Edição 364 | 06 Junho 2011

Derrida e a educação. O acontecimento do impossível

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Patricia Fachin

A pesquisadora Verónica Zevallos analisa a obra do filósofo Derrida e relaciona conceitos do autor com a educação

Quando o tema é educação, “ainda se têm expectativas e espera-se por fórmulas prontas que ofereçam soluções imediatas ou manuais que apresentem ‘passo a passo’ aquilo que precisa ser feito”, assinala a pesquisadora. Segundo ela, para atender aos desafios da educação na atualidade, “faz-se necessário inventar, nas situações concretas, sem a procura de um critério preestabelecido que regule o agir na educação”.
Autora da dissertação Derrida e a educação. O acontecimento do impossível, Verónica menciona que não é mais possível pensar a educação apenas no sentido tradicional e para que o acontecimento aconteça, defende, “é preciso que a educação seja pensada como invenção, como abertura incondicional à vinda do impossível. É necessário pensar uma educação como abertura à vinda do outro, ou seja, naquele que não pode ser apreendido”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ela acrescenta que na educação “é preciso ir além dos preconceitos que impedem abordagens mais amplas sobre questões educacionais”. Nesta perspectiva, o conceito de desconstrução do filósofo francês ganha destaque, pois não se pode pensar “a educação como uma definição correta, exata e acabada. Mas sim um pensamento que abrigue a ideia de educação desprovida de toda segurança, interrompida no talvez, como abertura do porvir”.

Verónica Zevallos é especialista em Corpo e Cultura: ensino e criação pela Universidade de Caixas do Sul – UCS, onde cursou o mestrado em Educação. Ela abordará o tema desta entrevista no IHU Ideias da próxima quinta-feira, 9-06-2011, às 17h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que aproximações estabelece entre o pensamento do filósofo Jacques Derrida e a educação?

Verónica Zevallos - A princípio é possível argumentar que a desconstrução não pode ser entendia como uma teoria ou uma filosofia que possa ser aplicada a alguma coisa, neste caso, à educação. A desconstrução é antes um novamente pensar de novo, estrita e radicalmente sobre o que há de mais central na educação: a vinda do outro. Neste sentido, na educação, a desconstrução não consiste em aplicar certos princípios ou pôr em ação uma filosofia, uma ação ou um método. É possível afirmar que a desconstrução é sempre uma tomada de decisão, uma abertura de fronteiras e ultrapassagem de limites. Essa decisão somente se realiza no respeito à singularidade que se inscreve, à alteridade, ao outro. Talvez seja possível aproximar a educação e a desconstrução como uma decisão que é tomada como uma exigência da responsabilidade determinada pelo outro.

IHU On-Line - Em que consiste a desconstrução derridiana?

Verónica Zevallos - A desconstrução derridiana começa estrategicamente a operar dentro do discurso filosófico a partir de uma leitura no interior de certos textos da tradição filosófica, tendo como objeto imediato a metafísica ocidental, cujos pilares estariam assentados num logocentrismo. De modo geral, pode-se afirmar que esse pensamento, embora seja uma crítica à tradição filosófica, não significa simplesmente sua negação, mas de certo modo uma confirmação anterior. Através dela, pretende-se, por meio de uma leitura minuciosa de textos (filosóficos, literários, psicanalíticos, linguísticos ou antropológicos), revelar as ambiguidades ou incompatibilidades instauradas, ou seja, uma transformação textual como resultado da ultrapassagem de certas fronteiras e limites. Desse modo, com a desconstrução, tenta-se desfazer-se, decompor, desmontar uma estrutura para fazer aparecer o seu esqueleto, a fim de desvendar pressupostos que, de algum modo, teriam permanecido implícitos e ocultos. O interesse da desconstrução é investigar como as estruturas foram realizadas, como foram acopladas e articuladas, assim como também quais são as forças não controladas que nelas operam.

IHU On-Line - A partir da perspectiva de Derrida, a educação pode vir a ser um movimento em desconstrução? Por que e em que sentido?

Verónica Zevallos - A desconstrução é um pensamento destranquilizante e desafiante perante qualquer pensamento ou estrutura pretensamente sólida. Esse desafio leva o pensamento às últimas consequências em decorrência da responsabilidade da não paralisação do pensamento. Na educação, é preciso ir além dos preconceitos que impedem abordagens mais amplas sobre questões educacionais. Esse movimento, no olhar da desconstrução, não pensa a educação como uma definição correta, exata e acabada. Mas sim um pensamento que abrigue a ideia de educação desprovida de toda segurança, interrompida no talvez, como abertura do porvir. Essa ideia de educação desestabiliza os modelos tradicionais, sobretudo da modernidade, entendida como um tempo de ordem, estabilidade e precisão da história.
Pensar a educação como um acontecimento (no sentido derridiano), afeta e transforma as singularidades de toda espécie interrompendo a ordem da temporalidade. É preciso lembrar que a educação se endereça sempre às singularidades, à singularidade do outro, embora (ou mesmo) em razão de sua pretensão à universalidade. Surge, desse modo, a necessidade de colocar questões críticas não somente sobre as mudanças e transformações do conceito de educação, ou como velhas teorias pedagógicas foram superadas por novas teorias e propostas de ensino, mas, antes, o que acontece na educação e o que acontece com a educação.
A educação, na concepção derridiana de acontecimento, é uma ideia que requer a necessidade de inserir a educação dentro do pensamento do possível como porvir, ou seja, dentro do pensamento do possível-impossível. Se se pensar a educação apenas como um possível, no sentido tradicional – dentro das condições de possibilidade –, não se faria senão explicitar, revelar e realizar o que já é possível, aquilo que foi pensado como possibilidade; desse modo, somente se reproduz e se coloca em prática tudo o que anteriormente foi planejado e programado, sob a ótica do mesmo, quer dizer, na programação de alguém com a pretensa ideia de alcançar ou apreender o outro. Em sentido contrário, para que o acontecimento aconteça, é preciso que a educação seja pensada como invenção, como abertura incondicional à vinda do impossível. É necessário pensar uma educação como abertura à vinda do outro, ou seja, naquele que não pode ser apreendido.

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