Edição 369 | 15 Agosto 2011

Razão e bom humor. A pequena grande filosofia de David Hume

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Redação

Saiba mais sobre David Hume.

É provável que boa parte da atração que o leitor sente ao contato com os textos de David Hume (1711-1776) ainda hoje, nos 300 anos de seu nascimento, se deva à saudável inquietação que provocam.
Enquanto Descartes (1596-1650) procura extirpar os “preconceitos da infância” à força de uma intensificação hiperbólica da dúvida, lançando mão de recursos retóricos e cênicos como o Gênio Maligno e o Deus Enganador, Hume avança teses frontalmente contrárias ao senso comum sem alterar o tom, procurando evitar que o leitor reacenda no espírito suas prevenções costumeiras.
Será verdade que o instinto é mais importante para a vida que a razão? E que o raciocínio de causa e efeito não tem origem racional, mas é fruto de uma conjunção fortuita, a que apenas educação e hábito dão consistência?
Levar o leitor comum a se convencer da verdade de tais proposições supõe uma concepção peculiar do exercício filosófico e literário, que pode ser explicado como busca de um ajuste fino entre excentricidade e bom-senso, cujo indicador se exprimiria por sinais de serenidade e bom humor. Quanto maior o destempero, maior o indício de que se perdeu a razão, ensinava Shaftesbury (1671-1713). Na mesma linha, Hume definiu sua filosofia como ceticismo temperado ou “mitigado”, por oposição ao ceticismo excessivo ou de “cabeça quente”.

Obra
O primeiro livro que Hume publicou, em 1739-40, o Tratado da natureza humana [trad. Déborah Danowski, Editora Unesp, 2000, 712 p.], quase não teve repercussão. A obra era pesada demais, e seu fracasso levou felizmente o autor a repensar sua maneira de escrever.
Em 1742, saem os Ensaios, bem mais acessíveis, nos quais mimetiza os artigos de Addison na revista Spectator. Foram 17 reedições durante a vida de Hume; junto com a História da Inglaterra, contribuíram para seu renome como escritor. Em 1748, ele publica a Investigação sobre o entendimento humano e, em 1751, a Investigação sobre a moral [Editora Unesp, 2003, 438 p.], a qual ele próprio considerava sua obra mais bem-acabada.
Reações eclesiásticas a esses escritos não se fizeram esperar. Por causa deles, Hume não foi aceito como professor na Universidade de Edimburgo e, posteriormente, na Universidade de Glasgow. Em 1756, sofreu um processo de excomunhão, sendo absolvido pela Assembleia Geral da Igreja da Escócia. Em 1757, publicou a História natural da religião, e em 1779, três anos após sua morte, aparecem os Diálogos sobre a religião natural [trad. José O. A. Marques, Martins Fontes, 1992, 188 p.].

Grandeza e baixeza
Apesar do sucesso como escritor, a imagem que provavelmente ficou de Hume no público britânico em geral é aquela que Samuel Johnson deixou dele: a de um “homem infiel, embora benevolente e bom”.

