Edição 362 | 23 Mai 2011

E-book é passageiro. Livro é eterno

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin

Para o professor e escritor Paulo Tedesco, a juventude que nasceu depois dos anos 2000 será responsável pela desfragmentação do ensino. “A geração 2000 virá com força para reter as formas de aprender que achar por bem. Proporcionar o conhecimento complexo cebará àquelas pessoas que souberem conduzir de forma positiva e inteligente”, aponta.

Com a popularização das novas tecnologias, o livro ingressa em uma fase “com muitas indefinições e imprecisões, mas que parece guardar uma face mais radical do que no seu modelo antecessor: a da ampla democratização a seu acesso e produção”, constata Paulo Tedesco, em entrevista à IHU On-Line por e-mail. Segundo ele, a partir da democratização do livro por meio de plataformas digitais e do acesso à internet, a humanidade caminha para um momento de transição da era da informação para a do conhecimento. “Aquele que souber gerenciar a democratização do livro e, por consequência, da leitura, gerenciará o conhecimento da humanidade”, reitera.

Fundador e diretor da Oficina do Livro, Tedesco ministra cursos presenciais e onlines sobre o futuro do livro, tema de sua palestra no IHU ideias da próxima quinta-feira, 26-5-2011. O evento acontece na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU, das 17h30min às 19h.

Paulo Tedesco é escritor, formado em Letras pelo IERGS.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Que futuro o senhor vislumbra para o livro a partir do surgimento de novas plataformas tecnológicas como o e-books, por exemplo?

Paulo Tedesco -
Na verdade, o fator de mudança é a mudança do suporte, ou a perda da exclusividade que o papel detinha (no passado tivemos madeira, couro, pedra, argila e bambu). E-book é um termo passageiro, não vinga. O que vinga é o livro, um produto com seis mil anos de história, que entra em nova fase. Uma fase com muitas indefinições e imprecisões, mas que parece guardar uma face mais radical do que no seu modelo antecessor: a da ampla democratização a seu acesso e produção.


IHU On-Line - Considerando as licenças Creative Commons, como vê a democratização do acesso ao livro? A questão do direito autoral deve se transformar a partir da internet e dos e-books?

Paulo Tedesco -
O direito autoral deverá se transformar. É impensável continuar do que jeito que está. O Creative Commons  é mais um instrumento que nos ajuda a refletir sobre a questão e um ponto a mais nesse controverso assunto. O direito autoral no Brasil não pode continuar privado, não mais. O estado precisa intervir para não só manter o que aí está, mas promover a profissionalização do artista, no nosso caso, do escritor. Se a questão for proporcionar carteira assinada para escritor, que o seja. Porém, deve-se dar mercado ao escritor. Afinal, o produto estrangeiro (e os de alguns segmentos nacionais) geralmente tem cobertura da grande mídia. Embora acredite que existam meios alternativos à carteira profissional de trabalho para esse caso específico, creio que é uma forma de se proporcionar ou se iniciar algo, na direção de tratar o gerador primeiro de conteúdo criativo com o devido espaço na sociedade do conhecimento, que tem a criatividade como seu diferencial.


IHU On-Line - O senhor afirma que caminhamos para a sociedade do conhecimento e não da informação. Qual o sentido do livro nesse contexto?

Paulo Tedesco -
O livro é o depositário fiel da cultura de um povo; é o retrato da humanidade. Portanto, é o portador do conhecimento. Sociedade da informação sempre fomos. Sem informação não existiria sociedade. Todavia, com o conhecimento como principal capital, principal instrumento numa sociedade que deseja aprimorar-se, ele precisa ser entendido na sua inteireza. Quem detiver o conhecimento deterá o futuro e cobrará daqueles que nada fizeram. Aqueles que passaram a copiar modelos e importar conhecimento sem entendê-lo pagarão muito mais caro do que hoje ou talvez até desapareçam, sendo absorvidos pelas culturas que possuírem o melhor conhecimento. Aquele que souber gerenciar a democratização do livro e, por consequência, da leitura gerenciará o conhecimento da humanidade.


IHU On-Line - Como as editoras e livrarias se adaptarão ao novo consumo de e-books?

