Edição 359 | 02 Mai 2011

Depoimento

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Márcia Junges

Mãe de cinco filhos, a índia guarani Teodora Souza se desdobra entre a vida na aldeia de Jaguapiru, em Dourados-MS, e a sala de aula na Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande-MS, onde cursa mestrado em Educação. Graduada em Pedagogia, é membro da comissão que discute e encaminha as questões da educação escolar indígena. No depoimento que concedeu por telefone à IHU On-Line, ela reflete as lutas de seu povo e das mulheres, especificamente, apontando os avanços e os entraves dessa relação. “O maior desafio em ser mulher, mãe e indígena no Brasil é conseguirmos chegar a uma situação em que todas nós sejamos reconhecidas pela sociedade não indígena de que somos pessoas capazes”. O que falta são oportunidades, acentua. Confira o depoimento.

Maternidade

“Meus cinco filhos já nasceram no hospital. Moramos na reserva indígena de Jaguapiru, localizada no município de Dourados. A reserva fica praticamente encostada na cidade. É uma questão de cinco minutos de distância entre a aldeia e a cidade. Do outro lado de Dourados tem o município de Itaporã. As condições de sobrevivência do nosso povo são diferentes em relação a outros lugares onde ainda há mata. Para você ter uma noção, na reserva em que vivemos, o total de área é de 3.539 hectares para uma superpopulação de aproximadamente 13 mil indígenas. Se fizermos as contas, isso dá 0,03% de terra indígena para cada pessoa. É inviável. Não tem mais mata. Não tem mais nada disso. O povo apenas sobrevive dentro das aldeias.

Em relação aos costumes, o que mantemos com mais força é o idioma guarani-kaiowá. Alguns poucos índios que vivem na aldeia conservam a língua. A dança, a pintura e as festas tradicionais comemoradas na semana dos povos indígenas. Mas muitas coisas já mudaram”.


Saúde e educação

“Doenças mais leves como diarreia e dor de cabeça tratamos com a nossa medicina, usando plantas para curar. Mas se forem doenças mais sérias como pneumonia, problemas de pressão e coração, recorremos à medicina do não índio.

Existe a educação indígena, transmitida pela família, mas são poucas famílias que conservam a tradição dos nossos antepassados. A maior parte das crianças recebe outro tipo de educação. Mas temos também a educação escolar indígena. Há sete escolas que atendem as comunidades indígenas da reserva e a educação tem buscado fortalecer a história indígena, a arte, a pintura, nossos valores e idioma. Até agora isso ainda é frágil, porque, de acordo com a mudança da gestão pública do município, há educação escolar indígena, ou não. Infelizmente, nossa realidade é essa. Apesar dessa situação, há um grupo bom de professores que sempre busca, discute e ‘briga’ com os órgãos públicos, cobrando essa educação escolar diferenciada, que já tínhamos iniciado há dez anos atrás. É importante mantermos essa educação para fortalecermos nossa identidade, conhecer nossa história. A educação é um instrumento fundamental de fortalecimento de toda nossa cultura em seus diferentes aspectos”.


Mãe estudante

“Sou graduada em Pedagogia e mestranda em Educação na UCDB. Estou iniciando o curso. Sou mãe de cinco crianças. Nessas circunstâncias, tem que ter muita compreensão e apoio da família para poder estudar. Meus filhos me apoiam, assim como meu marido. Eles acham que hoje, inclusive para garantir a nossa sobrevivência é importante estudar, porque nós sempre estamos reivindicando terras para termos condições de produzir. Mas no nosso estado isso é muito complicado. Estamos reivindicando essas lutas há mais de 20 anos. Pedimos as nossas terras e não conseguimos. Por isso, o estudo é uma alternativa de sobrevivência e também de melhoria de condições de vida da nossa comunidade. Apesar de ter filhos e família e estar estudando, sou membro do movimento de educação escolar indígena. Hoje, temos em torno de 350 professores guarani-kaiowá em nosso estado. Faço parte dessa comissão que discute e encaminha as questões da educação escolar indígena.

É importante conversarmos com nossas lideranças na aldeia, como o cacique, e comunicar a nossa vontade de estudar, como foi o meu caso. Não existe mais uma “autorização” que temos que receber para poder estudar. O que ocorre é uma discussão na comunidade sobre o fato de que muitos estudantes saíram da aldeia e não voltaram para contribuir com seu povo depois que concluíram seus cursos. Hoje, colocamos a discussão de uma política de diálogo com as lideranças. Para fazer o curso de magistério com licenciatura indígena, requer-se esse apoio das lideranças indígenas. Queremos valorizar nossas lideranças”.


Apoio da família

“Na minha aldeia, fui a primeira mulher casada, com filhos, a enfrentar uma faculdade. Depois de mim, muitas outras mulheres começaram a estudar, fizeram ensino fundamental e médio (que hoje temos na aldeia). Fiz parte dessa luta de trazer o ensino fundamental para dentro de nossa comunidade. Hoje, muitas mulheres indígenas estão estudando na universidade, se profissionalizando. Também temos mães que não estudam por falta de condições, porque moram longe. Há outras mães que trabalham e outras que ficam em casa cuidando dos filhos. Essas são as situações que ocorrem aqui na Reserva.
As mulheres que são mães, donas de casa e que estudam têm o apoio e aceitação dos maridos. Hoje, a mulher indígena na aldeia em que moro trabalha muito. Algumas são enfermeiras, outras são professoras, agentes de saúde. Essas mulheres concluem os estudos ao mesmo tempo em que estudam. Para isso, precisam de apoio, e por seu lado elas também estão dando apoio às suas famílias. Mas é bom dizer que essas mulheres que estudam ainda são minoria.”


Respeito e oportunidades

“Dentro da universidade estou achando muito interessante o diálogo entre a cultura do não índio com a nossa. Nós temos a nossa cultura, história, movimentos, lutas e cosmovisão. Temos trazido para o espaço da academia esses aspectos da nossa cultura para discutir. Por outro lado, temos acesso aos conhecimentos produzidos pela universidade. Está havendo, sim, um diálogo de saberes e conhecimentos. Pelo menos onde estudo, percebo isso. Outra questão importante é a oportunidade de falar, de ser ouvido e produzir conhecimento a partir das nossas referências e ponto de vista.
O maior desafio em ser mulher, mãe e indígena no Brasil é conseguirmos chegar a uma situação em que todas nós sejamos reconhecidas pela sociedade não indígena de que somos pessoas capazes. O que nos falta é oportunidades. Queremos ver nossos direitos respeitados, porque diariamente vários deles são violados pelo preconceito e discriminação. Esperamos que nossos filhos e netos encontrem um mundo melhor. Essa é a razão pela qual nós, mães e índias, estamos na luta”.

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