Edição 359 | 02 Mai 2011

Reviver a infância é viver a maternidade

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Anelise Zanoni

Para o psiquiatra Celso Gutfreind, as mulheres constroem a própria identidade como mãe baseadas em relações de afeito e nas experiências da própria infância

Uma mãe que usa a renúncia para construir o próprio destino e que precisa encarar um papel cada vez mais difícil na sociedade é o perfil atual da mulher que opta por ter filhos, diz o psiquiatra Celso Gutfreind. Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, o especialista defende que a preparação para a maternidade ocorre no começo da própria infância, quando se fortalecem os laços entre mãe e filha na relação. É lembrando-se de atitudes da mãe que a gestante ou essa nova mulher começam a construir sua própria identidade diante dos filhos.

“Afetivamente, a mãe segue sendo este primeiro encontro, fonte primeira e talvez a maior da constituição do sujeito”, explica Gutfreind.

Além de falar na construção materna, o médico acredita que a narrativa ajuda a acirrar os laços afetivos com os filhos e é “um dos poucos canais de troca” nessa relação primária. “É preciso trocar, interagir. Além dele, têm o olhar, o toque, pouco mais do que isto, e estes estão envolvidos na narração. Narrando, a mãe banha o seu filho de prosódia e sentidos, melhora a qualidade da interação e abre espaços duradouros para a saúde mental”, diz.

Formado em Medicina pela Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (1987), Celso Gutfreind é especialista em Psiquiatria da Criança e do Adolescente pela Université Paris-Descartes (2001) e doutor em Psicologia pela Université de Paris XIII (Paris-Nord) (2000). Em 2001, concluiu pós-doutorado pela Université Pierre et Marie Curie (2001). Entre seus livros, destaca-se Narrar, Ser Mãe e Ser Pai (Editora Bertrand Brasil, 2010). Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como é possível explicar o atual papel da mãe dentro da família?

Celso Gutfreind – A realidade tornou-se mais complexa, e esta complexidade segue mudando muito rápido. Muito ficou do papel tradicional da mãe, mas percebemos também muitas transformações. Afetivamente, a mãe segue sendo este primeiro encontro, fonte primeira e talvez a maior da constituição do sujeito. A complexidade implica em que, em alguns contextos sociais, ela está mais sozinha, o pai ausente. Em outros, recebe o apoio deste pai, o que é decisivo. Em todos, foi à luta, trabalha e é muito cobrada culturalmente. Com frequência, paga este preço com renúncias (familiares ou profissionais) ou depressão pós-parto. Seu papel está mais difícil, a meu ver.

IHU On-Line – As mulheres postergam a hora de ser mãe e dão prioridade à carreira. Quando chega o momento de dar a luz, há a sensação de perda de identidade?

Celso Gutfreind – Este é um ponto-chave, um dos principais desafios da maternidade (e da paternidade). Como tudo, não há receitas. A preparação para a maternidade ocorre no começo da própria infância, na relação com a própria mãe. É lembrando-se da mãe que teve que ela terá de se defrontar nesta hora. A matriz de apoio (marido, mãe, amigos, a turma toda) é essencial. Espaços terapêuticos como terapia, cinema, literatura e vida social também colaboram.

IHU On-Line – Qual a importância do aspecto narrativo na construção do papel de mãe?

Celso Gutfreind – A narratividade é um dos poucos canais de troca entre a mãe e o bebê. É preciso trocar, interagir. Além dele, têm o olhar, o toque, pouco mais do que isto, e estes estão envolvidos na narração. Narrando, a mãe banha o seu filho de prosódia e sentidos, melhora a qualidade da interação e abre espaços duradouros para a saúde mental.

IHU On-Line – Você acredita que parte dos problemas que as mães enfrentam em relação à educação dos filhos tem a ver com a falta de diálogo?

Celso Gutfreind – Também. Somos seres sedentos de sentido, compreensão, sedentos do outro. A cultura aqui atrapalha mesmo. As novas tecnologias trouxeram muitos benefícios, mas reduziram o diálogo corpo a corpo, olho a olho, necessários para a construção de nossa subjetividade e saúde.

IHU On-Line – Atualmente, é cada vez mais comum casos de mulheres que pagam barrigas de aluguel. Quais efeitos esse tipo de gestação traz para a relação entre mãe e bebê?

Celso Gutfreind – Tudo é muito novo, e ainda não sabemos bem. Por um lado, perde-se a interação direta durante os meses de gestação, cada vez considerados mais decisivos. Por outro, sempre há tempo de recuperar e estamos sempre prontos para relançarmos.

IHU On-Line – Na ânsia de viver o papel de mãe, muitas mulheres esquecem que têm um relacionamento a dois, com o pai da criança. As motivações das novas mães mudaram em relação ao casamento?
Celso Gutfreind – Acho que para melhor, aqui os aspectos culturais colaboram, a meu ver. Com a independência, a autonomia, a emancipação, as motivações das mulheres podem se tornar mais afetivas, amorosas. Entrar num relacionamento realmente para criar um vínculo afetivo e verdadeiro entre duas pessoas. Assim, quando vier a criança, ela pode sentir que é fruto de um amor vibrante e pode estar a três. Não sabemos bem por que, mas isto é importante.

IHU On-Line – Ser mãe adotiva pode ser a alternativa para mulheres que desejam investir mais no mercado de trabalho? Qual o papel delas na realidade atual?

Celso Gutfreind – Penso que, de forma premeditada, cria-se uma representação mais negativa, menos estruturante para a narrativa da criança. Se natural, nenhum problema. No fundo, somos todos adotados, já que nossos pais biológicos um dia (durante a gestação ou depois) tornaram-se afetivos. No fundo, quando vai bem, todos adotam.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição