Edição 359 | 02 Mai 2011

Depoimento

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges e Stefanie Telles

Um testemunho emocionante de coragem, força e determinação. Assim é o relato concedido pela índia kaiowá Valdelice Veron, por telefone, à IHU On-Line. No intervalo das aulas do curso de Ciências Sociais, da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, no Mato Grosso do Sul, essa mãe de três meninas contou aspectos de sua história de lutas, recordou o assassinato de seu pai, cacique Marcos Veron , a pedido do fazendeiro Jacinto Honório da Silva Filho. O crime, cometido por Nivaldo Alves de Oliveira, calou fundo na alma da comunidade. Os ensinamentos do pai continuam presentes, assegura Valdelice, que reflete, também, sobre a força da mulher kaiowá nos desafios que surgem a cada dia. Com formatura marcada para este mês de maio, Valdelice ressalta que o que seu povo precisa é de respeito e dignidade. Confira o depoimento.

Maternidade

“Sou mãe de três meninas: uma de 15 anos, outra de 13 e a mais nova tem 2 anos. Minha aldeia é a Taquara, mas no momento vivo em outra aldeia, a Guapiru, porque sou professora e dou aulas. Quando vivia, meu pai, cacique Marcos Verón, fez um acordo com outro cacique sobre o meu casamento. Então fui entregue ao Natanael, que é meu marido. Eu tinha 14 anos. Logo após o casamento fui viver na aldeia Bororo, no município de Dourados-MS. Na aldeia todo mundo cuida da grávida, o que ela pode comer, o que não pode, o que o homem pode ou não fazer durante a gravidez da mulher. Todo mundo se envolve. Para mim, foi bastante interessante porque meu marido é guarani e eu sou kaiowá. O homem kaiowá se resguarda no dia em que a esposa ganha o nenê. Os guarani, não. Eles é que fazem tudo dentro de casa. Para a minha família o meu casamento tratou-se de uma união política, uma vez que era entre kaiowá e guarani. Foi uma aliança política”.


Memória de lutas

“O parto da minha primeira filha foi feito pela minha mãe. A segunda já nasceu no hospital, e a terceira nasceu na aldeia. Nasceu no caminho da aldeia do meu marido, porque estava chovendo muito e a estrada estava ruim. Quando cheguei ao hospital ela já tinha nascido.

Procuro manter e mostrar para minhas filhas as nossas tradições. Minha filha mais velha já está no ensino médio e quer fazer medicina. Vou me realizar vendo minha filha médica, porque isso era uma coisa que eu gostaria de ter sido. Como meu pai dizia, o maior alicerce é a família.

Na escola ensinaram que a América foi descoberta. Não foi bem assim, não. A gente sabe que foi muito além disso; foi uma luta. Foi o encontro de dois mundos. Quando se fala em encontro, pensa-se numa coisa pacífica, mas não foi isso que aconteceu. Nosso mundo indígena foi destruído, houve choques e lutas, resistências de nossos antepassados. Isso eu passo para minhas filhas, elas têm que saber dessa história. Fiz uma pesquisa para saber do passado da minha família. Meu tataravô, bisavô, avô e meu pai foram todos mortos por latifundiários, grileiros de terra. Eu conto para minhas filhas essa história. Não é para elas terem medo ou ficarem caladas. Lógico que têm momentos em que temos que recuar, ficar quietos, mas é preciso mostrar que somos um povo que tem que ser reconhecido em sua dignidade e direitos”.


Medicina indígena

“Têm ensinamentos diferentes que eu passo para cada uma das minhas filhas. Elas têm idades diferentes, e são momentos diferentes. Tento passar todos os princípios básicos da educação indígena para elas. Muitas pessoas confundem os princípios da educação indígena com os princípios da educação escolar indígena. Uma coisa é totalmente diferente da outra.
Eu procuro usar mais os remédios tradicionais. Mas agora estou tomando um remédio para não ter filhos. Estou estudando para entrar no mestrado, então quando eu quiser ter outro filho vou parar de tomar. A folha da dipirona a gente prepara em infusão e pode tomar até dois ou três litros. Já a dipirona pequena que vem da farmácia em comprimido nós não podemos tomar muito, porque aí dá piripaque”.


