Edição 359 | 02 Mai 2011

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Anelise Zanoni

Doutora em Serviço Social, Marilene Maia comemora o crescimento dos dois filhos adolescentes com o desafio de compreender uma nova geração e de assumir distintos papéis no dia a dia

Ao completar 50 anos no dia das mães, a doutora em Serviço Social Marilene Maia, coordenadora do Observatório das Políticas Públicas do Vale dos Sinos (Observasinos), faz uma revisão do seu papel na maternidade. Mãe de Francisco, 16 anos, e Vicente, 13 anos, ela diz-se completa quando percebe as manifestações e expressões de autonomia dos meninos.

“Para mim, são indicações importantes de afirmação dos meus filhos como homens e cidadãos. Alegro-me imensamente também com a alegria deles”, afirma.
A cada vitória do time, reunião com a família ou festa, ela percebe-se como corresponsável pelo sucesso e crescimento dos filhos. É desafiada a construir referências para eles e a lidar com diferentes papéis, como o de chefe de família, profissional, amiga, estudante, dona de casa e, claro, mãe. Leia abaixo algumas declarações de Marilene sobre sua experiência diária.


Dupla jornada

“Ser mãe e ter de lidar com os desafios de cuidar dos meninos e da profissão é um desafio permanente. É uma construção diária, uma grande arte! É talvez a recriação da vida na sua totalidade em uma esfera micro. Isso porque a dupla perpectiva da vida, a maternagem e a profissão são multiplicadas em outras dimensões que também são privilegiadas por mim: mulher, cidadã, dona de casa, chefe de família, estudante, filha, irmã, tia, dinda, amiga... Sempre digo que o desafio hoje é de “viver tudo ao mesmo tempo agora”. E não é só “viver”, mas “viver bem”. O que me aliviou nesta jornada foi quando descobri que posso me colocar na condição de, como referiu Hugo Assmann, aprendente. Com isso, vou vivendo e aprendendo a ser e a fazer tudo isso. Até porque, apesar dos avanços dos conhecimentos e das ciências, temos o desafio de viver estas relações em um tempo de incertezas e mutações”.


Dificuldades diárias

“O que se configura, talvez, como sendo mais difícil seja garantir tempo para viver e aprender todas essas dimensões da vida com qualidade. São múltiplas as minhas exigências e, também, as exigências externas para o cumprimento dos papéis de mãe e profissional. Com isso, por vezes me pego somente cumprindo papéis e reproduzindo ações impostas pelas instituições e não sonhando e construindo processo de vida em cada uma dessas dimensões e no seu conjunto. Gostaria de usufruir mais destas minhas experiências, que considero também construtoras da humanidade e da sociedade. E isto me preocupa.”


Renovação da vida

“Depois que me dei conta que, ao mesmo tempo em que gerei as vidas do Chico e do Vi, estava gerando uma nova vida pra mim. O mais impressionante é que isso não aconteceu somente na gestação. Percebo que a maternidade e a gestação das nossas vidas é diária. Isso me emociona, me alegra, me desafia. Sempre digo que a maternidade é um curso permanente de pós-doutoramento, que não tem matrícula e não se encerra nunca.”


Novas configurações

“A construção de relações de democracia com afeto e autoridade são os grandes desafios. Carrego comigo o entendimento de que a vida no plano micro deve ser carregado de sentido para o macro e vice-versa. A relação entre “conteúdo e forma” constitui a articulação indispensável. Meus valores e projetos de vida devem ser alcançados em todos os momentos e espaços. A democracia, a liberdade e a justiça são valores que carrego ao longo de minha história, como desafios fundantes da vida e os entendo como fundamentais de serem experimentados em todos os espaços. Isso também na família e também na relação mãe e filhos. Tenho muitas incertezas de como construir isso de forma coerente e como estabelecer relações radicalmente democráticas em um grupo familiar. A família tem configurações novas. Diferentes dos padrões que aprendi e que são culturalmente instituídos. Não tinha na bagagem da minha vida a perspectiva de ser mãe responsável pela família e, muito menos, de ser “avó” de um cachorro de estimação. Configurações novas exemplificam os novos desafios de construção e aprendizagem.”


Preocupações reais

“Talvez mais do que tristeza, tenho preocupação em relação às múltiplas exigências de e para a vida que estão postos a meus filhos. Os adolescentes e jovens são alvos especiais deste sistema que torna as pessoas “objeto” do consumo, do capital, da ganância, do individualismo, da banalização da vida e das relações. Valores que não são parte do meu projeto de vida. Sinto-me “brigando” contra tudo isso e desafiada a construir referências que vão na contramão deste sistema, que é encantador para eles. Já aprendi que não sou modelo. Essa perspectiva já foi superada. Posso ser referência a partir da convivência e do compartilhamento de experiências. Para isso a exigência é grande, já que não conseguimos dar conta de tudo.”


Diferenças de épocas

“O cuidado antes exigia mais presença física. Hoje exige acompanhamento, que se amplia, ou seja, à distância, com mais conhecimentos e múltiplas competências. Quanto mais eles crescem, parece que as aproximações são maiores e, consequentemente, somos mais exigidos a responder com mais clareza e competências esta relação. Sinto-me também desafiada a estar aprendendo com eles: novo tempo de adolescer que o meu, a diferença de gênero, a cultura, as personalidades, os projetos de vida. Tudo isso é uma grande festa. Aliás, percebo que fui especialmente presenteada neste dia das mães de 2011. Afinal, completo meus 50 anos de vida exatamente no dia das mães. Penso que, minimamente, isso é provocador para ressignificar ainda mais esta dimensão da minha vida, que é, indiscutivelmente, muito importante.”

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