Edição 359 | 02 Mai 2011

A necessidade de repensar a cesariana

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Anelise Zanoni

A psicanalista Viviane Fernandes Silveira acredita que tão perigoso quanto não questionar a cesariana é garantir estilos de parto com antecedência sem perceber a possibilidade de perdas incontornáveis

Para poder se organizar e até mesmo evitar o sofrimento da hora do parto, as mulheres brasileiras são líderes mundiais em cesariana. O número chega a 90% em hospitais particulares, quando o indicado pelo Ministério da Saúde é de 15%. Discutir a prática e avaliar os riscos e consequências dessa modalidade é a proposta da psicanalista Viviane Fernandes Silveira.

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line a especialista afirma que as estatísticas apontam para um problema “que alcança a dimensão da saúde, a clínica psicanalítica e a educação”, tendo reflexos na constituição de um sujeito da aprendizagem do lado do bebê. Nessa perspectiva, o nascimento humano é viabilizado sobretudo a partir de posicionamentos subjetivos, hipóteses dos pais e entorno sobre o bebê.
“O nascimento é prova inaugural na qual a criança será empurrada a começar a simbolizar como maneira de dar conta do desamparo causado por todas as novidades com as quais passa a se deparar”, diz a psicanalista.

Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, Viviane Fernandes Silveira é mestre em Psicologia pela UFRGS e faz doutorado na mesma área da instituição. Atualmente trabalha em uma proposta de tese chamada "Como nasce o brasileiro (hoje)? Uma leitura psicanalítica do ato do nascimento à luz do fantasma da colonização no Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line _ É cada vez mais comum futuras mães negarem a possibilidade de fazer o parto normal. Quais as consequências disso para o desenvolvimento da relação mãe e bebê?

Viviane Fernandes Silveira -
Se de um lado a escolha do formato do parto é algo absolutamente particular e está ligado às exigências psíquicas, heranças transgeracionais, culturais de cada mãe, pai e entorno, os índices atuais brasileiros são preocupantes e sinalizam mais que formações sintomáticas de algumas famílias. Eles sugerem a dimensão de um problema social e efeitos em larga escala. O fato de sermos um dos líderes mundiais em cesariana, chegando a 90% em hospitais particulares, quando o indicado pelo Ministério da saúde é não passarmos de 15%, já aponta para um problema que alcança a dimensão da saúde, a clínica psicanalítica e a educação, não apenas dos profissionais envolvidos com o tema, assim como os efeitos destes posicionamentos nas possibilidades da constituição de um sujeito da aprendizagem do lado do bebê.
 Creio que para pensarmos este tema precisamos partir de leituras desde a antropologia do nascimento, passando pela clínica psicanalítica e elementos constitutivos da subjetividade de cada cultura, no caso, a brasileira. Há 2 bilhões de anos, com o evento da bipedalidade e encefalização, a pélvis humana passou a ser mais constrita, o caminho da saída do bebê mais sinuoso e o tamanho craniano duplicou. Em função do aumento da dificuldade, o nascimento passa a ocorrer quando o bebê tem por volta de nove meses e, portanto, existe toda uma prematuridade neuro-sensorial. Com isto o entorno precisa de uma organização específica para proteger o bebê que necessita de cuidados diferenciados, viabilizando, assim, a preservação da espécie. Alguns autores apontam para o parto como a cicatriz da evolução humana e da constituição da família.

O processo da gestação envolve muito mais que a constituição de tecidos orgânicos, assim como o nascimento será muito mais que a expulsão do bebê e placenta do corpo materno. O nascimento humano é viabilizado, sobretudo, a partir de posicionamentos subjetivos, hipóteses dos pais e entorno sobre o bebê. Para cumprirmos algo da nossa missão de nos humanizarmos, antes de qualquer coisa, respondemos a endereçamentos que nos são feitos, pedidos, apostas, leituras das quais participamos ativamente. Assim, na gestação estas interações se presentificam quando a criança se movimenta, com as teorias que os pais fazem sobre como já é esse bebê, o que prefere, do que já sabe, como por exemplo, as vozes que já reconhece.

Um aspecto central do nascimento é a dimensão do sexual, elementos transgeracionais, teorias particulares e a dimensão do saber, da mãe, do pai, do entorno e do bebê. Quando a mãe abre totalmente mão de participar do momento do parto com suas forças, contrações, dores, com seu corpo em todas as dimensões, com seu saber feminino e entrega este ato na mão de outros, o que se pode pensar? Aliás, neste sentido, poderíamos nos perguntar se as brasileiras perderam a competência para parir, já que nas últimas décadas a escolha por partos intervencionistas, cirúrgicos e medicamentosos roubaram a cena do parto contrastando com o método utilizado desde os primórdios da civilização.

