Edição 359 | 02 Mai 2011

IHU Repórter

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Patricia Fachin

Alfabetizada aos dois anos e meio de idade pelos irmãos mais velhos e pelos pais, Adriana Amaral cresceu em um ambiente familiar em que a cultura era intensamente apreciada. Cercada por livros, quadrinhos, música, teatro e tecnologia, ela desenvolveu o gosto pela literatura de ficção, pelo entretenimento e pela comunicação. Leitora da Folha da Tarde, aos sete anos, ensaiou os primeiros passos da profissão que seguiria mais tarde, desenhando o jornal da família. Desde então, nunca mais cogitou desempenhar outro ofício, mas o gosto pela pesquisa foi mais forte e a docência e a pesquisa tomaram seu cotidiano. Formada em Jornalismo pela PUCRS, Adriana Amaral atualmente é professora nos cursos de Jornalismo e Comunicação Digital da Unisinos, além de ser pesquisadora do PPG em Comunicação. Na internet, é possível ler seus textos no blog www.adriamaral.com e acompanhá-la no Twitter @adriaramaral. Na entrevista a seguir, ela conta como a influência familiar se relacionou com as escolhas profissionais. Confira.

Origens – Nasci em Porto Alegre, no ano de 1975. Sou a única mulher entre cinco irmãos e recebi muita influência deles porque eu era pequena quando eles eram adolescentes. Tenho uma diferença, com meu irmão mais novo, de 14 anos. Em função disso e, por ser a única menina, sempre recebi bastante atenção da família. Meu pai trabalhava com seguros e minha mãe era dona de casa. Ao mesmo tempo em que ia à escola, frequentava a faculdade com meu irmão. Eu li autores que estudavam a Escola de Frankfurt quando tinha 14 anos e isso me transformava em um alienígena dentro do colégio; não sabiam como lidar comigo.
Um dos meus irmãos tocava na Ospa, outros dois gostavam de tecnologia e, em 1988, trouxeram o primeiro computador Apple para casa e eu acabei gostado destas áreas também. Minha casa era frequentada por atores de teatro, pessoas do movimento punk e isso, de certa forma, me educou, mas também causou “problemas” até a adolescência.

Jornalismo – Aprendi a ler com dois anos e meio. Meus irmãos me ensinaram a ler jornal e minha primeira percepção do mundo foi por meio da Folha da Tarde. Entrei no colégio alfabetizada. Com sete anos desenhei um jornal com as notícias da minha casa e entreguei para minha mãe, dizendo que estudaria Jornalismo.

Faculdade – Cursei Jornalismo na PUCRS. Durante o curso de Jornalismo, fui bolsista de iniciação cientifica e me interessei pela pesquisa. Depois de formada, trabalhei um ano e parei para fazer o mestrado e, em seguida, o doutorado, acrescido de estágio sanduíche nos EUA. Essa foi uma experiência de vida interessante. Terminei a graduação em Jornalismo aos 22 anos e conclui o doutorado aos 29 anos.
Como jornalista, trabalhei na RBS, na Casa de Cinema de Porto Alegre, com algumas revistas de São Paulo como Rock Brigade, Querida e Simples, sempre na área da cultura e do comportamento. Depois, acabei me dedicando à pesquisa. Penso que o importante é a pessoa pesquisar aquilo que gosta e não ver isso como algo enfadonho.

Experiência no exterior – Fiquei sete meses na Nova Inglaterra, em Boston. Foi uma experiência interessante porque o sistema universitário é bastante diferente, pois os alunos têm uma imersão total na universidade. Não tive tantas aulas porque o estágio de doutorado é mais focado na pesquisa. De qualquer modo, assisti algumas aulas como ouvinte e participei de reuniões de grupos de pesquisas. Foi uma experiência rica para visitar museus e outros bibliotecas, alem de estar no local aonde tudo que eu estudava havia acontecido. Minha tese foi sobre ficção científica cyberpunk e em Cambridge, no MIT está localizada a maior biblioteca de ficção científica do mundo. Ter ido lá acrescentou muito à minha pesquisa.

Casamento - Sou casada há seis anos e moro com meu marido Fabrício Castro, em Porto Alegre. Gostamos muito de ir a shows, cinema e teatro. Somos bastante ligados à música porque meu marido trabalha com produção musical e meu irmão Mauro e meu sobrinho é músicos. Meu outro irmão, Rogério, que atuava como musico profissional na OSPA, faleceu em 2008.

Trajetória profissional – Em 2005, defendi o doutorado e fui selecionada para trabalhar no PPG e na graduação da Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba, onde morei durante cinco anos. Mas, em função de a minha família morar no Sul, fiquei com vontade de voltar e, em 2009, essa vontade ficou ainda mais forte quando meu pai faleceu. Em 2010, quando abriu edital para a Unisinos, prestei seleção e, em agosto, retornei para o Rio Grande do Sul. Eu já conhecia a universidade, as pesquisas que estavam sendo desenvolvidas e tinha um bom convívio por conhecer os colegas de congressos e por ter participado de bancas aqui.

Pesquisa – Hoje, minha pesquisa é sobre o consumo de música na internet e como se dão as organizações, mobilizações e curadoria dos fãs/consumidores através de plataformas digitais.. É uma temática emergente e desde 2010 sou bolsista de Produtividade do CNPq por conta do projeto vinculado a essa temática. Acredito que a web seja um campo muito profícuo e em fluxo para pesquisar o consumo e as novas práticas culturais da sociedade.

Primeiro encontro de Jornalismo Digital – Essa era uma demanda que estava um tanto reprimida. Em conversas com o coordenador do curso de Jornalismo, Edelberto Behs, surgiu a ideia de realizar um encontro informal para discutir esse tema da comunicação digital, já que esse movimento já acontecia em encontros não-oficiais com colegas de outras instituições e mesmo do mercado. O evento foi crescendo e estamos preparando a segunda edição para o mês de agosto. Fizemos uma integração entre o pessoal da pesquisa e das empresas, para que os alunos possam entender que a academia e o mercado não estão desvinculados. No Brasil, essa visão ainda não é habitual. No exterior, as pessoas cursam doutorado e podem trabalhar como pesquisadores em empresas e não necessariamente em uma universidade. Essa sintonia precisa ser mais exposta, evitando pré-conceitos tanto em relação à Academia quanto em relação ao Mercado.

Futuro do jornalismo – Cada vez mais a figura do jornalista ou de quem trabalha com comunicação está mudando. A própria formação vai exigir esse diferencial. Quando eu entrei na faculdade, ainda não existia a disciplina de jornalismo online disponível na graduação, mas essa questão já estava sendo pensada na pós-graduação. Como eu era bolsista de iniciação científica, tive acesso a livros e artigos e isso acabou fazendo com que eu seguisse pesquisado a área de tecnologias da comunicação, alem é claro do meu gosto pessoal como usuária. Tive blog desde 2001/2002.

Trajetória na Unisinos – Sou professora nos cursos de Jornalismo e Comunicação Digital e no PPG desde agosto de 2010. Gosto bastante da graduação e vejo que a experiência extraclasse vem se estreitando bastante em função das redes sociais. Elas funcionam como um canal para falar com os alunos e se pensar outras atividades. Hoje em dia, essas práticas se alternam e estimulam as pessoas a buscarem mais informações e trocas. Também procuro enfatizar a relação graduação-PPG apresentando a pesquisa para os alunos.

Religião – Fui batizada na Igreja Católica, e respeito os diferentes movimentos religiosos. Já fui como “observadora “ e curiosa em diversas religiões, mas desde muito cedo me identifiquei com o agnosticismo e o ateísmo. Gosto de ler sobre movimentos religiosos pelas questões histórica, filosófica e política.

Música – Gosto de rock. Tive até banda quando era adolescente,  mas não durou muito. Fiz aula de canto e sou irmã de músico erudito. Sempre gostei de sons mais pesados, até mesmo na musica erudita (como Mozart, Wagner e Bartok). Depois de um tempo, inclui também no meu cardápio a música eletrônica alternativa (como o industrial, o EBM e outras vertentes).

Lazer – Gosto de literatura de ficção científica, fantasia e terror, entre outros gêneros. Gosto de sair, ir a exposições, shows. Sempre que possível, viajo para ir a shows em São Paulo, Buenos Aires. Tento caminhar e já fiz aulas de artes marciais, mas nem sempre os horários permitem. No ano passado, pratiquei muaythai. Não continuei porque o horário deste semestre não fechou com o meu. Assistimos a lutas na TV (eu e meu marido) e gosto de jogar videogame. Também costumo sair para tomar café com minhas amigas. Gosto de assistir seriados; sou maníaca por informação. Por isso fui trabalhar com pesquisa, entretenimento. Meu pai sempre leu muito quadrinhos e isso me levou para outras leituras. Ele tinha uma coleção imensa de gibis e, quando faleceu, doamos alguns exemplares para o Museu de Comunicação. Sempre fui ligada nessas questões da cultura pop e gosto de enfatizar isso porque geralmente o tema é não é muito tratado pela Academia, embora isso venha mudando progressivamente.

Unisinos – A universidade está com os pés no presente, no contemporâneo e visa bastante o futuro. A Unisinos vive um momento interessante tanto para a pesquisa quanto para os alunos. A questão da tecnologia está cada vez mais presente e a universidade tem um diferencial em relação a outras instituições porque ela tem a filosofia de agregar as pessoas, fazer com que as informações circulem através dos veículos de comunicação como o JU e o IHU.

Os editais da FINEP, entre outros, provam a qualidade do trabalho que está sendo desenvolvido. Penso que a universidade também está passando por um processo de renovação de refletir e pensar as práticas. Minha chegada se deu nesse contexto em que estão ocorrendo mudanças e estou muito feliz com o trabalho aqui, principalmente pela proximidade com as pessoas.

IHU – O trabalho do IHU é importante e às vezes utilizo em aula algumas entrevistas e materias. Sigo o IHU via Twitter e Facebook e, quando possível, posto algo no meu blog. Antes de ser professora na Unisinos, eu já lia os conteúdos do IHU em função da preocupação que o instituto tem com a democratização do acesso à informação.

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