Edição 369 | 15 Agosto 2011

A atualidade da filosofia humeana

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Márcia Junges

Filosofia contemporânea tem valorizado obra do pensador escocês, pondera Adriano Naves de Brito. É preciso promover intersecções entre seu legado filosófico e outras áreas do conhecimento

Há um interesse crescente na filosofia de David Hume. É possível, inclusive, “falar de uma abordagem humeana em moral que vem ganhando espaço na filosofia contemporânea”, aponta o filósofo Adriano Naves de Brito, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. O coordenador do PPG em Filosofia da Unisinos diz que é preciso, junto com Hume “mas não apenas com ele”, misturar a filosofia com outras áreas do conhecimento como psicologia, neurociências, biologia e estatística. Analisando o nexo entre vontade e determinismo moral em Hume, afirma: “A vontade para Hume é vontade natural, e não uma vontade livre (e pura), capaz, portanto, de inaugurar cadeias causais sem a influência de outra causa que não ela mesma. Nesse sentido, a vontade humeana tem de ser vista desde o prisma do determinismo causal, ou, em outros termos, sob a ótica dos eventos físicos”.

Coordenador do Programa de Pós-Graduação da Unisinos, Adriano é graduado em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC Goiás, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS com a tese Nomes próprios. Estudo em semântica e ontologia (Brasília: UnB, 2003). Dirige a Sociedade Brasileira de Filosofia Analítica – SBFA. Investigou obras teóricas de Hume e Kant e dedicou-se à filosofia da linguagem contemporânea, área na qual estudou as teorias da referência de nomes próprios, confrontando as posições fregeana e kripkeana.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os principais temas do pensamento da Hume que continuam atuais e pertinentes ao debate filosófico no século XII?

Adriano Naves de Brito - Hume é um autor muito atual devido a sua abordagem não apriorista em filosofia, seja no campo teórico, seja no campo prático. A inspiração moderna, mas não cartesiana, de investigação da natureza humana, está bastante em conformidade com as investigações de disciplinas novas como as neurociências e as ciências cognitivas. No campo prático, sua abordagem dos temas éticos pelo viés dos sentimentos é profundamente compatível com o naturalismo e, por isso, compatível com as ciências, em especial com a perspectiva darwinista da biologia.

IHU On-Line - Poderia explicar a interseção que você realiza em suas pesquisas no campo da moral, na fundamentação da ética, a partir do pensamento de Tugendhat, dialogando com o legado humeano e kantiano?

Adriano Naves de Brito - Minha leitura de Tugendhat  o coloca entre as duas perspectivas, a de Hume e a de Kant. Do primeiro, como vejo, ele se aproxima pela importância que dá aos sentimentos na dinâmica da moral para a nossa espécie, mas do segundo, pela via da filosofia neokantiana, dominante no século XX, sobretudo pelo viés do contratualismo, ele se aproxima devido ao tema da justificação dos juízos morais. Acho as duas perspectivas inconciliáveis, e esse é o eixo de minha crítica a Tugendhat. A partir dessa crítica, enveredei pelo naturalismo, buscando apresentar uma alternativa teórica para o tratamento dos temas morais que não estivesse orientada pelo neokantismo (e pelo racionalismo, em sentido amplo) latente nas posições contratualistas. O resultado tem sido uma teoria de cunho fortemente naturalista (e evolucionista) quanto à motivação moral e imanente quanto ao valor.

IHU On-Line – Qual é a importância da filosofia de Hume para o debate em filosofia moral?

Adriano Naves de Brito - Sua importância, graças à naturalização crescente da discussão filosófica nesse século, tem crescido enormemente. Sua filosofia já era um ponto de referência devido a sua famosa falácia naturalista, assim nomeada por G. Moore. O problema aqui é o da explicação da normatividade, do dever ser, a partir de bases empíricas, com base naquilo que é, de onde as ciências partem. Esse problema ainda ocupa as teorias morais de diferentes matizes, sobretudo as de cunho naturalista, já que, por sua opção de princípios, partem da natureza, logo, daquilo que é, para alcançar as suas explicações sobre o âmbito normativo humano. Recentemente, contudo, ela tem sido revisitada também em sentido positivo, por conta da reinclusão das emoções como base da moralidade. Na literatura recente, Hume tem sido um autor muito citado. Pode-se falar de uma abordagem humeana em moral que vem ganhando espaço na filosofia contemporânea.

IHU On-Line - Em que aspectos o universalismo na moral a partir de Hume se configura numa alternativa não kantiana?

Adriano Naves de Brito - O universalismo é um problema para a filosofia da Hume, pois uma filosofia moral que parte do que agrada tende, sem ulteriores explicações e pressupostos (como o evolucionismo, por exemplo), ao subjetivismo, ou, no mínimo, ao culturalismo. Mas essa não era a visão de Hume, embora lhe faltassem os elementos para defendê-la contra todas as objeções. Ele via a sua perspectiva como universalista, pois cria na universalidade da natureza humana. Essa perspectiva, contudo, não é nada kantiana, para quem o fundamento da moral não é nossa natureza fisiológica ou psíquica, mas racional. Se posso dizê-lo de modo um pouco caricatural com respeito à história da filosofia, Kant foi o vencedor desse duelo da modernidade até o século XX, mas a mesa começa a virar em favor de Hume.

IHU On-Line - Como vontade e determinismo moral se entrelaçam em Hume?

Adriano Naves de Brito - A vontade para Hume é vontade natural, e não uma vontade livre (e pura), capaz, portanto, de inaugurar cadeias causais sem a influência de outra causa que não ela mesma. Nesse sentido, a vontade humeana tem de ser vista desde o prisma do determinismo causal, ou, em outros termos, sob a ótica dos eventos físicos.

IHU On-Line - Qual é o nexo que une utilidade e simpatia em Hume? E a que se refere a contraposição desse pensador ao egoísmo cético?

Adriano Naves de Brito - O tema da utilidade em Hume é mais complexo do que se pode intuir à primeira vista. A história da filosofia cunhou o termo utilitarismo e acabou incluindo Hume sob esse conceito. Contudo, Hume não é um utilitarista nos termos de Bentham ou Mill. A utilidade, para Hume, tem um sentido naturalista e não de cálculo de vantagens. As ações morais são boas porque são úteis e são úteis porque são conformes ao nosso bem e, por isso, agradam. É claro que, visto desde o ponto de vista da evolução, essa equação se fecha perfeitamente. Esse elemento evolucionista faltava a Hume, óbvio, mas sua teoria casa-se perfeitamente com ele. Ora, a simpatia é um sentimento de conexão entre seres vivos de vida social complexa e que resulta numa comunicação afetiva. Sentimos as dores e os prazeres dos outros. O termo, portanto, deve ser lido como uma empatia compassiva. Como não gostamos de dor, buscamos, como qualquer outro ser vivo, evitá-la, o que, no tocante à vida social, significa interessar-se pelo bem estar dos demais, sobretudo dos que nos são mais próximos. Esse sentimento, evidentemente, é muito útil para a vida social de animais com sistema nervoso complexo como o nosso, isso é, animais com grande autonomia de ação.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto no questionado?

Adriano Naves de Brito - Gostaria de exortar à leitura desse interessante e fundamental autor, Hume, que, ademais, é um grande escritor. Para além disso, gostaria de convidá-los a ousar – em par com Hume, mas não apenas com ele – misturar filosofia com outras disciplinas, como a psicologia, a neurociência, a biologia e a estatística, para citar algumas. Em suma, a misturar filosofia e ciências. Embora essa tenha sido sempre a vocação da filosofia, não raro ela se esquece de uma lição fundamental de Kant; sim, de Kant!, qual seja, o criticismo. Ao fazê-lo, a filosofia envereda pelo dogmatismo apriorístico e se perde em aporias. A matemática, nesse caso, é, via de regra, o modelo único de ciência com o qual se conta, mas isso não precisa e não deve ser assim. Kant mesmo pode ter sucumbido a esse erro, de nota platonista, vale dizer, mas isso não desautoriza o seu juízo de que o criticismo (e posso traduzi-lo por “naturalismo”) é a via que permanece aberta à filosofia.

Leia mais...

Confira outras entrevistas concedidas por Adriano Naves de Brito à IHU On-Line.

* IHU Repórter. Edição número 211, Revista IHU On-Line, de 12-03-2007;

* Cirne-Lima, um filósofo com grande respeito pelas ciências. Revista IHU On-Line número 261, de 09-06-2008;

* Ética e sentimentos morais. Cadernos IHU Ideias número 52, em autoria com Thomas Kesselring;

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