Edição 364 | 06 Junho 2011

A fabricação da anormalidade

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Márcia Junges

Há uma relação muito próxima entre normalidade e loucura, aponta o filósofo Celso Kraemer. A fim de sustentar o referente “normalidade”, é preciso fabricar seu oposto. Produção da verdade acerca da loucura é o objeto da obra de Foucault.

“Talvez a loucura seja um tipo especial de normalidade”, e ambas estão imbricadas, amarradas, “uma brota e se alimenta da outra”. A reflexão é do filósofo Celso Kraemer, na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, a sociedade moderna “constitui-se a partir de padrões de normalidade e de processos políticos e educacionais de normalização. Dessa forma, para sustentar o referente da normalidade, nós precisamos fabricar a anormalidade, os intoleráveis em cada momento histórico, para servir de mecanismo regulador para nossos exercícios de poder”. Ao contrário de antigamente, hoje se internam menos pessoas em instituições psiquiátricas, mas cresce a medicalização em todas as faixas etárias. É algo alarmante, pondera. Sobre História da loucura, o pesquisador afirma que a obra é uma provocação a “pensarmos, seriamente, acerca do que são, para nós, a razão, a verdade, a lucidez”. O objeto do livro, em si, não é a loucura, mas “quer compreender como os homens, vivendo em sociedades complexas, produzem, não a loucura, mas a verdade acerca da loucura”.

Celso Kraemer é professor da Universidade Regional de Blumenau, no departamento de Filosofia e no programa de pós-graduação em Educação. É graduado em Filosofia e mestre em educação pela Fundação Educacional de Brusque. Doutorou-se em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP com a tese A liberdade em Michel Foucault. É um dos autores de Temas e Teorias da Filosofia (Indaial: Grupo Uniasselvi, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - História da loucura continua um livro atual? Por quê?

Celso Kraemer - Muito me honra conversar acerca de um autor que, mesmo já falecido há 27 anos, me é tão querido. Também me agrada falar um pouquinho acerca de seu primeiro trabalho, de grande notoriedade e repercussão, inicialmente chamado Folie et déraison - Histoire de la folie à l’âge classique, ou seja, Loucura e desrazão: história da loucura na Idade Clássica, hoje conhecido como História da loucura. Esse trabalho foi produzido por Foucault como tese para seu doutoramento. Junto à tese principal os doutorandos têm que apresentar uma segunda tese, de menor envergadura, sobre um outro tema. Essa tese menor de Foucault versou sobre um estudo acerca da relação entre a Filosofia Crítica de Immanuel Kant , confrontada com textos como a Lógica e a Antropologia de Kant, seguida de uma tradução, do alemão para o francês, do texto integral do livro de Kant, Antropologia em Sentido Pragmático. Esta tese complementar só foi publicada em francês agora, em 2008. Em português ela só sairá publicada agora em 2011. Estudei demoradamente tanto a tese principal, História da loucura, quanto a tese complementar sobre a relação da Antropologia com a Crítica. Percebi que ambos os textos estão internamente relacionados. Mas a relação não é quanto ao objeto tratado, mas ao método filosófico-epistemológico. Percebi que o estudo sobre a Crítica kantiana serviu de fundamento metodológico para a maneira como Foucault pesquisou e escreveu a tese principal. Chamo a atenção sobre o fato de que dois textos escritos pelo mesmo autor, na mesma época, receberam destinos tão diferentes. Enquanto um se tornou mundialmente conhecido, usado para várias bandeiras e movimentos na sociedade contemporânea, o outro permanece extremamente desconhecido, até mesmo entre um grande número de leitores e pesquisadores de Michel Foucault.

A verdade sobre a loucura

Queria chamar a atenção também ao fato de Foucault não ser um leigo na área da saúde e da psicologia. Ele fez, além da faculdade de Filosofia, a graduação na faculdade de Psicologia. Também fez sua formação para exercer o ofício de psicólogo. Também trabalhou na ala psiquiátrica de internados no hospital, na qualidade de voluntário, bem antes de escrever História da loucura. Ele estava interessado no tema, queria ver de perto essa área do conhecimento que desperta tanto interesse e poder. Além disso, seu primeiro trabalho a ser publicado, em 1954, é um livro que chama Doença Mental e Personalidade. Em 1962 ele reedita esse mesmo livro, com algumas alterações, e lhe dá um novo título.

Essa mudança de título e de teor, de personalidade para psicologia, é importante para compreendermos História da loucura. Muita gente acredita que Foucault, nesse livro, estava interessado em contar a verdadeira história da loucura, interessado em conhecer a verdade sobre a loucura. Reside aí um engano. O objeto do livro não é a loucura. O livro quer compreender como os homens, vivendo em sociedades complexas, produzem não a loucura, mas a verdade acerca da loucura. Foucault está interessado em conhecer as diferentes maneiras com que os homens construíram a verdade da loucura, quais foram as práticas sociais que engendraram tais verdades e de que maneira os homens, em diferentes momentos históricos, se relacionaram não com a loucura em si, mas com o modo como representaram a loucura para si mesmos.
Nesse sentido, o livro de Foucault é um trabalho crítico sobre a relação do homem com a sua loucura e a sua própria verdade acerca dessa loucura. Nesse trabalho já se pode perceber nitidamente os traços do procedimento arqueológico e genealógico de Foucault.

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