Sabe-se hoje que a apreciação de Johnson sobre o filósofo escocês se deve menos a leituras de suas obras e ao pouco contato pessoal que teve com ele do que àquilo que lhe foi soprado por seu grande biógrafo, James Boswell. Seja como for, a disputa entre o grupo ligado a Johnson e o ligado a Hume foi decisiva para os rumos da vida filosófica, artística e literária na Grã-Bretanha.
Um exemplo, entre tantos outros: Edgar Wind escreveu um estudo admirável sobre a pintura britânica do século XVIII, David Hume e o retrato heroico: Estudos sobre a imagística no século XVIII [Oxford University Press, 146 p.], no qual procura mostrar que as diferenças de estilo nos retratos dos dois maiores pintores do século XVIII na Grã-Bretanha, Joshua Reynolds e Thomas Gainsborough, se devem a concepções filosóficas antagônicas a respeito da natureza humana.
A arte de Gainsborough representaria uma visão rebaixada do homem, sustentada no ceticismo humeano, que afirma que a razão humana é muito fraca se comparada ao instinto e, portanto, não muito superior à razão encontrada nos animais. Já a grandiosidade das figuras nos retratos de Reynolds se explicaria como reação a esse rebaixamento do homem e de sua razão. Reynolds teria buscado fazer jus a uma concepção “heroica” do homem, que ele partilhava com Johnson e com o filósofo James Beattie, adversário de Hume.
Kant
Hamann e Jacobi eram bem próximos de Kant (1724-1804), ele também bastante influenciado pela obra do escocês, a ponto de afirmar que foi Hume quem o despertou do “sono dogmático”. Kant investiu anos de vida tentando mostrar que o raciocínio de causa e efeito não é fruto de repetição e hábito. O seu esforço é explicável: diferentemente de Hamann e Jacobi, Kant não se enganou sobre as reais intenções de Hume.
Embora a própria ideia de crítica da razão tenha no ceticismo humeano uma de suas mais fortes inspirações, era preciso lhe responder à altura, mostrando que entendimento e razão não são tão impotentes assim como ele queria fazer crer.
Até hoje corre muita tinta para saber quem, Hume ou Kant, venceu a controvérsia (a causalidade é um hábito originado na experiência ou um conceito a priori do entendimento?), que sobrevive em posições epistemológicas bem distintas, uma mais afeita a uma concepção racional do conhecimento, outra ao utilitarismo, ao positivismo lógico e ao pragmatismo.

Miragens
Mesmo a mais trivial das ocupações tem valor para o indivíduo que nela se aplica - valor que está menos naquilo que se busca do que na própria atividade.
O dinheiro cobiçado na mesa de jogo, o javali freneticamente disputado numa caçada são apenas miragens que a natureza institui para nos impelir à atividade. Indivíduos mais excêntricos correm atrás de outros tipos de recompensa, como o imperador Domiciano (51-96 d.C.), para quem o troféu dos seus esforços eram as moscas que pegava.
Impossível demonstrar mediante argumentos, para quem gosta de sinuca, que o golfe é um esporte mais nobre, assim como, para o fã de música techno, que é melhor ouvir música clássica. A opção é só aparentemente irracional, pois se explica por um mecanismo natural, ligado ao instinto de conservação e prazer e ao temperamento de cada um.
Assim, tão importante quanto o refinamento do gosto e dos costumes é a atenção para as diferenças de sensibilidade e temperamento. Tal respeito pela diversidade explica por que Hume acertou bem mais do que Samuel Johnson no que se refere ao Tristram Shandy, de Laurence Sterne (trad. José Paulo Paes, Companhia das Letras), romance inteiramente avesso ao gosto clássico de ambos. Em carta a William Strahan, de 1773, Hume diz que, nos últimos 30 anos, o melhor livro escrito por um “englishman” era o de Sterne – “por pior que ele seja” (“as bad as it is”).

Idiossincrasias
O filósofo galante sabe compreender o que há de fundamental nas idiossincrasias dos outros e também brincar com as próprias. É o que Hume faz com sua entrega um tanto intemperada aos prazeres da mesa.
Mas o principal é que a singularidade deve ser respeitada, porque, se não é prova, pode ao menos ser sinal do novo. Como afirma no ensaio intitulado Do comércio, os pensadores “abstrusos” são mais interessantes do que os superficiais, porque “indicam caminhos” e “apontam dificuldades” que podem levar a “finas descobertas” de pensadores “mais ajuizados”.
Para a filosofia séria, “profissional”, há uma consequência bastante incômoda a tirar de todas essas ideias. É que, se toda ocupação é importante, não havendo razões para dizer que uma seja superior à outra, a conclusão também é válida para o sublime amor ao saber. Comparar a meditação filosófica a um passatempo frívolo qualquer parece, assim, perturbar muito mais do que todos os argumentos céticos ou cristãos sobre a fraqueza de nossa razão.
A lição de David Hume talvez resida nessa combinação de excentricidade e modéstia: o máximo que o exercício filosófico pode almejar são pequenas descobertas - ou, parafraseando Kant, transgressões judiciosas dos limites do bom-senso.

Fonte: Márcio Suzuki, artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, 07-08-2011, disponível em http://bit.ly/rdSCMW e aqui adaptado.

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