Edição 364 | 06 Junho 2011

Os discursos racionais no banco de réus

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

Para Augusto Bach, tal como Kant examinando as condições de possibilidade do conhecimento humano, Foucault coloca os discursos racionais sob questionamento em História da loucura. Transformação da casa em asilo fomentou a culpabilização do louco, alienando-o do processo civilizatório ocidental

Para o filósofo Augusto Bach, “a novidade de História da loucura à época de seu lançamento reside no fato justamente de ela nos convidar a uma reflexão filosófica sobre a questão do novo”. Ele observa que é necessário recordar que “da mesma maneira que Kant teria colocado a razão no banco dos réus para estabelecer as condições de possibilidade do conhecimento humano, Foucault estaria operando um empreendimento análogo ao colocar os discursos racionais em mesma tribuna”. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador menciona que o lugar dos loucos hoje foi tomado pelos “indivíduos de imaginação criativa, livres em seu pensamento; os desempregados que não estão em busca de um emprego, uma alienação; as pessoas mais felizes...” Atualmente não se pode mais falar em uma estigmatização da loucura nos moldes dos séculos XVI e XVII, “mas apenas alienação dela na linguagem abstrata da razão. Última etapa de um processo que a condenou ao desaparecimento completo”. Bach recupera aspectos sobre a história da desrazão: “Toda a ética de uma cidade moral expiava suas culpas para dentro dos muros do internamento. Mas é só com sua transformação em casa de asilo, por Pinel e Tuke, que a cultura ocidental apostou em uma culpabilização do louco com o fito de aliená-lo ao processo civilizatório”.

Graduado e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, Augusto Bach é doutor em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCAR com a tese Foucault e a história arqueológica. È pós-doutor pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. É autor de inúmeros capítulos de livros e artigos científicos sobre o pensamento de Michel Foucault. Leciona no Departamento de Filosofia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), campus Guarapuava, Paraná.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como a arqueologia de Foucault se faz presente em História da loucura?

Augusto Bach -
Eu diria que a arqueologia se faz presente nesta obra de um modo bastante sui generis. Há uma miríade de elementos oriundos de diferentes matrizes de pensamento que Foucault acaba por reunir num só projeto. Característica típica de sua pena desde 1961 que costuma confundir os leitores mais desavisados.

Para responder objetivamente à sua pergunta, afirmo no indicativo (para não deixar margens à dúvida) que ela se realiza enquanto uma hermenêutica da ratio ocidental. O que quer dizer isso e qual a importância? Primeiro que a postura marxista da década de 1950, adotada em Doença mental e personalidade, já se encontra abandonada. São outros em 1961 os referenciais teóricos da arqueologia a sustentar uma segunda crítica da razão ocidental. Justifico-me: recorde o leitor que, da mesma maneira que Kant teria colocado a razão no banco dos réus para estabelecer as condições de possibilidade do conhecimento humano, Foucault estaria operando um empreendimento análogo ao colocar os discursos racionais em mesma tribuna. A diferença agora decorre do caráter histórico da análise e do sentido conotativo da expressão “tribunal da razão”, quando Foucault transpõe arqueologicamente o argumento transcendental kantiano. Por ser contemporâneo da Revolução Francesa, Kant minava os fundamentos do trono e do altar abrindo margem ao humanismo racional da episteme moderna, destituído de superstições. Já Foucault, em pensamento coetâneo à Revolução de Maio de 1968 , entende a razão como repressora; daí o leitmotiv de História da Loucura ser mais transgressor e subversivo do que judicante. Dessa maneira, todos os poderosos discursos que a linguagem de razão produziu ao longo dos séculos acerca de sua diferença (os excluídos, a linguagem da loucura ou da desrazão) são chamados a depor para que apreendamos o modo como interpretamos as figuras da alteridade, sempre confiscadas em seu valor de veracidade.


Resgate da linguagem excluída

Pois bem, dizer que há dois tipos de linguagem – uma de razão e outra da desrazão, atribuindo à última o caráter de veracidade e à primeira corolariamente o de mentira – significa dizer que por trás dos documentos racionais existe um nível mais profundo de análise histórica sobre o qual é preciso se debruçar. Significa, outrossim, que Foucault tomava de antemão um partido para suas investigações arqueológicas à primeira vista bastante isentas. Em outras palavras, em 1961 sua arqueologia se associa diretamente ao projeto de resgatar uma linguagem excluída de nossa cultura que se encontraria por trás dos documentos racionais. Daí o peso da afirmação de que ela seria uma hermenêutica, à procura de uma riqueza ainda perdida para nós – uma espécie de camada pré-sal se me permitem a comparação – do “fundamento ontológico oculto” dos discursos racionais que, como camadas, sobre a loucura se depositaram ao longo dos séculos.


IHU On-Line - Qual é a importância da arqueologia dentro da proposta dessa obra especificamente?

