Edição 369 | 15 Agosto 2011

O problema da indução e suas incursões devastadoras

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Márcia Junges

Segunda metade da terceira Crítica de Kant busca reconstruir algo seguro sobre os escombros deixados pelo ceticismo humeano, adverte Eduardo Barra. Legado filosófico desse pensador continua atual, mas foi mal apropriado por Richard Dawkins em seu Deus, um delírio

Para o filósofo Eduardo Barra, é compreensível que Hume seja, ainda em nossos dias, “lembrado pelas suas incursões devastadoras no assim chamado ‘problema da indução’”. Ele explica: “As dúvidas que Hume levantou sobre o alcance dos nossos raciocínios indutivos conflitam com as convicções de certos cientistas que extemporaneamente ainda se fiam nos cânones do chamado ‘método científico’, acreditando, por exemplo, que suas teorias preferidas sejam ou possam ser provadas pela experiência”. Barra fala, também, sobre a ideia de religião natural humeana: “O interesse renovado pela religião natural naquela altura do século XVIII respondia, então, a uma motivação surgida do sucesso obtido com a aplicação dos novos métodos de investigação do mundo material e de descoberta de suas leis e princípios. Entre esses métodos, destacava-se a assim chamada ‘filosofia experimental’. Hume fora um dos que se entusiasmaram imoderadamente com as promessas desse método, tanto que colocara como subtítulo da sua obra de juventude, o Tratado sobre a natureza humana (1739), o sugestivo subtítulo: “uma tentativa de introduzir o método experimental nos assuntos morais”. Barra, comenta, ainda, o fato de Dawkins se remeter a Hume como autoridade filosófica para “um certo evolucionismo não apenas não criacionista, mas sobretudo anticriacionista”. Em sua opinião, “qualquer ‘cisma’ entre religião e ciência ou entre fé e crença (isto é, conhecimento) tem, portanto, um caráter estrutural e insuperável. Essa me parece ser uma lição importante a ser apreendida da leitura das filosofia de Hume e de Kant. Repito que ela poderia valer como corretivo para os dois lados do debate criacionismo versus darwinismo”.

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, é mestre e doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo – USP com a tese De Newton a Kant: a metafísica e o método da ciência da natureza. É pós-doutor pela Recherches Epistémologiques et Historiques sur les Sciences Exactes et sur les Institutions Scientifiques – REHSEIS, na França. Atualmente, leciona na Universidade Federal do Paraná – UFPR.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que aspectos a filosofia de Hume continua sendo relevante para a discussão da ciência em nosso século?

Eduardo Barra – Creio que há muitos aspectos nos quais a filosofia de Hume permanece de grande relevância para ainda hoje compreender a ciência. Sou daqueles que pensam que Willard Quine , filósofo norte-americano que faleceu em 2000 e que talvez tenha sido o mais influente filósofo da sua geração, estava totalmente correto quando disse que “a condição humeana é a condição humana”. Isso quer dizer que há problemas nos quais Hume tocou – e o fez com tamanha propriedade e discernimento – que, se não ocorrer uma improvável alteração estrutural do nosso modo de ser no mundo ou daquilo que alguns preferem chamar de natureza humana, tampouco aqueles problemas se alterarão substantivamente.
Vejamos um exemplo extraordinário disso que estou dizendo. É compreensível que ainda hoje Hume seja lembrado pelas suas incursões devastadoras no assim chamado “problema da indução”. A meu ver, é mesmo muito acertado chamar esse problema de “problema de Hume”, conforme fez Karl Popper , um filósofo austríaco, radicado na Inglaterra, que morreu em 1994 e que talvez tenha sido quem mais se interessou por essa questão desde Hume.
O problema consiste em avaliar em que medida a experiência pode ter um papel na justificação das nossas crenças sobre o mundo, sobretudo daquelas que elaboramos na forma de leis naturais ou de generalizações probabilísticas. As dúvidas que Hume levantou sobre o alcance dos nossos raciocínios indutivos conflitam com as convicções de certos cientistas que extemporaneamente ainda se fiam nos cânones do chamado “método científico”, acreditando, por exemplo, que suas teorias preferidas sejam ou possam ser provadas pela experiência.

IHU On-Line – Em que consistia a crítica de Hume ao conceito de causalidade?

Eduardo Barra – O problema da indução, da maneira como Hume o formulou e discutiu, surge em meio a outro problema talvez ainda mais abrangente, que denominamos justamente de problema da causalidade. Não seria difícil mostrar o nexo entre os dois problemas se começarmos notando que o primeiro inclui uma severa restrição à nossa pretensão de conhecer a essência das coisas. Normalmente, queremos conhecer a essência ou a natureza das coisas com a intenção de assim poder saber de antemão com razoável certeza o modo como as coisas serão ou se comportarão amanhã, depois de amanhã e sempre. Por exemplo, supomos que com o que conhecemos sobre a natureza de certos alimentos podemos antecipar o seu comportamento no nosso organismo, que produzirão, por exemplo, aquela agradável sensação de saciedade. Isso nos faz atribuir ao pão, por exemplo, uma determinada qualidade nutritiva ou algo do gênero.
O que Hume notou nesse modo de pensar é que a qualidade que assim anexamos aos alimentos nada se assemelha ou não pertence à mesma família das demais qualidades que imediatamente constamos nesses mesmos alimentos, quando empregamos os nossos sentidos: cor, textura, consistência, odor etc. Digamos que essa qualidade nutritiva é uma estranha no ninho, isto é, nenhum dos nossos sentidos pode nos fornecer o mesmo vestígio do que quer que seja a respeito delas. A rigor, nada podemos mesmo saber a respeito delas.
Ora, é natural que as pessoas se perguntem se esse tipo de dúvida continua válida ainda hoje, quando tanto progresso se fez no conhecimento da estrutura atômica e subatômica da matéria, sobretudo das diversas possibilidades de traduzir as supostas qualidades nutritivas dos alimentos em termos de proteínas, aminoácidos, sais minerais etc. e das diversas maneiras como as suas estruturas moleculares podem ser fragmentadas e combinadas.

Embora seja compreensível essa desconfiança sobre a atualidade das dúvidas humeanas, ela não resiste a um exame mais atento. Tudo o que podemos dizer é que empurramos o problema para frente, isto é, o remetemos a um domínio de estruturas invisíveis e, portanto, inobserváveis, mas que de modo algum podem responder a exatamente aquilo que se espera do suposto conhecimento das essências das coisas. Tudo o que fizemos foi deslocar a base sólida do nosso conhecimento, que passou dos aspectos macroscópicos (cor, odor, sabor etc.) para os aspectos microscópios (proteínas, aminoácidos, sais minerais etc.) das coisas.
Todavia, por mais sólida que seja essa base – uma solidez que resulta da qualidade da nossa experiência –, nada ela pode nos informar sobre a eficácia que invariavelmente associamos a qualquer conjunto daqueles aspectos macro ou microscópios das coisas. Que um certo complexo de proteínas, aminoácidos, sais minerais etc. possua, além de todas as suas conhecidas propriedades químicas, a propriedade de proporcionar aquilo que normalmente atribuímos a uma boa alimentação: saciedade, saúde e bem-estar, eis algo que jamais poderemos saber com a certeza que comumente pretendemos ter. Nossa certeza vem apenas da experiência, a experiência de verificar que a ingestão de alimentos dotados de determinadas propriedades ditas nutricionais é frequentemente acompanhada de certos comportamentos visíveis nos organismos que os ingere. Fora dessa experiência, nada conhecemos sobre a relação que os alimentos mantêm com os estados dos organismos – uma relação que, como todos sabem, chamamos de relação de causa e efeito.

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