Edição 360 | 09 Mai 2011

IHU Repórter

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Anelise Zanoni

Aos 27 anos, Guilherme de Azevedo não tem medo de ser um jovem professor em um curso tradicional como o do Direito. Contratado há dois anos pela Unisinos, ele é responsável pelas disciplinas de Sociologia Aplicada ao Direito, História do Direito e Direito Constitucional e mantém vivo alguns gostos da juventude. Se pudesse, partiria com os amigos para uma turnê com a banda de rock que ainda mantém, porque considera a música uma grande paixão. Também poderia passar horas em frente às telas de cinema para apreciar clássicos de Woody Allen e dividir com os alunos reflexões sobre a relação da sétima arte com a justiça. Na entrevista a seguir, ele conta sobre seu gosto pelos estudos e a influência da iniciação científica na hora de desenhar a própria carreira. Confira.

Origens – Sou de uma família de origem alemã e portuguesa. Entretanto, meus pais nasceram em São Leopoldo e minha avó materna veio de Dois Irmãos. Tenho uma irmã mais nova, Juliana, que faz Comércio Exterior aqui na universidade.
Meu primeiro contato com a Unisinos nasceu com o esporte. Como a comunidade de São Leopoldo conhece a universidade e a considera referência, decidi jogar vôlei na instituição durante a pré-adolescência. Depois dessa fase, não estive mais vinculado ao esporte.

Escolha profissional – Minha mãe é formada em História e Geografia pela Unisinos. Contudo, na época em que eu terminei o Ensino Médio ela tinha se formado em Direito aqui. Eu estava indeciso sobre qual curso fazer e, na época, tinha no imaginário que seria interessante fazer Medicina, principalmente porque tenho um tio médico. Como eu havia decidido por estudar na Unisinos, não podia escolher este curso, porque não era oferecido. Aos poucos, meus pais me ajudaram a ver que eu gostava muito de ler e debater. Foi então que escolhi pelo curso de Direito.

Estudos – Saí do colégio no ano 2000 e, no ano seguinte, já estava nas salas de aula da Unisinos. Hoje tenho 27 anos e faço parte de um grupo de pesquisa e dou aula na graduação. Isso tudo nasceu porque sou uma verdadeira “cria” da universidade. Logo que comecei o Direito (noturno) fiz vários estágios. Tive experiências em dois escritórios de advocacia, mas não me identifiquei muito. Estagiei também no Ministério Público de Esteio. Ainda no início do curso fiquei sabendo sobre o programa de iniciação científica, o que mudou muito meu caminho.
O Professor Delton Winter de Carvalho estava iniciando o doutorado e comentou que o orientador dele, o Professor Leonel Severo Rocha, estava selecionando um bolsista. Na época, eu nem sabia o que fazia um bolsista de iniciação científica. Conversei com ele e descobri que a tarefa estaria relacionada a estudos e a pesquisa acadêmica. Fiz a seleção e passei.
Na época, eu tinha cerca de 18 anos e pouca noção sobre o que era o Direito. Além disso, estava ajudando um PhD a pesquisar.
Com certeza, me apaixonei pela experiência. Comecei a trabalhar como bolsista do Professor Leonel Severo Rocha no PPGD e fiquei por lá durante cinco anos. Depois desse período, não fiz mais nenhuma outra atividade profissional e acabei me dedicando para a área acadêmica.

Paixão pela academia – Percebi que as disciplinas do início do curso foram as que mais me marcaram e que a Unisinos poderia oferecer a possibilidade de uma grande carreira acadêmica. Por isso, me direcionei para a pesquisa.
O aluno que é bolsista conhece uma realidade da universidade muito boa e percebe que é possível fazer uma ponte com o mestrado e o doutorado desde muito cedo. Eu, por exemplo, desde o início da graduação vivi dentro do programa de pós-graduação do Direito (PPGD). Lia os livros que eram debatidos por mestrandos e doutorandos, me interessava por aqueles que mais se aproximavam da teoria do direito. Depois, que terminei a graduação, em 2007, entrei no mestrado. Em seguida, ingressei como professor, em 2009.


Mercado de trabalho - Toda inclusão gera alguma exclusão. É preciso saber fazer escolhas na carreira profissional. A demanda por uma constante formação e especialização exige isso. O Direito no Brasil vem superando um modelo antigo de profissional do ensino: se você não trabalha na área e apenas leciona, as pessoas costumam questionar essa situação. Espera-se que o professor seja antes de qualquer coisa um advogado, com escritório, ou que seja um juiz, promotor etc. Mas no ensino universitário no Exterior, respeitada a especificidade de cada país, os professores são antes de qualquer coisa pesquisadores, apenas estudam ou se dedicam à docência. Lecionar ou pesquisar são profissões, e não devem ser consideradas apenas um “plano B”.
Acredito na importância da prática. Apenas defendo que na área que atuo dentro do direito, a atividade “prática” é antes de tudo a pesquisa. Atualmente, os temas que investigo estão relacionados à Sociologia Jurídica, Teoria do Direito e Direitos Humanos. Para o profissional dessas áreas, entendo que o seu maior compromisso com o “mercado” ou a “prática” é o de manter a sua pesquisa em constante conexão com as principais universidades e centros de pesquisa no Brasil e no mundo.  
Além disso, a questão de se especializar, com mestrado e doutorado abriu espaço para aqueles que se dedicam apenas à pesquisa. E eles não perdem qualidade ou conexão com o mercado. A profissão professor no Direito está crescendo muito e alguns se dedicam exclusivamente à docência.

Experiência de sala de aula – Não sei se ainda existe o estereótipo de que o professor do curso de Direito deve ser mais velho, ou que é a idade que confere experiência ou qualidade.
É uma espécie de fetiche a experiência pela idade, uma crença que nós mesmos nos colocamos, mas para atenuar um pouco essa ideia penso que antes de mais nada vem o compromisso com o estudo constante.
O Direito, por ser um curso muito tradicional, atrai pessoas muito diferentes, de classes e idades. Como trabalho com disciplinas vistas normalmente com “teóricas”, tenho o compromisso de apresentar elas para os alunos com um bom embasamento. E os alunos percebem quando o professor domina um determinado assunto. Por isso, não me sinto constrangido por ser tão jovem. A única segurança consistente que o professor pode alcançar é a segurança intelectual. E isso não depende só do tempo.

Músico por lazer – Sempre brinco com os alunos deixando claro que o curso está ligado a outros fatores socais importantes e que pode ter outros desdobramentos. Levo para a sala de aula ideias relacionadas à música e ao cinema.
Na verdade, a música é um lazer, e me interesso por compositores que vão da música erudita ao black metal norueguês. Atualmente, ainda toco contrabaixo em uma banda de rock de amigos de infância. Gosto tanto da música quanto do ambiente acadêmico. Nunca perdi aquele sonho de garoto que pensa em montar uma banda de rock com os amigos e viajar pelo mundo fazendo shows.

Preferências no cinema
– Cinema também é uma paixão. Com a iniciação cientifica viajamos muito e conhecemos muita gente, o que enriquece muito o currículo e nos permite trocar referências de filmes. Sou fanático por Woody Allen, gosto muito do Michael Haneke, que ficou mais conhecido no Brasil agora com o filme A Fita Branca. Sou fascinado também pelo trabalho do David Linch. Tenho interesse por cinema autoral, que leva a mão do diretor, desde o roteiro até a direção. Alguns clássicos também são fascinantes. Cinema pra mim é uma arte superior, porque tem uma mescla de linguagens: música, palavra, imagem, dança. Gosto de levar para sala de aula filmes que os alunos possam refletir em um espaço lúdico.

Noivado recente
– Acabei de ficar noivo de uma ex-aluna da Unisinos, a Geane Martins da Silva. Ela se formou em Letras na virada do ano e é professora de inglês e português em duas escolas particulares.
 
Plano futuros – Minha irmã fez intercâmbio e percebo que esta é uma lacuna na minha vida. Acabei optando pela academia e espero suprir esta minha necessidade de viajar em um futuro doutorado. Como o governo não está oferecendo muitas bolsas integrais de doutorado, penso em fazer uma extensão “sanduíche” nos Estados Unidos ou na Alemanha. Também desejo continuar investindo na carreira de pesquisador e docente na Unisinos, é uma Universidade sólida e reconhecida em todo o país, principalmente no Direito.
Outro ponto importante é que devo procurar outra instituição para continuar os estudos no doutorado. Tomei a decisão junto com o meu orientador do mestrado, porque acredito que como professor, tenho a obrigação de agregar valor ao meu currículo e à universidade que trabalho. Como já conheço bem os professores e as linhas de pesquisa da Unisinos (fiz minha graduação e mestrado aqui), fiquei com medo de que meu doutorado se transformasse em um “mestradão”. Então pretendo fazer seleção em outras universidades, como a Universidade de Brasília - UnB, Universidade de São Paulo - SP ou até mesmo a UFRGS. Entendo que, especialmente para quem é um profissional da pesquisa, a passagem por outras instituições é importante para troca de experiências e enriquecimento profissional.

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