Edição 359 | 02 Mai 2011

Mães-guardiãs, até quando?

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Anelise Zanoni

Para a psicóloga e doutora em Psicologia Luciana Grzybowski, cada vez mais busca-se questionar a ideia de que a mãe é a melhor cuidadora dos filhos após a decisão do divórcio

O relacionamento conjugal terminou, mas os filhos permanecem com o mesmo pai e mãe. O laço parental que os une como família faz com que homens e mulheres ainda tenham a responsabilidade de cuidar da prole. Entretanto, na atual perspectiva, não é privilégio (ou obrigação) da mãe ficar com a guarda das crianças.

Em um debate reflexivo sobre os novos papéis, a psicóloga e doutora em Psicologia Luciana Grzybowski levanta a possibilidade de questionar a ideia de que a mãe é a melhor cuidadora das crianças. “Isso faz parte do mito do amor materno e de todas as representações e práticas sociais relativas às questões de gênero de nossa sociedade patriarcal, mas não é uma realidade totalizante”, disse em entrevista por e-mail à IHU On-Line.
Para ela, é possível ver hoje mulheres que se queixam menos da condição de guardiãs e pais que sentem-se mais culpados pela separação, “o que mostra que a antiga dicotomia mulheres vítimas versus homens vilões não pode ser tomada como regra”.

Além da possibilidade cada vez mais comum da divisão de tarefas, a mulher também se depara com uma jornada múltipla de trabalho, o que faz da expectativa de maternidade um mito social. “Na tarefa de ser mãe, a mulher encontra expectativas de exclusividade e perfeição, o que atrelado à jornada de trabalho e exigências da carreira, com consequente transferência dos cuidados dos filhos para terceiros (avós, babás, escolas) e redução do tempo de convívio com os mesmos, pode gerar um sentimento de falha ou falta na tarefa parental”.

Graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Luciana Grzybowski é mestre em Psicologia Clínica e doutora na mesma área. Atualmente, realiza pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e é professora colaboradora da Universidade Comunitária da Região de Chapecó – Unochapecó.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Na realidade, é cada vez mais comum ver mães e pais vivendo papéis diferentes após o divórcio. As mães, no geral, estão mais satisfeitas com questões relacionadas à guarda ou seguem se sentindo culpadas pela separação?

Luciana Grzybowski -
Respostas generalistas sempre são difíceis em questões tão complexas como o divórcio ou a parentalidade. As mulheres seguem ficando maciçamente com a guarda dos filhos, o que, pela coabitação, traz uma sobrecarga maior nas tarefas educativas. Entretanto, muito mais pais estão obtendo ou buscando a guarda dos filhos, e cada vez mais busca-se questionar a ideia de que a mãe é a melhor cuidadora dos filhos. Isso faz parte do mito do amor materno e de todas as representações e práticas sociais relativas às questões de gênero de nossa sociedade patriarcal. Não é, porém, uma realidade totalizante. Também vemos mães que se queixam menos da condição de guardiãs e pais que se sentem mais culpados pela separação, o que mostra que a antiga dicotomia mulheres vítimas versus homens vilões não pode ser tomada como regra. Existem pais não residentes mais envolvidos com os filhos, bem como mães abrindo mão da guarda pós-divórcio.


IHU On-Line – A literatura aponta que é necessário separar conjugalidade e parentalidade quando os pais se divorciam. Como fica a redefinição do papel da mãe nesses casos?

Luciana Grzybowski -
Realmente, as pesquisas recentes apontam a necessidade de separar a conjugalidade da parentalidade após o fim do casamento. O laço conjugal terminou, mas o laço parental segue unindo os pais na tarefa do cuidado dos filhos. Entretanto, essa separação não é tarefa simples, uma vez que envolve várias questões da conjugalidade que precisam ser superadas para dar conta da tarefa parental. Existência de vínculos amorosos, dificuldades de comunicação, excesso de conflitos, insatisfação com as questões financeiras, da guarda e das visitas, são algumas questões que podem prejudicar o exercício da coparentalidade – que é o nome dado para o exercício compartilhado do cuidado global da criança após o divórcio. Isso pode resultar em boicotes, discórdias, desrespeito e hostilidade entre os ex-companheiros, e, infelizmente, muitas vezes corrompe a fronteira da relação pais/filhos, havendo a triangulação, que se refere à aliança com os filhos contra o outro progenitor, boicotando ou excluindo-o da relação parental. O extremo patológico disso é a alienação parental.


IHU On-Line – Em sua opinião, a culpa ainda persegue as mães? Existem novas definições atreladas nesse sentimento?

Luciana Grzybowski -
O ditado popular diz que a culpa é a melhor amiga da mãe. Isso está muito atrelado a todos os papéis que a mulher tem de assumir e todas as exigências que lhe são colocadas no desempenho dos mesmos. Esposa, dona de casa, mãe e profissional, entre outros, conferem à mulher uma jornada múltipla de trabalho, sendo que a expectativa da maternidade ainda é um mito social. Na tarefa de ser mãe, a mulher ainda encontra muitas expectativas de exclusividade e perfeição, o que atrelado à jornada de trabalho e exigências da carreira, com consequente transferência dos cuidados dos filhos para terceiros (avós, babás, escolas) e redução do tempo de convívio com estes, pode gerar um sentimento de falha ou falta na tarefa parental. Mas isso não é uma regra ou um sentimento permanente. Trata-se de uma relação dinâmica. E cada vez mais se pensa na qualidade e nos níveis de saúde das relações, não somente no tempo de convivência. Ainda temos que pensar e estudar mais o fenômeno do desenvolvimento infantil com pouca ou escassa convivência parental, até mesmo para desmistificar algumas crenças.


IHU On-Line – Educadores debatem a questão sobre a falta de limites na vida das crianças e constatam que parte do comportamento deve-se ao fato de a mãe estar ausente e de ser permissiva. Você acredita que o problema seja cada vez maior no futuro?

Luciana Grzybowski -
Acho perigoso e tendencioso culpar somente as mães pelos problemas de comportamento dos filhos. As relações familiares e sociais vêm mudando de forma geral, acarretando transformações em vários âmbitos. A questão da falta de limites é polêmica, controversa e multifacetada. A tarefa educativa é processual, gradativa e permanente, exigindo dos educadores persistência e paciência. Muitas vezes, por diversos fatores, de âmbito pessoal ou contextual, isso não é possível, havendo negligência no papel educativo, com excesso de permissividade. Muitos pais acreditam que a regra ou a privação de algo para o filho pode ser danoso. Mas, ao contrário, em níveis toleráveis, ela é formadora, estruturante e sinal de demonstração de cuidado.


IHU On-Line – Qual o papel da mãe, hoje, como educadora das crianças?

Luciana Grzybowski -
Há poucas décadas, o papel da mulher estava atrelado à maternidade, ou seja, ela nascia para o casamento e procriação. Hoje, abrem-se novos horizontes e possibilidades para as mulheres, sendo a maternidade um destino não mais obrigatório. Porém, aquelas mulheres que escolhem ou vivenciam a maternidade, a partir de todas as conquistas da contemporaneidade (métodos contraceptivos, trabalho e renda, voto, políticas públicas e sociais), têm novas possibilidades neste exercício. Hoje a mulher encontra realizações (e também frustrações) em outros âmbitos de sua vida, como o trabalho e carreira, a vida sexual-amorosa, a política, a cultura, etc., o que certamente a enriquece como cidadã e como educadora. A mãe segue sendo uma figura fundamental na vida da criança, como cuidadora e provedora das necessidades essenciais, tanto do ponto de vista físico quanto emocional. Mas este papel não é exclusivo da mulher e nem mesmo da mãe em si, podendo ser assumido por outras pessoas que possam exercer esse papel de cuidado, proteção, afeto e educação. A função da família, de forma geral, segue sendo um alicerce básico na constituição do sujeito, fonte de inspiração para as demais relações sociais que se sucedem, podendo tanto ser fator de risco quanto fator de proteção do sujeito.


IHU On-Line – Você destaca em suas pesquisas que algumas mulheres não dependem financeiramente dos homens e, em casos de divórcio, têm mais autonomia na parentalidade. Como o fator econômico muda o comportamento?

Luciana Grzybowski -
Em minha tese de doutorado um resultado interessante que surgiu foi este: as mulheres divorciadas com melhor condição econômico-financeira sentiam-se autorizadas a tomar decisões na tarefa educativa sem consultar o ex-companheiro. Diziam: “Se sou eu que vou pagar a escola e ele está desempregado, não tenho por que consultá-lo pra discutir a troca de escola do nosso filho. Eu vou lá, troco e simplesmente comunico, ele não tem direito a opinar”. Embora represente uma atitude que evidencie uma mudança no papel feminino, um empoderamento, não só entre as mulheres separadas, mas também entre aquelas casadas que ganham mais que o marido, por exemplo, isso no âmbito das relações familiares pode ser perigoso. A coparentalidade implica compartilhar ações e projetos para com os filhos, sendo que um fator importante é respeitar e valorizar o outro ex-cônjuge, a fim de favorecer sua interação e manter seu lugar no papel parental. Dessa forma, optar por uma decisão unilateral numa tarefa educativa tão importante como esta (educação) tende a gerar conflitos e a enfraquecer o progenitor excluído, o que certamente não favorece a parentalidade.


Leia mais...

Confira outras entrevistas concedidas sobre parentalidade e divórcio e publicadas pela IHU On-Line:

• O gênero como norma e fonte de subversão e resistência. Entrevista especial com Márcia Arán, publicada em Notícias do Dia

• É possível divórcio sem traumas. Entrevista com Karina Toledo, publicada em Notícias do Dia de 02-05-2010

• A falta do pai é sempre prejudicial. Entrevista especial com Rubens de Aguiar Maciel, publicada em Notícias do Dia de 14-04-2010

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