História de família

“Estudar era um sonho meu e da minha família. Queriam que eu estudasse Direito. Cheguei a fazer o curso por três anos. Quando meu pai foi assassinado, discuti feio com um professor da Universidade Estadual aqui do Mato Grosso, que não respeitava os índios. Depois fui me interessar pela minha história. Falei para um professor que eu queria escrever a história da minha família, mas o meu pai não gostou. Eu estava escrevendo a minha monografia e fui falar com meu pai na beira da estrada, onde ele e todo meu povo foram jogados em despejo. Ele me contou toda a história da minha família. Isso me levou a querer saber ainda mais. Por exemplo: de onde vinha esse sobrenome Verón? Quem foram meus antepassados? Descobri que nosso sobrenome veio de um argentino que escravizava os índios e eles iam sendo registrados com o sobrenome dele. Agora estou estudando para fazer Antropologia”.


Respeito e dignidade

“Os professores indígenas procuram ter um bom relacionamento, pelo menos os kaiowá-guarani. Um vai na casa do outro. Mas não é fácil, não. Minhas filhas cresceram no ‘magistério’, na faculdade comigo. Meu marido também estudou, fez faculdade de Biologia. A gente se apoia. Estamos nessa luta, ajudando nosso povo na fala, na escrita. Tem perseguição muito forte contra nosso povo, tentaram queimar nossas casas, tivemos que ir embora. Recuamos e depois enfrentamos. Assim vamos vivendo. A luta continua.

O maior desafio de ser mulher, mãe e índia no Brasil é ser respeitada como uma liderança. Isso acontece na aldeia, mas na cidade não é a mesma coisa. Para a mulher é tudo muito difícil. Uma vez fui para uma convenção em São Paulo, onde havia desembargadores a respeito do julgamento do meu pai. Fui levar minha filha pequena junto. No tribunal disseram que não podiam entrar crianças. Como eu deixaria minha filha lá fora, sozinha? Argumentei que eu tinha vindo em nome do meu povo. O guarda disse que ela tinha que ficar do lado de fora. Conversei com o desembargador e a juíza. E essa juíza ainda queria que minha mãe desse depoimento em português.

Além disso, têm os olhares estranhos que recebemos, inclusive dentro das igrejas. Quando nossa filha fala alto em nossa língua, ou dá uma risada, as pessoas ficam todas olhando. Nosso povo tem uma caminhada longa pela frente, para mostrar para o não índio que queremos ser respeitados, ter um pouco de dignidade. Esses pequenos gestos para nós são uma afronta, uma situação difícil de suportar”.


Diálogo intercultural

“Outra luta que travamos é a forma como se dá o diálogo entre a cultura indígena e a do não índio dentro da universidade. Conseguimos ser mais ouvidos com a Constituição Federal de 1988, para que tivéssemos um lugar dentro do ensino. Quando terminei o magistério indígena, eu e outros colegas começamos a pensar em fazer uma faculdade. Mas como? Como seria isso? Passei no curso do Direito, mas quando comecei a estudar, tinha muita coisa que eu não conseguia entender. Eu vi que os professores não indígenas não estavam preparados para receber acadêmicos e líderes indígenas dentro da academia. Fizemos um projeto e apresentamos na universidade, mas não fomos compreendidos e não houve um diálogo. Mais tarde procuramos o ministro da Educação e com ele trocamos ideias. Procuramos, então, o reitor da UFGD e passamos a nos entender. Foram criados cursos que nos diziam respeito em áreas como Matemática e Biologia, por exemplo. Assim começou a ser construído um projeto político pedagógico específico. Tivemos muitas discussões, sem dúvida, mas nós, enquanto acadêmicos, conseguimos dizer como queríamos que fosse esse projeto. Até o regimento da universidade foi alterado em função de nossas lutas. Foi uma conquista. Nossa formatura está marcada para este mês de maio”.


A força feminina

“A mulher kaiowá é muito forte. O amor ao trabalho, à vida comunitária, o apoio mútuo e harmonia com o povo e a natureza são nossas características. Temos ainda uma música e cultura muito ricas. A nossa luta como mulheres é importante. Os homens às vezes têm um pouco de medo quando são convidados para uma viagem longe, como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília. Já as mulheres colocam o filho no ônibus e vão embora. Temos o respaldo dos maridos para isso. A mulher é muito forte. Na verdade, as mulheres são fortes em geral. São lutadoras, guerreiras, nascemos com isso. A dor nasce conosco, está no nosso sangue. E a mulher kaiowá é ainda mais forte. Há poucos dias estava pensando nos ensinamentos do meu pai. Entrei no Google e digitei sobre a morte dele. Encontrei alguma coisa como ‘matamos o zangão’. E eu prontamente respondi na internet: ‘Mataram o zangão, mas esqueceram as rainhas’. Não sei para quem foi o recado, mas eu escrevi”.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição