil e inúmeros fora. Essa relevância acadêmica da obra de Hume se faz mais presente agora, quando completamos três séculos desde que este grande filósofo nascera.

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