Paulo Tedesco -
Esses segmentos são expressão de um mercado tão antigo como o texto em suporte físico, porém é difícil apontar como se adaptarão. O mais certo é indicar algumas possibilidades. Cada um tem suas especificidades. A editora, para mim, será um grande instrumento de aprimoramento editorial (já o é), mas com ênfase na sua grife, ou seja, um livro (conteúdo em um feixe editorial) revisado, traduzido e preparado por uma editora, frente à infinidade de novos conteúdos digitais, certamente será um diferencial. As livrarias, por sua vez, precisam repensar sua existência física e tornarem-se também promotoras da leitura e da cultura. Caso contrário, cederão espaços para a venda impessoal e cada vez mais agressiva das grandes redes, que podem ser farmácias, supermercados, açougues, etc.


IHU On-Line - As gerações que nasceram nos anos 2000 estabelecerão que relações com o ensino?

Paulo Tedesco -
Serão os principais responsáveis por desfragmentar o ensino, especialmente os modelos industriais existentes. Falo dos que têm a reprodução em série como formato. Não se admite mais um professor como “sabedouro” das verdades. A geração 2000 virá com força para reter as formas de aprender que achar por bem. Proporcionar o conhecimento complexo caberá àquelas pessoas que souberem conduzir de forma positiva e inteligente. O básico, o que se coleta numa pesquisa boba na internet, não é necessário obrigar a ninguém que se decore. Parece óbvio, mas há muita gente insistindo nessa cansada tecla.


IHU On-Line - O que mudará no ensino a partir da popularização de tecnologias como o e-book?

Paulo Tedesco -
Velocidade na produção e consumo de conteúdo. Ampliação do conteúdo e sua transmidiatização quase automática. O sujeito escreve uma redação ou um trabalho e, do outro lado do mundo, um colega tridimensionaliza o conteúdo; um outro pega o mesmo trabalho e apresenta personagens falando em muitas línguas aquilo que ali está escrito, e tudo isso em curtíssimo espaço de tempo. E tudo a partir de um texto. Se o livro era importante, agora ficou irrefutável. Temos que nos preparar para ler cada vez mais, melhor e em diferentes línguas (mesmo que novos tradutores automáticos surjam).


IHU On-Line - Como a tecnologia, em especial os leitores como iPads, tabletes tendem a mudar a relação com o ensino, em especial nas universidades? O ensino a distância será ainda mais frequente?

Paulo Tedesco -
Para mim, negar o ensino a distância é que é o problema. Ele já ocorre. Aprendemos vendo TV ou um filme; aprendemos lendo na internet; aprendemos ouvindo o rádio (esse dinossauro que se recria). Ou seja, se tudo isso for para dentro de um único aparelho, e que ainda por cima pode ser muitíssimo melhor para se manusear, mais agradável, mais bonito, etc., pergunto: Como não teremos o ensino a distância substituindo qualquer sala de aula? Ou como não teremos um seminário, ou congresso, em que não se possa participar ao vivo e através de um simples e, muito em breve, barato aparelho?


IHU On-Line - Como o senhor vê os jovens multitarefas e a superficialidade nas leituras, principalmente a partir de leitores digitais? Quais os prós e contras dessas tecnologias para o futuro da leitura?

Paulo Tedesco -
Essa pergunta contém muitas respostas que mereceriam um seminário exclusivo. O que posso tentar responder com poucas palavras é que temos que aprender a ser humildes e tolerantes como nunca antes. Ou temos a humildade de aprender com quem está também aprendendo, a orientar quem está começando a se orientar, a tolerar quem não se tolera, a tolerar a quem não se entende, ou continuaremos a ver essa coisa que está aí fora: violência e preconceito contra o que desconhecemos - e o que desconhecemos está fragmentado, disperso e é possuidor de uma dinâmica própria. O que desconhecemos, sendo mais claro, é o jovem de hoje, de amanhã; ele é o leitor de amanhã, as novas profissões, as novas maneiras de pensar e agir. Enfim, desconhecemos um monte de coisas que nos provam o tamanho de nossa ignorância. Ou paramos para refletir sobre a tolerância e o respeito num mundo em rápida transição cultural ou nos mudemos para o meio da Amazônia para tentar viver de pesca e caça.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição