Edição 362 | 23 Mai 2011

Rio Grande do Sul aberto ao multiculturalismo

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Anelise Zanoni

Na opinião da relações-públicas Karin Kaid Wapechowski, a troca cultural feita entre a comunidade e os refugiados instalados no RS ajuda-os a ter a sensação de que pertencem à cultura gaúcha

Para muitos gaúchos, a imagem do refugiado está muito além da realidade local. Estaria ligada diretamente a conflitos em outros territórios ou continentes. Entretanto, o Rio Grande do Sul é um dos estados listados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados – ACNUR como local de abrigo. Até hoje, cerca de 220 indivíduos ingressaram aqui com essa denominação, de acordo com Karin Kaid Wapechowski, coordenadora do Programa de Reassentamento Solidário da Associação Antonio Vieira – Asav.

Em entrevista por telefone à IHU On-Line, ela revela as dificuldades de adaptação deles e os procedimentos necessários para acomodá-los. Conforme a experiência que tem, afirma que “na maioria dos casos, os refugiados desembarcam em condições bastante precárias”.

Além da transição de lar, eles “vivem em deslocamento, com o tecido social desagregado”. Dessa forma, “perdem o contato com amigos e familiares e, cada vez que se deslocam, reiniciam nova rede”.
Para um convívio ideal, algumas ideias são lançadas, como o apoio de comunidades e governos e a mobilização da mídia – que, na opinião da especialista, precisa sensibilizar o público e fazê-lo entender que a situação das pessoas que buscam refúgio está ligada à violação dos direitos humanos.

Relações-públicas, Karin Kaid Wapechowski é especialista em Comunicação de Massa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e em Administração de Organizações do Terceiro Setor pela UFRGS. Atualmente é coordenadora do Programa de Reassentamento Solidário da Associação Antônio Vieira – Asav, mantenedora da Unsinos.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como é o trabalho da Asav no estabelecimento dos refugiados?

Karin Kaid Wapechowski -
O programa para refugiados no Rio Grande do Sul existe desde novembro de 2003, quando assinamos o primeiro acordo entre o ACNUR e a Asav. Na época, iniciamos as atividades com um grupo de 16 pessoas, hoje 220 já passaram ou estão no programa. Na nossa rotina, incluímos e integramos refugiados nas comunidades de acolhida. Definimos quais serão os municípios onde eles viverão e quais os critérios gerais em termos de saúde, educação e manutenção das famílias. Dentro dessa parceria, o governo deve dar acesso a eles a redes básicas, assim como é feito para os brasileiros, e oferecer acesso fácil a igrejas e empresas. Os municípios também fazem parte dessa parceria, cooperando de diferentes formas.

A agência é responsável por construir infraestrutura para receber famílias, desde a locação de imóveis até a montagem das casas, porque, às vezes, eles desembarcam apenas com a roupa do corpo.
Receber refugiados significa um recomeço. Tudo o que providenciamos é simples, mas algumas regras são definidas. Por exemplo, o importante é que as casas sejam perto do emprego deles ou das escolas e postos de saúde.


IHU On-Line - Qual a atual realidade dos refugiados que chegam ao Rio Grande do Sul?

Karin Kaid Wapechowski –
Na maioria dos casos, os refugiados desembarcam em condições bastante precárias. O Equador, por exemplo, é um dos países que mais abriga colombianos, mas tem poucas condições de recebê-los. Há pouca infraestrutura na área da saúde, por exemplo. Então, quando desembarcam no Rio Grande do Sul precisam de tratamentos, porque têm doenças crônicas e precisam de especialistas.
Essas pessoas estão há muito tempo longe da terra natal, vivem em deslocamento, com o tecido social desagregado. Eles perdem o contato com amigos e familiares e cada vez que se deslocam reiniciam nova rede. Enquanto estão fugindo para se proteger os refugiados deixam para trás a confiança e as amizades.

No total, cerca de 220 pessoas passaram pelo programa como refugiado. Eles têm o direito de circular em território nacional e, durante os primeiros 12 meses, são orientados para que pelo menos permaneçam nas proximidades da cidade em que foram acolhidos inicialmente. Isso facilita nossa orientação e acompanhamento. Durante esse tempo, eles têm aulas de português e capacitações para se integrar na sociedade.
Atualmente, estamos com um projeto de reassentamento de colombianos e eles representam maioria no Rio Grande do Sul. A Colômbia gera muitos refugiados e temos a perspectiva de aumento do número de pessoas deslocadas que tentam proteger-se do próprio país e buscam outro território. De maneira geral, eles surgiram a partir de conflitos do narcotráfico e questões relacionadas à violência. Também temos cerca de 60 palestinos, sendo que alguns deles são vulneráveis devido à idade e a questões de saúde.