Então, um ponto importante para os efeitos da cesariana enquanto escolha sintomática e massificada é o lugar do saber, das teorias sexuais infantis, da presentificação do corpo, da dimensão da dor (crucial para a questão dos limites e riscos na constituição de uma criança) nas trocas mãe-bebê.

O nascimento é prova inaugural na qual a criança será empurrada a começar a simbolizar como maneira de dar conta do desamparo causado por todas as novidades com as quais passa a se deparar: fome, frio, sensações cutâneas, respiração, deglutição, estímulos, intensidades externas e internas. Ele tem um lugar importante demais para ser tratado de maneira ausente sem a presentificação adequada dos tão sérios elementos que estão em questão.


IHU On-Line - A cesariana é um reflexo da sociedade moderna, em que precisamos agendar compromissos e períodos da vida?

Viviane Fernandes Silveira -
Este é um dos elementos da atualidade na formação dos sintomas, inclusive na problemática do nascimento do humano. Questões mercadológicas, horários de consultório e finais de semana dos profissionais, também podem contar, assim como aspectos financeiros. No entanto, um ponto que creio ser válido levantar, é o que proponho na minha pesquisa que se chama “Como nasce o brasileiro (hoje)? Uma leitura psicanalítica à luz do fantasma da colonização no Brasil”. Não podemos pensar as formações sintomáticas fora da cultura na qual estamos inseridos. Se aproximarmos, por exemplo, alguns dos elementos do nascimento coordenado por figuras masculinas que utilizam instrumentos e drogas para fazer um trabalho que, muitas vezes, deveria ser feito com o corpo, investimento, excitação, forças, crenças e saberes da mãe, do pai e do entorno do bebê, além dele mesmo, subtraindo desta cena elementos importantes da constituição psíquica e dos laços humanos, se aproximarmos estes elementos por muitos considerados como parte de um nascimento violento, de aspectos das origens do nascimento do Brasil, poderíamos fazer algumas hipóteses.

Nosso país tem grande parte de suas origens em meio a uma cena de violência, em uma época em que os valores são deslocados do ser para o ter e, assim, de um lado, os colonizadores lançam-se em aventuras em busca de prestígio e poder. De outro, do lado dos habitantes que se encontravam em nossa terra, o que ocorre é a usurpação, o desreconhecimento do saber já existente, um encontro ilegítimo entre a índia e o branco. Alguns aspectos apontados por autores que pensam sobre as origens da subjetividade brasileira, é a posição melancólica na qual se olha para o saber que vem de fora, de um outro, como superior ao saber próprio. As repetições destes elementos de violência em diversos âmbitos seriam em grande parte conseqüência de uma história da qual não de pôde falar.

Perguntar que elementos da constituição do brasileiro colaborariam para este fenômeno social do parto, parece-me uma possibilidade de leitura e intervenção.


IHU On-Line - É possível compensar "as perdas" que se tem com o nascimento por cesariana?

Viviane Fernandes Silveira -
Tão perigoso quanto não questionar a cesariana seria garantir que este ou aquele caminho deve ser tomado, sem o quê, estaremos defrontados com perdas incontornáveis. Em diálogo com profissionais que apóiam firmemente o parto vaginal, acabo sempre pensando que se trata de uma discussão muito delicada e, na qual, agora em meio a minha investigação, ouso apenas seguir fazendo perguntas e localizando alguns indícios. Na medida em que o que constitui psiquicamente é o jogo de posições subjetivas que o bebê faz com aqueles que operam as funções maternas e paternas, assim como as capacidades e responsabilidades do próprio bebê, o modo como vão se desenrolar estas cenas que duram anos, será crucial para todos os bebês, independentemente do formato de seus partos. Deste modo, o nascimento cirúrgico estará presente na história dessas famílias que por algum motivo o vivenciaram, mas se puderem pensar, falar, inclusive sobre ele, assim como investir ritmicamente nas trocas com a criança fazendo operar as funções cruciais para sua humanização, então a cesariana será um elemento levado em consideração de modo humanizado, o que evidentemente faz diferença.


IHU On-Line - Mães que optam por barrigas de aluguel podem sofrer com o relacionamento com a criança?

Viviane Fernandes Silveira -
Preços e conseqüências estão sempre presentes nas escolhas, no entanto, acredito que o lugar que a mãe vai dar a esta escolha em meio as suas trocas com seu homem, com a comunidade, é o que pode definir melhor o destino desta sua escolha. Possivelmente em algumas décadas teremos mais precisamente a dimensão dos efeitos dos novos métodos de fertilização. No entanto, não me parece que algo na dimensão humana possa fugir muito à questão da responsabilização, possibilidade de falar e presentificar os próprios atos, formulando elementos subjetivos, apropriações que dêem suporte a sustentação de posicionamentos humanizados nestas trocas com as crianças em constituição.


IHU On-Line - Na sua opinião, qual o papel do pai nessa relação moderna entre maes e filhos?

Viviane Fernandes Silveira -
Na leitura psicanalítica o que está em jogo são sempre as funções que podem operar efeitos de humanização: função materna e função paterna. Elas são desempenhadas por representantes, pessoas de carne e osso que têm condições de intervir junto à criança de modo a conferir a esta um lugar de alguém que é único e que possui um saber sobre si e sobre o mundo que ninguém mais, como por exemplo, a mãe, possui.

Deste modo o papel da função paterna segue sendo o mesmo: mediar as trocas da criança com aquela que faz a função materna. Originalmente o pai, na medida em que tinha um lugar no desejo da mãe por ser seu homem e com isto ela carregava a marca do seu desejo por ele e do desejo dele por ela, este pai interditava as trocas mãe-bebê em solidariedade com o filho. No entanto, este terceiro que faz furo na possibilidade da completude entre mãe e criança (e que tem suas origens também nas possibilidades psíquicas anteriores da mãe ao próprio laço conjugal) pode ser, especialmente na atualidade representado de muitas formas. Assim, marido, novo companheiro, vida profissional, dentre outros, são elementos terceiros que operam intervalos nas trocas mãe-bebê.
A função paterna é aquela que será operada por um representante da lei, um embaixador desta, nestes endereçamentos mãe-bebê. Ele viabiliza que a criança, assim limitada, por que diante de uma mãe faltante, desconhecedora, possa desejar saber, possa filiar-se a uma tradição, identificar-se a figuras do seu entorno, e deste modo, tenha condições de caminhar rumo ao mundo em nome de uma dívida simbólica com a dimensão da cultura.


IHU On-Line - Qual sua avaliação sobre mães que optam por não ter parceiros na hora da concepção (que usam métodos como a fertilização in vitro)?

Viviane Fernandes Silveira -
Seria preciso perguntarmos sobre o que determinou a escolha, ao que esta vem responder e que lugar ocupa em meio às exigências psíquicas desta mãe. De qualquer modo, tendo em vista que sem a dimensão da diferença, terceira, situada para a mãe, caso esta mãe tome o filho como objeto do qual pode se apropriar, teremos elementos para que esta dimensão paterna que introduz a lei,  o social, a possibilidade para a aprendizagem, para o saber próprio, não se instaure. E neste caso o risco de um fracasso importante na constituição psíquica, com conseqüências graves para o resto da vida da jovem humano, estará presente.


IHU On-Line - Como você percebe a constituição da família hoje, especialmente o papel de mãe?

Viviane Fernandes Silveira -
De um lado as funções materna e paterna, assim como os complexos que operam a constituição psíquica dentro da instituição da família seguem cumprindo suas funções. De outro há evidentemente particularidades da atualidade, tais como o papel da vida profissional da mãe, intermináveis possibilidades de rearranjos conjugais e novos núcleos familiares, assim como a inserção cada vez mais precoce das crianças nas escolas e em muitos casos demandas novas endereçadas ao social em torno dos cuidados e responsabilidades diante dessas crianças, que até alguns anos atrás eram cumpridas pelo grupo familiar.

Se pensarmos a função materna como aquela na qual quem a opera presentifica para a criança em constituição suas experiências, tais como vivências sensoriais, a dimensão do corpo, da dor, do risco, do desconhecimento, penso que há alguns pontos que podem vir a colocar interrogações, por exemplo, como fica a qualidade das trocas em meio a exigências do mercado de trabalho, da questão do capitalismo e objetalização das trocas humanas, ou até mesmo demandas sociais de grandes desempenhos infantis em suas aquisições, aprendizagens, aspectos estéticos, dentre outros. Acredito que a mãe atual está defrontada com muitos desafios que não são mais o de sair da posição de mulher não considerada como sujeito, sem lugar no social, nas produções intelectuais. Parece-me que a questão seria bem mais ajudar seu filho a reconhecer aberturas e absurdos, possibilidades fantásticas do mundo atual, assim como armadilhas mortíferas e situações de desumanização e violência que com alguma facilidade passam como desprovidas de conseqüências.  Acredito que um dos maiores méritos da mãe na atualidade é situar para o filho o peso dos atos, a responsabilidade, a dimensão do perigo e do ser capaz de colocar-se no lugar do outro.

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