Augusto Bach -
Eu preferiria inverter o raciocínio: qual a importância dessa obra em específico dentro da proposta arqueológica? História da loucura marca uma posição deveras estranha se comparada ao livro Arqueologia do saber de 1969. Estranha, porém fundamental para a compreensão de seu projeto intelectual como um todo. Em 1969, não encontramos mais referências a um nível subjacente de análise. Tudo, então, se passa como se (Als ob), para a reconstituição arqueológica de nossa civilização, só houvesse um nível de discursos sobre os quais não restaria senão a possibilidade de operar uma análise dos monumentos históricos, e não mais de seus documentos. Essa postura estruturalista de 1969 já abandona temas típicos da arqueologia (seja de História da loucura ou de As palavras e as coisas); como a questão da literatura, do grau zero da história da loucura, da psicanálise freudiana associada à pena de poetas delirantes e subversivos (Roussel, Nerval , Artaud , Nietzsche ); para antecipar suas análises genealógicas que se seguirão na década de 1970. Vide como ilustração a crítica à psicanálise em História da sexualidade I (a vontade de saber).


A arqueologia do Outro

De todo modo, para citar como exemplo, a importância de História da loucura é que sem ela – a arqueologia do Outro – não se compreende o projeto de As palavras e as coisas, a arqueologia do Mesmo. Em 1966 Foucault está ainda falando em nome de um outro tipo de linguagem, mormente a literária, que sustenta e dá legitimidade ao seu projeto crítico. Ao mesmo tempo e paradoxalmente, sem ela não percebemos que muitos dos dispositivos e disciplinas de poder analisados em sua etapa genealógica já estavam antecipados em 1961. Lembre-se que foi por intermédio de uma análise dos desdobramentos que se edificou uma psicologia da personalidade, uma análise dos automatismos que possibilitou uma psicologia da consciência, um estudo dos déficits mentais que desencadeou uma psicologia da inteligência. Enfim, é todo o projeto epistemológico de uma ciência humana como a psicologia a possuir suas fundações nessa operação “secreta” de ensurdecimento de uma outra linguagem.

E o que isso teria a ver com a genealogia? Nada, com a exceção do fato de todo esse aparato científico ser utilizado com o intuito de normalização, domesticação, docilidade e utilidade às formas cada vez mais flexíveis de acumulação do capital. Só para abrir retoricamente uma janela de imaginário ao pensamento do leitor, pense um pouco nos exames médicos aplicados nas últimas fases de concursos públicos, exames psicotécnicos ou demais formas de gestão dos recursos humanos em empresas transnacionais. Já pensou em ser policial federal? Executivo? O salário deve ser maior que o meu...
E além de tudo isso, sem ela tampouco iluminamos o tema de estudo de seu último ano de aulas no Collège de France, a coragem de dizer a verdade. Grau zero das figuras de linguagem em que sujeito de enunciado e sujeito de enunciação se imbricam mutuamente sem diferenciação, a questão da parrhesia se associa com o mote iluminista do sapere aude (“ousa saber!”), bem como com a problematização em História da Loucura de uma linguagem comum e indiferenciada entre a razão e a desrazão. Impossível, a meu ver, querer unificar a obra de um indivíduo que pensava por mutações sem estar a par desse movimento de ideias. Quer maior importância que isso?


IHU On-Line - Qual é a novidade que essa obra trouxe à época de seu lançamento? E qual é a importância desse livro hoje?

Augusto Bach -
A primeira de suas perguntas é mais fácil de responder do que a segunda. Todavia mais desafiadora. Pois bem, a novidade de História da loucura à época de seu lançamento reside no fato justamente de ela nos convidar a uma reflexão filosófica sobre a questão do novo. Gostaria que o leitor atentasse para o fato de que no último período vali-me de uma figura de linguagem chamada paradoxo, e não de redundância. Ocorre que, em 1961, Foucault o respirava e ainda hoje continuamos a respirá-lo. É a primeira obra de envergadura filosófica a nos convidar a pensar e refletir anonimamente; isto é, sem o primado da função do sujeito e da autoria. Sua associação com a questão literária de uma escrita intransitiva e autorreferencial advém daí.

Mas como escrever uma história da loucura que denuncia o aprisionamento da desrazão na linguagem do sujeito racional sem incorrer no mesmo crime que denuncia? Perguntava-se por sua vez Derrida  há exatos vinte anos: como é possível um projeto como esse em nossos tempos? Pois bem, Foucault acreditava que o novo não se produziria por determinações oriundas do velho ou do antigo, mas que ele seria resultante de uma abundância inesgotável do próprio possível histórico, que em nosso período lacunar de passagem o novo encontraria paradoxalmente um meio muito novo de se manifestar. E em História da loucura ele enxergava sinais disso na literatura, na postura freudiana diante da linguagem do inconsciente e na própria possibilidade de seu empreendimento arqueológico: fazer falar a loucura; ou seja; devolver loquacidade a essas vozes “um tanto balbuciantes”, “sem sintaxe fixa”, pois sem sujeito racional a lhes fazer referência sintática e significação semântica.


Problematizações

E a importância dele reside justamente no fato de estas questões continuarem abertas nos período em que vivemos. Período também chamado por muitos de pós-modernidade, na absoluta falta de um termo mais adequado para compreendermos a questão que atravessa de ponta a ponta sua obra: a questão do sujeito e sua relação com a verdade do presente. No último período de seu pensamento, ora chamado pelos intérpretes de “problematizações” ora de “arqueogenealogia”, essa questão do anonimato será responsável pela introdução da escrita ensaística no proceder do pensamento filosófico. Nesta prova, neste ensaio, nesta experiência modificadora de si no jogo da verdade, não é mais o sujeito a dominar o procedimento de elaboração. Ele é simplesmente algo resultante da experiência da escritura que invariavelmente se revela no riso irônico de Foucault a todas as “formas canhestras e distorcidas” de se escrever a história. No âmbito específico da filosofia brasileira, essa prática veio resultar na produção de ensaios de seu ex-colega de departamento Bento Prado . Sobre essa questão remeto o leitor não aos meus artigos, muito acadêmicos, mas ao magistral Por que rir da filosofia?
 

IHU On-Line - Os loucos tomaram o lugar dos leprosos como bodes expiatórios da sociedade de seu tempo. Hoje, quem tomou o lugar dos loucos na sociedade pós-moderna?

Augusto Bach -
Concordo com sua afirmação, embora ela seja polêmica. Dizer que o mesmo espaço dos leprosários aludidos por Foucault no início de História da loucura será ocupado pelas figuras da desrazão (bêbados, devassos, mendigos e sodomitas) do Hospital Geral no século XVII é marcar uma estranha linha de continuidade no tempo. Pois este mesmo espaço será objeto da reforma humanista operada por Tuke e Pinel transformando-o, enfim, em asilo psiquiátrico do século XIX. Qual o problema? Supostamente Foucault seria o “filósofo dos cortes e rupturas” assinalando descontinuidades e diferenças de percepção da loucura ao longo dos séculos. Ocorre que por trás de todas essas diferenças haja um processo contínuo de assimilação de suas figuras dentro da linguagem racional operado por meios institucionais. De fato, o poder em História da loucura era visto por Foucault ainda sob o aspecto repressor e negativo, mas está aí, ao mesmo tempo, o embrião de suas futuras análises genealógicas de um poder positivo, produtor de saber e de sujeitos assujeitados.

De todo modo, voltando a polemizar com sua afirmação, perceba que o Hospital Geral do XVII, malgrado o nome, não é ainda um ato médico. O louco era visto, juntamente de seus ilustres companheiros nessa época, como um problema de polícia, praticante do pecado moral da ociosidade. Data desse tempo a percepção da loucura como ausência de obra, por estar fora dos mecanismos de produção e do trabalho. Toda a ética de uma cidade moral expiava suas culpas para dentro dos muros do Internamento. Mas é só com sua transformação em casa de asilo, por Pinel e Tuke, que a cultura ocidental apostou em uma culpabilização do louco com o fito de aliená-lo ao processo civilizatório.

Que, no subjuntivo, esta apolínea aposta da cultura ocidental seja bem sucedida ou não, em nossa globalizada sociedade pós-moderna, é uma questão que deixo em aberto para o leitor. Mas se ela o está, devo responder de modo lacedemônico à sua pergunta: quem tomou o lugar dos loucos, hoje, são os indivíduos de imaginação criativa, livres em seu pensamento; os desempregados que não estão em busca de um emprego, uma alienação; as pessoas mais felizes...


IHU On-Line - Em que aspectos a loucura pode ser considerada uma exclusão social, um estigma?

Augusto Bach -
Permita-me fazer uma citação do primeiro prefácio à História “de cor”. Você sabe que a memória não é algo confiável, mas vá lá: “No meio do mundo moderno... linguagem comum não há mais... O homem não se comunica mais com o louco senão através da universalidade abstrata da doença mental...” Ora, dizer que há uma universalidade, ainda que abstrata ou conceitual, é dizer que todos hoje estamos no mesmo barco. Sóbrios ou insanos, tanto faz. Em outras palavras, desaparecimento completo no horizonte de nossa cultura da Stultifera Navis do fim da Idade Média e início do Renascimento. Mas para falar com o estigma dos poetas delirantes de Foucault: âncora? Vela? Qual te leva? Qual te prende? São questões que não sabemos mais responder porque nós não mais as colocamos.
Sob esse aspecto, não há mais estigmatização da loucura, tal como existia nos séculos XVI e XVII, mas apenas alienação dela na linguagem abstrata da razão. Última etapa de um processo que a condenou ao desaparecimento completo. Processo sem o qual, diga-se de passagem, seria impossível governar os vivos desde a morte política de Deus com Maquiavel  ou desde Sua morte epistemológica com Kant. Seria preciso levantarmos a questão de que lado nos encontramos nesse processo civilizatório...

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição