Edição 359 | 02 Mai 2011

Alternativas econômicas: minorias proféticas em debate

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Moisés Sbardelotto

Modelo surgido em São Paulo, Economia de Comunhão propõe que o lucro seja colocado em comunhão livremente. Inspiração vem de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares

No próximo dia 30 de maio, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promoverá um debate sobre alternativas econômicas eticamente reguladas com a presença de Stefano Zamagni, professor de Economia, na Universidade de Bolonha (Itália), e professor adjunto de Economia Política Internacional da sede italiana da Johns Hopkins University.

A conferência Economia de Comunhão e outras formas de Economia Social: Limites, Possibilidades e Perspectivas irá ocorrer das 19h30 às 22h, no Auditório Central da Unisinos, com entrada gratuita. O evento também ocorre por ocasião do aniversário de 20 anos, em 2011, da chamada Economia de Comunhão - EdC, um modelo de economia que nasceu na cidade de São Paulo, sob o impulso da comunhão dos bens, em que o lucro é colocado em comunhão livremente, a partir da experiência do Movimento dos Focolares e da inspiração de sua fundadora, Chiara Lubich. Assim, além dessa experiência, serão abordadas outras formas econômicas que visam à justiça e à equidade social, naquilo que se chama de “economia civil” ou solidária.

Zamagni é justamente um dos propositores do conceito de Economia Civil, uma visão econômica eticamente regulada em vista da justiça e da equidade social, e que pode incorporar outros princípios, como as relações humanas, a reciprocidade e a felicidade. É uma visão que concebe espaços no mercado que sejam lugares civis e civilizatórios e até mesmo de felicidade pública. Busca-se, por meio dela, remeter o “mercado” a uma concepção centrada no princípio da reciprocidade e das virtudes civis.

Por outro lado, sendo desde 2007 presidente da Agência para as Organizações Não Lucrativas de Utilidade Social - Onlus, Zamagni também é um dos maiores especialistas em Economia Solidária. A Onlus é uma entidade do governo da Itália que tem a função de vigiar, controlar, promover e prestar consultoria ao governo e ao parlamento do país em matéria de associações sem fins lucrativos.
Nesse sentido, para Zamagni, a Economia de Comunhão e demais formas de economia social e solidária são “minorias proféticas”. Segundo ele, “para atingir determinados objetivos de civilização e de progresso moral, além do econômico, é sempre preciso que exista uma minoria, em sentido numérico, que faz o papel de catalisador e de indicador do objetivo final para o qual tender. Quando esta minoria profética satisfaz certas condições no seu próprio agir, a sua mensagem é recebida pelos outros e produz aquela transformação lenta mas gradual no tempo, que leva a um avanço da sociedade”. Demais exemplos históricos citados pelo autor são a escola de pensamento franciscana, do século XV e o movimento beneditino a partir do ora et labora de São Bento.

O desafio, portanto, dessas formas econômicas diante do cenário capitalista neoliberal é, segundo Zamagni, manter o equilíbrio entre as duas forças e tendências: “Por um lado, aquilo que em termos econômicos representa a eficiência, ou seja, a capacidade de estar dentro do mercado sem subvenções. Por outro, a fraternidade, ou seja, a tradução no agir econômico do princípio da reciprocidade”. Com esse equilíbrio, desponta-se a minoria profética, que não cai nem no eficientismo, nem no fraternalismo.

Com um currículo extenso, Zamagni recentemente também ganhou destaque por ter sido um dos principais consultores e assessores do Papa Bento XVI na redação da encíclica Caritas in Veritate, publicada em 2009, acerca do “desenvolvimento humano integral”. Para o economista, o sentido profundo da encíclica foi justamente o de mostrar que “se o mercado continuar excluindo o princípio do dom, ele está destinado a implodir”.
Além de Bolonha, Zamagni já lecionou na Universidade de Parma e na Università Comerciale Luigi Bocconi, de Milão. Desde 1991, é consultor do conselho pontifício “Justiça e Paz” do Vaticano e, entre 1994-1995, foi membro do comitê de iniciação da Pontifícia Academia das Ciências Sociais. Desde 1999, é membro da New York Academy of Sciences, dos Estados Unidos. Em 2008, foi homenageado com o título de Cavaleiro-Comendador da Ordem de São Gregório Magno, uma das cinco ordens pontifícias da Igreja Católica, criada em 1 de setembro de 1831, pelo Papa Gregório XVI. Em 2010, recebeu o título de doutor “honoris causa” em economia da Universidade Francisco de Vitoria, de Madri (Espanha).

É autor de inúmeros livros, dentre os quais destacamos Microeconomia (Ed. II Mulino, 1997) e Profilo di storia del pensiero economico (Ed. Nuova Italia Scientifica, 2004). Seu livro Economia Civil: Eficiência, Equidade e Felicidade (Ed. Cidade Nova), publicado em português em 2010, de coautoria de Luigino Bruni, será lançado no dia de sua conferência na Unisinos.

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