Edição 368 | 04 Julho 2011

IHU Repórter

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Graziela Wolfart

“Sou curioso e um tímido espalhafatoso, como diz a canção do Caetano Veloso”. É desta forma que se autodefine o professor Ronaldo Henn, do PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos. Nascido em Caxias do Sul-RS, teve a infância marcada por fortes experiências, que contribuíram para a formação de sua personalidade. Leia, a seguir, aspectos da trajetória de vida deste pesquisador que adora caminhar, ir ao cinema e estar com os amigos.
O gremista Ronaldo Henn

Origens e lembranças da infância – Nasci em Caxias do Sul. Minha mãe era operária da indústria têxtil e meu pai era funcionário da CEEE. Éramos uma família humilde, com poucos recursos. Meu pai faleceu muito cedo, quando eu tinha apenas dois anos, vítima de um acidente. A morte do meu pai foi uma marca muito profunda na minha infância. Além da perda, teve também o impacto econômico. Minha mãe teve que dar conta de sustentar a mim e a minha irmã mais velha. Mesmo nesse contexto sempre aprendemos que seria muito importante que estudássemos. Lembro-me que havia um senso comunitário entre os vizinhos, de solidariedade entre as pessoas do bairro. Outra questão marcante da minha infância é que sou da primeira geração que cresceu tendo um televisor dentro de casa. Mesmo assim, as pessoas se reuniam em volta da mesa ou nos pátios para contarem histórias. Outro elemento muito presente dessa época é o rádio. Ouvíamos a Rádio Princesa, com uma programação musical de altíssima qualidade. Muito do meu gosto musical veio com essa matriz.

Trabalho desde cedo – Ainda quando criança, de 8 a 12 anos, tive que trabalhar para poder ter meu próprio dinheiro. Adorava ir ao cinema e precisava dinheiro para isso. Então, vendia pastéis nas portas de fábrica, vendia picolés e ainda catava material reciclável. Mas esses trabalhos nunca prejudicavam meus horários de estudos. Quando eu estava na 8ª série do ensino fundamental, consegui um emprego de office-boy e passei a estudar à noite.

Formação – Iniciei meus estudos em escola pública, em Caxias do Sul, na época em que o ensino público era de qualidade. Lembro que a professora nos levava para a biblioteca da escola, para ficarmos lendo, o que me estimulou o gosto pela leitura. Estudei em Caxias até parte do ensino médio. Depois me mudei para São Leopoldo e terminei o ensino médio no Colégio São Luís. Então, fiz a graduação em Jornalismo na Unisinos e tive aulas com professores admiráveis da área das ciências humanas que foram muito importantes na minha formação. Quatro anos depois que me formei, em 1988, decidi fazer mestrado e escolhi a PUC-SP que abrigava um pensamento sobre comunicação muito instigante. Consegui uma bolsa integral da Capes, que me pagava o curso e também me garantia um salário. Pela primeira vez na minha vida vivi na situação de poder só estudar. Conclui o mestrado em 1994 e em 1996 voltei para a PUC-SP para fazer o doutorado. Eu já trabalhava na Unisinos e havia um incentivo da universidade de que seus professores se capacitassem. Então, fui beneficiado por isso e pude fazer meu doutorado financiado pela própria universidade.

Jornalismo e carreira profissional – Como eu gostava de ler jornal, com 12 anos de idade fiz uma assinatura do Correio do Povo, com o dinheiro que eu ganhava vendendo as coisas que contei. Eu tinha aquele idealismo de que o Jornalismo poderia mudar o mundo. Isso me fez escolher o curso. Ainda durante a faculdade comecei a trabalhar no Jornal VS. Também fiz freelancer na revista Contigo e IstoÉ. Quando terminei os créditos do mestrado, voltei de São Paulo, me instalei em Porto Alegre para concluir a dissertação, e comecei minha carreira no ensino acadêmico. Fui contratado pela Ulbra, para a primeira turma de Jornalismo, onde fui professor até 1994. Nesse meio tempo também entrei na Unisinos como professor, onde estou até hoje. Na época do meu ingresso, recém havia sido implementado na universidade o mestrado que, na ocasião, era de semiótica e depois deu origem ao que é o PPG em Ciências da Comunicação hoje. Retornei do doutorado em 2000, entrando automaticamente para o corpo docente de pesquisadores do PPG. Nessa trajetória, uma das experiências mais importantes que tive na Unisinos foi o grupo de pesquisa transdisciplinar sobre criminalidade e violência. Foi desafiador para nós, pois conseguimos fazer, entre outras coisas, um diagnóstico sobre a violência no município de São Leopoldo. Infelizmente, esse grupo acabou sendo extinto.

Serviço militar – Tive que interromper a faculdade de Jornalismo por um tempo, porque em 1979 entrei para o quartel. Servi no 16º Batalhão, ao lado da Unisinos, durante um ano inteiro. Foi um período muito complicado. Minha inserção no quartel foi difícil por questões políticas. 1979 foi o ano da chamada “abertura”. Tivemos a anistia, eclodiram greves no ABC e aqui na região também. Era um momento politicamente fervilhante e os quartéis ainda estavam muito ligados à perspectiva mais dura do regime militar. O comandante deste quartel era o Carlos Alberto Brilhante Ustra , que liderava as listas dos principais torturadores do país. Eu já tinha vínculos muito fortes com ideias democráticas, com uma inclinação para a esquerda. Então, estar naquele lugar era bastante complicado. Evidentemente que eu tinha que ficar mudo em relação a tudo isso. Mas no fim deu tudo certo.

Cotidiano – Atualmente, moro em Porto Alegre. Eu e minha irmã nos revezamos nos cuidados com nossa mãe, que já tem 93 anos. Minha estrutura doméstica atualmente é vinculada a essa questão.

Autor - Walter Benjamin.

LivroGrande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

FilmeAmarcord, de Federico Fellini.

Nas horas livres – Caminhar, ir ao cinema e estar com os amigos.

Política – Hoje está muito melhor do que já foi. Vivemos num espaço de liberdade e de avanços democráticos muito significativos, apesar de todos os problemas que ainda possuímos. Quem viveu o período de ditadura e vive hoje esse aperfeiçoamento das instituições democráticas, é incomparável a sensação de estar num bom momento político.

Religião – Sou católico, mas faço o que a maioria dos brasileiros faz, que é o self-service religioso, colhendo um pouco de cada crença e fazendo um mix para construir a minha espiritualidade. Minhas crenças são para mim, para minha vida íntima e para meus valores. Não faço delas uma arma de difusão de ideias.

Um sonho – Escrever ficção.

Unisinos – Uma instituição que cresceu muito nos últimos anos, sobretudo na qualificação da pesquisa, da pós-graduação e desse patamar de excelência que se espera de uma universidade. Está vivendo um momento de mudanças administrativas, de gestão, e que eu acompanho com muita atenção para ver onde vai dar.

IHU – É um dos campos mais interessantes que a Unisinos tem. É um espaço de discussão e difusão de ideias de grande profundidade e diversidade. É o lugar da universidade, hoje, onde há um pensamento diverso e de vanguarda, com um nível de excelência muito grande. Um espaço que deve ser mantido e consolidado pela importância que tem.

Leia mais...

>> Ronaldo Henn já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line, dentre as quais:

* A expansão da violência no interior do RS: BR-116 é rota para operações criminosas. Entrevista especial com Ronaldo Henn, publicada no sítio do IHU em 30-03-2008.

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