Edição 369 | 15 Agosto 2011

A teoria da causalidade em David Hume

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Márcia Junges e Graziela Wolfart

Para Hume, todas as ocorrências no mundo estão precisamente determinadas, não teleologicamente, em vista de algum fim, mas mecanicamente, em consequência de eventos precedentes, considera José Oscar de Almeida Marques

Na visão do professor José Oscar de Almeida Marques, “o interesse de Hume não é fazer uma teoria da causalidade enquanto tal, mas explicar como chegamos a adquirir nossas crenças causais, ou seja, como somos levados a acreditar, por exemplo, que um copo irá cair ao chão se eu o largar, antes mesmo de tê-lo largado”. Nesse sentido, explica ele, “a questão que Hume investiga não é metafísica, mas psicológica. Ela diz respeito ao funcionamento da mente humana. Para Hume, não chegamos a essas crenças por nenhum raciocínio dedutivo a partir dos princípios acima, mas apenas pela experiência e pelo hábito. Ao observar que um evento de certo tipo é regularmente seguido por um evento de outro tipo, somos levados automaticamente, sem nenhuma reflexão, a esperar a ocorrência de um evento do segundo tipo ao observarmos um evento do primeiro tipo”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, José Oscar defende que “Hume pretende que nosso conhecimento das relações de causa e efeito deve se derivar exclusivamente da experiência, mas ele nota que, com isso, não estamos justificados racionalmente em projetar para o futuro as regularidades do passado (porque não temos uma prova do princípio de uniformidade), e não podemos, portanto, pensar a relação de causa e efeito como envolvendo uma conexão necessária entre os dois termos”.

José Oscar de Almeida Marques é professor no Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Doutor em Filosofia e mestre em Lógica e Filosofia da Ciência pela Unicamp, é bacharel em Engenharia de Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, de São José dos Campos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é o princípio da razão suficiente de Hume?

José Oscar de Almeida Marques – O princípio de razão suficiente é a tese de que tudo o que acontece ou existe tem uma razão para sua ocorrência ou existência. É um princípio defendido por muitos autores e faz parte de muitas doutrinas filosóficas. Quando Aristóteles afirma, na Política, que “a natureza nada faz em vão”, ele está apresentando uma versão desse princípio. Frequentemente o princípio é apresentado como significando que tudo que ocorre tem uma finalidade, ou está dirigido para um certo fim, o que se supõe que há um desígnio governando o curso da natureza. No entanto, aquilo que, em Hume, corresponderia a um princípio de razão suficiente não tem essa dimensão teleológica (télos = fim). O que ele afirma é que tudo que acontece ou existe tem uma causa, e, causas, para ele, como em geral para os filósofos da Modernidade, não envolvem, como para Aristóteles, a direção a um objetivo futuro, mas apenas a referência a eventos passados. Para Hume, portanto, todas as ocorrências no mundo estão precisamente determinadas não teleologicamente, em vista de algum fim, mas mecanicamente em consequência de eventos precedentes.

IHU On-Line – E o princípio da uniformidade, do que se trata?

José Oscar de Almeida Marques – O princípio de uniformidade é a tese de que a natureza é uniforme em suas operações em qualquer região do espaço e em qualquer intervalo do tempo. Basicamente, consiste em afirmar que as leis da natureza são invariáveis e continuarão operando no futuro tal como operaram no passado. A consequência disso é que podemos supor que causas que tiveram certos efeitos no passado continuarão tendo os mesmos efeitos no futuro, o que nos permite fazer inferências seguras acerca da ocorrência de eventos ainda não observados.

IHU On-Line – Como esses conceitos se mesclam na composição da teoria da causalidade humeana?

José Oscar de Almeida Marques – O interesse de Hume não é fazer uma teoria da causalidade enquanto tal, mas explicar como chegamos a adquirir nossas crenças causais, ou seja, como somos levados a acreditar, por exemplo, que um copo irá cair ao chão se eu o largar, antes mesmo de tê-lo largado. Nesse sentido, a questão que Hume investiga não é metafísica, mas psicológica. Ela diz respeito ao funcionamento da mente humana. Para Hume, não chegamos a essas crenças por nenhum raciocínio dedutivo a partir dos princípios acima, mas apenas pela experiência e pelo hábito. Ao observar que um evento de certo tipo é regularmente seguido por um evento de outro tipo, somos levados automaticamente, sem nenhuma reflexão, a esperar a ocorrência de um evento do segundo tipo ao observarmos um evento do primeiro tipo.

IHU On-Line – Em que aspectos a causalidade de Hume continua uma proposição atual no século XXI?

José Oscar de Almeida Marques – Embora Hume estivesse interessado nos aspectos psicológicos envolvidos em nossa apreensão da causalidade, e não na questão metafísica sobre o que poderia ser a causalidade ela própria, independentemente de nossa apreensão, é possível extrair de seu trabalho uma teoria desse tipo e propor não apenas que as regularidades são o meio pelo qual chegamos a discernir relações causais, mas que a própria causalidade se esgota totalmente nisso. Isso significa dizer que as relações causais não envolvem nenhuma relação inteligível entre causa ou efeito, e esgotam-se simplesmente na existência de uma regularidade. Com isso se recusa uma tradicional concepção de causalidade que via nela uma certa relação inteligível, ou um nexo, entre causa e efeito. A concepção de causalidade derivada de Hume é, ainda hoje, a mais amplamente aceita pelos que estudam o tema da causalidade e teve grande importância no desenvolvimento do positivismo lógico e de seus desdobramentos até os dias de hoje.

IHU On-Line – Quais são os pontos de proximidade e distanciamento entre obras Tratado da natureza humana, de Hume, e Crítica da razão pura, de Kant?

José Oscar de Almeida Marques – Há inúmeros pontos de contato, e pode-se dizer que a Crítica da razão pura pode ser tomada como uma resposta sistemática e completa aos problemas levantados por Hume no Livro I do Tratado. Para ficarmos apenas no tema da causalidade, Hume pretende que nosso conhecimento das relações de causa e efeito deve se derivar exclusivamente da experiência, mas ele nota que, com isso, não estamos justificados racionalmente em projetar para o futuro as regularidades do passado (porque não temos uma prova do princípio de uniformidade), e não podemos, portanto, pensar a relação de causa e efeito como envolvendo uma conexão necessária entre os dois termos. Essa situação pareceu inaceitável para Kant, que pretendeu resolvê-la propondo que o conceito de causa e efeito pré-existe em nós anteriormente a qualquer experiência, como uma categoria a priori, por meio da qual a relação entre causa e efeito é pensada como necessária.
 
IHU On-Line – Poderia contextualizar a influência de Hume em Kant?

José Oscar de Almeida Marques – Como indicado acima, pode-se dizer que a crítica que Hume fez à noção de causa, tal como tradicionalmente concebida na metafísica, foi o principal motivo para que Kant, em suas próprias palavras, “despertasse de seu sono dogmático”. Há muita discussão sobre quanto Kant realmente chegou a conhecer do Tratado de Hume, mas parece claro que, além da questão da causalidade, também a discussão humeana sobre a questão da existência dos objetos externos e do próprio eu encontra uma resposta e tentativa de solução na Crítica da razão pura. Note-se ainda que, mesmo no caso dos juízos morais e de gosto, o grande projeto crítico de Kant pode ser entendido como uma resposta ao tratamento puramente empírico que Hume desenvolveu nesses domínios.

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