Ainda assim, quando as pessoas não se integram em sua terra natal devido à discriminação, perseguição ou segurança, podem procurar as Nações Unidas para buscar proteção e se candidatar aos programas de reassentamento. Na maioria das vezes, aqueles que chegam aqui já foram reconhecidos por um outro país e estão no Brasil como reassentados.


IHU On-Line - Quais os principais problemas que eles se deparam quando chegam ao Brasil?

Karin Kaid Wapechowski –
Precisamos ficar alguns meses nos preparando para saber quais são os hábitos dos refugiados. Porém, somente quando eles chegam é que conseguimos descobrir exatamente quais são as demandas e adaptações que teremos de fazer. Os colombianos, por exemplo, têm menos dificuldades de adaptação, porque têm realidades mais próximas àquelas dos brasileiros. Entretanto, eles precisam de adaptações na montagem das casas, porque têm gostos e hábitos diferentes.

Por outro lado, os palestinos têm mais dificuldade, devido ao fato de que sua cultura contém mais diferenças. Nesses casos, há uma parceria entre a comunidade árabe-palestina de Porto Alegre e a Federação Palestina, com lideranças políticas e religiosas. Por meio dessa união temos também o apoio de comunidades de Santa Maria, Venâncio Aires, e Pelotas, que já receberam palestinos.
De maneira geral, as famílias são acomodadas conforme a distribuição social e política dos palestinos no Rio Grande do Sul. Mesmo assim, o idioma sempre representa a maior dificuldade, principalmente para homens mais velhos. Eles sofrem para aprender e são mais resistentes. Precisam fazer adaptações, mesmo sabendo que há muitas pessoas da comunidade para ajudá-los.


IHU On-Line – Os refugiados conseguem se adequar facilmente à cultura e aos hábitos dos gaúchos?

Karin Kaid Wapechowski -
Há um meio termo, porque a própria comunidade palestina interage muito bem com os refugiados. Um dos grupos veio do deserto da Jordânia, e muitos deles não conheciam escadas e janelas. As crianças ficavam encantadas, os adultos ficavam surpresos quando viam a chuva.

A comunidade palestina já instalada no estado foi muito acolhedora, o que ajudou os refugiados a mesclarem hábitos culturais, como fumar narguilé e beber chimarrão. Em Sapucaia do Sul, por exemplo, um casal se habituou a usar a camiseta do Grêmio. Eles já conseguem saber o que está acontecendo com os times e vão ao estádio. Mesmo assumindo alguns gostos por influência dos outros, eles não deixam de frequentar a mesquita, cultuar o Ramadã e fazer jejum. Grande parte deles também sente a necessidade de fazer essa troca cultural, o que torna a pessoa pertencente ao local onde está vivendo. Entretanto, algumas famílias ainda ficam fechadas - as mais tradicionais demoraram mais para sentir segurança na cidade.


IHU On-Line – É constante vermos na imprensa regional reportagens sobre o desembarque de refugiados no estado e sua adaptação. Como você avalia a cobertura jornalística feita sobre o assunto?

Karin Kaid Wapechowski -
Não acho que os refugiados precisem de divulgação. A causa do refúgio é resultado de conflitos no mundo inteiro, mas as pessoas acreditam que a questão está muito longe da realidade que vivemos. Porém, não está. Temos problemas regionais constantes e não precisamos ir à África para compreender os conflitos. O tema é novo, o reassentamento é novo e faz parte de um trabalho “de formiguinha”. Quando fazemos a divulgação de algo para os jornalistas é preciso cuidado para que as pessoas sejam sensibilizadas para o problema, porque isso existe e faz parte da nossa realidade. A cobertura jornalística precisa ser cuidadosa, porque queremos que as pessoas sejam acolhidas de forma especial, para que não se formem guetos e comunidades só de refugiados. Gostaríamos de passar a ideia de acolhimento e, para isso, o público precisa ser sensibilizado e compreender a questão do refugiado.
Além disso, antes de apenas publicarem reportagens, deve-se entender que os refugiados receberam esta denominação porque passaram por péssimas condições, tiveram os direitos humanos violados. Muitos não eram pobres, mas sofreram perseguições e perderam tudo. Muitas vezes questiona-se por que estamos ajudando-os em vez de ajudar os brasileiros necessitados. A mídia precisa explicar a situação dessas pessoas que buscam refúgio, que passaram por situações de violência e de violação dos próprios direitos.


IHU On-Line - Os refugiados ambientais já são uma realidade para o Brasil?

Karin Kaid Wapechowski –
Eles já existem, mas ainda não usamos esta denominação. O Brasil atualmente usa o visto humanitário para cerca de mil haitianos que vieram ao país, vítimas do terremoto, e que estão instalados na região do Acre.


Leia mais...

Confira outra entrevista concedida por Karin Wapechowski e publicada no sítio do IHU:

* Refugiados palestinos no Brasil. Entrevista especial com Karin Wapechowski e Luis Fernando Godinho Santos, publicada em 18-09-2007 nas Notícias do Dia

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição