Edição 360 | 09 Mai 2011

Uma nova sensibilidade diante dos problemas sociais

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Moisés Sbardelotto

“Falar de Mater et Magistra é falar de João XXIII e seu contexto social e eclesial. Seu nome já figura na História como aquele que abriu amplas janelas da Igreja para que desse passagem aos ventos do Espírito”, afirma a teóloga Ana María Formoso

“A Mater et Magistra não é apenas uma comemoração do passado. Ela apresenta uma nova sensibilidade diante dos problemas sociais, focaliza-os, mas também aponta para uma nova mentalidade de reflexão”. Para a teóloga Ana María Formoso, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a encíclica social de João XXIII “volta para soluções já conhecidas e, ao mesmo tempo, enfrenta problemas novos quando o trauma da guerra já parece estar sendo superado”.

Ana María Formoso Galarraga é mestre em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS.  Trabalha na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, onde integra a equipe de Coordenação do Programa de Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos - IHU e é assessora nos cursos Teologia Popular na Escola Superior de Teologia Franciscana e dos cursos de Teologia da FACCAT. É integrante do Conselho Editorial dos Cadernos Teologia Pública, do IHU. É também doutoranda em educação pela Unisinos, com a pesquisa Práticas Educativas, Justiça Social e Desenvolvimento: A Educação Popular Frente às Reformas Políticas e Mudanças Culturais na América Latina (1989-2009). É autora da edição nº. 29 dos Cadernos Teologia Pública, publicados pelo IHU, intitulado Na fragilidade de Deus, a esperança das vítimas. Um estudo da cristologia de Jon Sobrino.


Confira a entrevista.


IHU On-Line – Qual é o contexto da Mater et Magistra? Qual a postura de João XXIII diante da Igreja e do ambiente europeu da época?

Ana María Formoso –
Falar de Mater et Magistra é falar de João XXIII e seu contexto social e eclesial. Seu nome já figura na História como aquele que abriu amplas janelas da Igreja para que se desse passagem aos ventos do Espírito que fazem com que todas as coisas se tornem novas.

Temos que olhar para o contexto prévio da Mater et Magistra, o contexto mundial que formou parte da história de vida de João XXIII e o contexto que ele bebeu na França e em outros países.
Os esforços para estabelecer uma justiça social cristã no mundo operário não foram só obras da Igreja oficial. A Doutrina Social da Igreja, em nível oficial e universal, começou a aparecer com a Rerum Novarum de Leão XIII, em 1891. Esse atraso levou a Igreja a perder a massa operária em favor do marxismo violento e radical e do socialismo anticlerical.

Cristãos e cristãs realizavam individualmente grandes empreendimentos para superar anos de guerra. Muitas iniciativas aparecem nesses anos. Por exemplo, p Pe. Lebret funda o “Economia e Humanismo”, em 1941, para suscitar trabalhos científicos passíveis de desembocar na elaboração de uma doutrina que ponha a economia a serviço das pessoas. O Pe. Montuclard  cria um centro de pesquisa e uma revista, Jeunesse de l”Eglise (1942), a fim de encontrar soluções para o isolamento da Igreja no interior de um mundo que lhe escapa. Sources Chrétiennes, fundada por jesuítas de Lyon em 1942, dá inicio à publicação dos escritos dos Padres da Igreja para pô-los ao alcance dos/as cristãos/as que se preocupam em voltar às fontes de sua fé.

Em vários países, entre os quais se destaca França, a Ação Católica  especializada enfatiza a evangelização dos ambientes e a transformação dos condicionamentos sociais. Trata-se dos movimentos de jovens que datam de período anterior à guerra: JOC, JAC, JEC, JIC, etc. Ao mesmo tempo, os antigos grupos de defesa religiosa se transformam em movimentos da ação católica geral: Ação Católica dos Homens – ACGH e Ação Católica Geral das Mulheres – ACGM.

O pós-guerra é também o desabrochar de um movimento catequético que teve início nos anos 1930 com Marie Fargues  e Françoise Derkenne . Joseph Colomb , diretor do ensino religioso de Lyon, é seu animador e ele acentua a insuficiência do catecismo. Pede para o ensinamento religioso um retorno às fontes bíblicas e litúrgicas. É necessário estabelecer uma relação entre a proposição da fé e a experiência humana.
A guerra causou perdas enormes nos países do Leste Europeu e da Europa Central. No contexto pós-guerra e de um esforço de reconstrução deste continente muito complexo, é nomeado Papa João XXIII.
No dia 28 de outubro de 1958, Pio XII era sucedido pelo cardeal Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII. O novo papa tinha 77 anos e pensa-se nele como um papa de transição. De origem camponesa, ele tivera uma carreira diplomática variada que influenciou no seu pontificado. Não esquecer sua simplicidade e sua competência intelectual, política. Era patriarca de Veneza desde 1953. De suas estadas em vários países, entre os quais a França, guardou a lição de que o mundo evoluíra muito e de que a Igreja estava ausente de diversos setores. Ele adota um novo estilo pontifical. Primeiro papa a sair do Vaticano desde 1870, ele visita a prisão de Roma, partindo em peregrinação para Loreto e para Assis.


IHU On-Line – A encíclica é divulgada poucos meses antes da convocação do Concílio, feita em dezembro de 1961. Qual a importância de João XXIII em relação ao Concílio Vaticano II?

Ana María Formoso –
No dia 25 de janeiro de 1959, João XXIII anunciava sua tríplice intenção de reunir um sínodo para a diocese de Roma, de reformar o direito canônico e de reunir um concílio para a Igreja universal. Sem ter ideias muito precisas sobre o conteúdo do concílio, João XXIII lhe atribui dois objetivos bastantes amplos: uma adaptação (aggiornamento) da Igreja e do apostolado a um mundo em plena transformação e o retorno à unidade dos cristãos. Para a Igreja, trata-se menos de lutar contra adversários que de encontrar um modo de expressão para o mundo no qual vive. “Mais ainda do que no plano da ação, pode-se dizer que este é o século da Igreja no plano da reflexão. Nos séculos precedentes, a Igreja, de fato nunca tinha estado no centro do estudo da pesquisa e da análise teológica como no nosso século... Em particular, a eclesiologia marcou passos gigantescos na Igreja Católica, graças à obra do Concílio Vaticano II. Este pôs em luz a origem trinitária da Igreja, o seu caráter místico e carismático, a sua propriedade de ser povo de Deus, a igualdade essencial de todos os seus membros, o sacerdócio dos fiéis, a responsabilidade universal do episcopado, a consistência das Igrejas separadas, a responsabilidade da Igreja e dos cristãos perante os problemas do mundo e da humanidade” (n.163).


IHU On-Line – Que dimensões você apontaria como fundamentais na encíclica? Que aspecto presente no texto aponta para os desafios da atualidade?

Ana María Formoso –
A Mater et Magistra não é apenas uma comemoração do passado. Ela apresenta uma nova sensibilidade diante dos problemas sociais, focaliza-os, mas também aponta para uma nova mentalidade de reflexão: então, volta para soluções já conhecidas e ao mesmo tempo enfrenta problemas novos quando o trauma da guerra já parece estar sendo superado.
Alguns princípios que a encíclica sublinha e que temos que repensar para o contexto atual: 1) O trabalho não é uma mercadoria; sua contribuição deve ser fixada de acordo com as leis da justiça e da equidade (MM 18). 2) A propriedade privada é um direito natural, mas “tem, naturalmente intrínseca, uma função social” (MM 19). 3) O Estado não pode permanecer à margem das atividades econômicas e deve, antes de tudo, vigiar sobre as condições de vida dos trabalhadores e os contratos de trabalho (MM 20-21). 4) Existe um “direito natural” dos trabalhadores de formar “associações próprias ou mistas” (MM 22). 5) As relações entre trabalhadores e empresários devem fundamentar-se nos “princípios de solidariedade humana e fraternidade cristã” (MM 23). Destaca-se a função social da propriedade – situando-a no mesmo nível que o direito à propriedade privada.
Uma palavra que marca a encíclica é desigualdade, em primeiro lugar, no interior dos países industrializados, que avançaram no desenvolvimento marginalizando alguns setores (particularmente a agricultura) e regiões inteiras (MM 123-156). Aponta para as desigualdades em nível mundial (MM 157-199) e as desigualdades nas relações políticas (MM 200-204). Nesta desigualdade aponta para o problema da distribuição de renda que está longe de ser desenvolvido pela industrialização de alguns setores e aparece o tradicional enfrentamento entre capital e trabalho que já se vinha colocando na Quadragesimo Anno.
Um conceito importante e muitas vezes conflituoso que trabalha a encíclica é o fenômeno da socialização (MM 59-67), e aqui vejo uma chave de leitura muito atual para repensar. Primeiramente, é necessário olhar compreensão de termo na Mater et Magistra: “Uma das notas mais características de nossa época é o incremento das relações sociais, ou seja, a progressiva multiplicação das relações de convivência, com a consequente formação de muitas formas de vida e de atividade associada, que foram refletidas, na maior parte das vezes, pelo direito público ou pelo direito privado” (MM 59).
A socialização aponta para uma sadia concepção do bem comum; a liberdade pode ser definida entre pessoas e coletividade, que está na base da atual multiplicação dos vínculos associativos em todos os âmbitos da vida humana.

Para compreender o bem comum, tem-se que perceber as implicações sociais, políticas da vida humana e do direito público e privado. Podemos dizer que é uma encíclica que trabalha nas fronteiras e que não foi só uma encíclica da “transição” senão uma proposta que traz temáticas de fronteiras que ainda desafiam a sociedade.



Leia Mais...

> > Ana María Formoso
já publicou outros artigos na IHU On-Line. Confira:

• “Sobre a censura do Vaticano ao teólogo Jon Sobrino”, publicado na edição nº. 213 da Revista IHU On-Line, de 26-03-2007

• “A cristologia de Jon Sobrino”, publicado nas Notícias do Dia de 25-07-2007

• “A Páscoa como subversão”, publicado nas Notícias do Dia de 17-03-2008

• “Ignácio Ellacuría - Um pensador, negociador e cristão”, publicado na edição nº. 314 da Revista IHU On-Line, de 09-11-2009

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição