Edição 361 | 16 Mai 2011

Imagética da devoção, uma geografia do sagrado

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Márcia Junges

Suporte ritual para a demarcação social, as imagens religiosas e devocionais compõem uma geografia do sagrado, mapeando as experiências religiosas das pessoas, pondera o sociólogo José Rogério Lopes

De acordo com o sociólogo José Rogério Lopes, a imagética da devoção é uma “concepção que busca imprimir um caráter substantivo ao conjunto de imagens que se entrelaça e gravita em torno de determinadas práticas religiosas e vivências devocionais contemporâneas”. De acordo com ele, “as imagens religiosas e devocionais existem como suporte ritual de demarcação social, uma espécie de geografia do sagrado, ou ao menos, das experiências religiosas vivenciadas pelas pessoas”. Dentre as conclusões a que chegou com a pesquisa que empreende sobre esse tema, afirma que “a imagética devocional representa uma necessidade que o brasileiro tem de exteriorizar a sua fé”. As declarações fazem parte da entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. A imagética da devoção é o tema que Lopes apresenta nesta quinta, 19-05-2011, o IHU ideias, das 17h30min às 19h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A entrada é franca.

José Rogério Lopes é graduado em Pedagogia pela Universidade de Taubaté. É mestre e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. Atualmente, é professor titular do PPG em Ciências Sociais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos-RS. De sua autoria, destacamos A imagética da devoção; a iconografia popular como mediação entre a consciência da realidade e o ethos religioso (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2010). É um dos organizadores de Diversidade religiosa, imagens e identidades (Porto Alegre: Armazém Digital, 2007).

Confira a entrevista.


IHU On-Line - O que é a imagética da devoção?

José Rogério Lopes -
Imagética da devoção, ou imagética devocional, é uma concepção que busca imprimir um caráter substantivo ao conjunto de imagens que se entrelaça e gravita em torno de determinadas práticas religiosas e vivências devocionais contemporâneas.

Os estudos tradicionais sobre devoções religiosas davam importância secundária ao uso das imagens no entendimento do fenômeno religioso, tratando-as regularmente como um registro simbólico que se reproduzia desde as práticas e estratégias institucionais de evangelização católica, sobretudo. Desde a abordagem que adotei nas minhas pesquisas, e no livro, busco inverter essa lógica, primeiro reconhecendo um caráter presencial às imagens, na contemporaneidade, que extrapola a impressão de um registro simbólico produzido fora delas, para, a seguir, interpretar essas presenças como constitutivas de redes de sentido, organizadas em torno de determinadas devoções e práticas religiosas. Assim, as imagens religiosas e devocionais existem como suporte ritual de demarcação social, uma espécie de geografia do sagrado, ou ao menos, das experiências religiosas vivenciadas pelas pessoas.


IHU On-Line - Poderia citar alguma peculiaridade dessa imagética da devoção em nosso estado ou país?

José Rogério Lopes -
Há algumas peculiaridades que são, em geral, marcadas por um caráter inovador da imagética devocional em pauta, como ocorreu com os Santos da Crise (Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santa Edwiges e Santa Rita de Cássia), na década de 1990 e início da de 2000. Essas devoções iniciaram em São Paulo, espalhando-se para o Rio de Janeiro e outras regiões metropolitanas, nesse período. Em tais casos, os traços da imagética eram definidos por uma abundância de faixas de agradecimento nas ruas, ou de santinhos que invadiam o cotidiano das pessoas, depositados em locais os mais inusitados, como uma contraprestação anônima por parte de devotos que pediam graças aos santos. Trata-se aí de uma lógica contemporânea de exteriorização de um modelo de obrigações recíprocas, em substituição aos tradicionais ex-votos que são depositados em santuários como o de Aparecida, de Caravaggio e outros. Esse caso foi pesquisado por vários cientistas sociais, incluindo eu mesmo, e há bons estudos publicados e disponíveis para consulta, que podem ser acessados por uma busca no Google Acadêmico.

Esse mesmo modelo deslocou-se continuamente para outras devoções, de forma que encontramos essa imagética presente na devoção ao Pe. Reus, aqui em São Leopoldo-RS, por exemplo. Todavia, mais que atentar para as peculiaridades, é importante reconhecer que essa geografia do sagrado – ou “constelações devocionais”, como definido por Benedetti  - é delimitada em círculos de influência que são concêntricos. Assim, há várias ondas de difusão de imagética devocional em exteriorização, na experiência religiosa contemporânea que, ao se cruzarem, afetam-se reciprocamente, agregando ou desagregando valor entre si. Um caso de agregação de valor pode ser percebido na diversificada imagética das devoções marianas, encontradas por todo o país.


IHU On-Line - Em que sentido a iconografia popular funciona como mediação entre a consciência da realidade e o ethos religioso?

José Rogério Lopes -
As imagens sempre conduzem sentimentos, transmitem mensagens e valores, enfim, comunicam. E por comunicarem, a imagens explicitam a estrutura de atitudes e concepções daqueles que as produzem ou as fazem circular. Poderia afirmar, acompanhando a concepção de Monique Augras , que a comunicação propiciada pelas imagens auxilia as pessoas a tecerem redes que as aproximam e as afastam, de forma a assegurar áreas recíprocas de movimentação. Assim, quando inseridas e identificadas em uma rede de interações determinada, as imagens configuram o que denominei de imagética da devoção e permitem apreender a visão de mundo das pessoas que suportam essa rede.

Desde as formas de exteriorização mais tradicionais da imagética religiosa, sobretudo no catolicismo, as imagens sempre se inseriram em um processo de evangelização e traduziam sentidos e valores específicos de religiosidade, sobretudo pietistas. Tanto que a Igreja Católica exerceu por séculos um controle sobre a produção de imagens religiosas, ou devocionais. Como as formas de mediação se modificaram bastante até a atualidade, principalmente pela difusão das tecnologias de reprodução de imagens, permitindo sua diversificação em combinações variadas, os devotos acessaram um campo de produção dessa imagética e inseriram nelas outros registros de comunicação, progressivamente mais autônomos. Um exemplo: a camiseta de um jovem participante da Renovação Carismática, com a imagem de Jesus Cristo sorrindo, com o braço estendido à frente e a mão fazendo um sinal de positivo.


IHU On-Line - De que forma podemos compreender essa imagética frente ao sincretismo religioso no Brasil?

José Rogério Lopes -
De maneira objetiva, pela delimitação de fronteiras aos padrões sociais de ação das pessoas, em função de seu reconhecimento, ou pertencimento religioso. De maneira subjetiva, pelo procedimento de retração que as imagens geram entre tais fronteiras, elidindo seus limites e produzindo o que Pierre Sanchis  denominou de “porosidade”, ao tratar das conversões religiosas no Brasil. O uso das imagens de santos católicos na Umbanda serve de referência para pensar as duas maneiras de compreender essa relação.

Porém, hoje e cada vez mais, a imagética projeta na realidade um registro de combinações que extrapola a esfera religiosa, propriamente dita, incorporando elementos das esferas cultural e política, por exemplo, permitindo circunscrever e pensar campos híbridos de manifestação de sentidos.


IHU On-Line - O que a imagética da devoção demonstra sobre a fé dos brasileiros?

José Rogério Lopes -
Pensando de maneira ampla, é possível afirmar que a imagética devocional representa uma necessidade que o brasileiro tem de exteriorizar a sua fé, como me disse um frade fransciscano da cidade de Ubatuba-SP. Mas também, poder-se-ia afirmar que as combinações imagéticas produzidas contemporaneamente permitem reconhecer a formação crescente de um campo plural de manifestações religiosas na sociedade.


IHU On-Line - Quais foram as principais conclusões a que chegou com essa pesquisa?

José Rogério Lopes -
As conclusões de uma pesquisa como essa são sempre provisórias, em virtude da dinâmica relacional que ela desenvolve. Além de algumas referências já expostas anteriormente, poderia dizer que o estudo permitiu reconhecer que as imagens devocionais demarcam presencialmente – mas hoje também virtualmente, como procurei mostrar em outro estudo  – um conjunto de interações sociorreligiosas, ou socioculturais, organizadas em redes de significado, que transitam entre referências locais e universais. Esse trânsito opera por fluxos constantes, e alguns desses fluxos não possuem sequência. Isso implica que os encontros e desencontros culturais e religiosos propiciados pelo uso da imagética devocional – ou mesmo religiosa – estão condicionados por propósitos e performances dos atores envolvidos em tal uso, que extrapolam a esfera religiosa, stricto sensu, como correu no caso das charges do profeta Maomé publicadas em um jornal dinamarquês, em 2006, se não me engano. Assim, as imagens religiosas se configuram contemporaneamente como um lugar-presença na esfera pública, adquirindo autonomia em relação com seu contexto de origem e possibilitando apropriações e manipulações que podem gerar distúrbios identitários e éticos.


Leia mais...

José Rogério Lopes já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

* Fórum Social Mundial. Limites e possibilidades. Entrevista publicada nas Notícias do Dia 26-11-2009

* Psicologia e antropologia. Relações práticas. Entrevista publicada nas Notícias do Dia 19-09-2006

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