Edição 358 | 18 Abril 2011

Claudio Pereira Elmir

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Márcia Junges e Anelise Zanoni

A trajetória de vida da família sírio-libanesa, que chegou ao Rio Grande do Sul no início do século XX, inspira parte dos estudos e da formação do professor de História Cláudio Pereira Elmir. Natural de Porto Alegre, ele reconhece em autores que falam da imigração um pouco de sua própria história. Com os estudos e a experiência de vida, o professor formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS iniciou a docência aos 22 anos. Cursou mestrado e doutorado em História na mesma instituição e, desde 1989, é professor da Unisinos, onde hoje atua na graduação e pós-graduação. Sua pesquisa atual trata de narrativas de ex-exilados políticos do período das ditaduras civil-militares na América do Sul.
Cláudio Elmir

Origens - Nasci em Porto Alegre, cidade em que minha família mora. Pertencemos a um núcleo familiar pequeno: meu pai é filho único e minha mãe tem apenas um irmão, que vive em Santa Catarina.
Atualmente, a família é composta por minha avó, minha mãe, meu pai e duas irmãs. Recentemente, uma pessoa muito especial, o Volnei, se incorporou à nossa família e vive comigo há pouco mais de três anos.
Pelo lado paterno, somos de origem sírio-libanesa e com tradição de pequenos comerciantes. A partir da minha geração e a das minhas irmãs, cessou esta trajetória. Meus avós são filhos de imigrantes que chegaram ao Brasil durante a I Guerra Mundial.

Passei a infância em Porto Alegre, no bairro Azenha. No local onde os meus bisavôs moravam, uma propriedade da década de 1920, vive a minha avó, de 88 anos, atualmente na companhia dos meus pais. Não é mais a mesma casa, mas é o mesmo lugar. Para mim, isto é muito significativo. Até hoje é mantida na calçada uma pequena rampa de pedras, por onde entrava meu bisavô de carroça.
Lembro de, na infância, conviver bastante com minha irmã mais velha, que hoje, aos 45 anos, é funcionária do TRT, e que nos deu uma linda e inteligente sobrinha. Minha irmã mais nova nasceu quando eu tinha 16 anos. É quase uma filha para mim, e hoje, aos 28, trabalha na Caixa Econômica Federal.


Escolha profissional - Sempre tive muito interesse pela disciplina de História no colégio. Acho que pelo fato de ter boas professoras na época. Entretanto, tinha muita dúvida sobre qual carreira seguir quando fiz o vestibular. Optei por tentar História na UFRGS e Direito na PUCRS. Também cogitava o Jornalismo.

Passei nos dois vestibulares, mas escolhi estudar História. O interessante é que, ao longo da minha formação, dei-me conta que aproximei as três áreas. No mestrado, trabalhei com o discurso sobre o crime na imprensa, articulando a História ao Jornalismo e ao Direito. Estudei o jornal “Última Hora”, o antecessor da “Zero Hora”.  No doutorado, também trabalhei com crimes, especificamente com os famosos crimes da Rua do Arvoredo, ocorridos em Porto Alegre na segunda metade do século XIX.


Mercado de trabalho - Na verdade, a profissão de historiador não é regulamentada, mas existe a profissão de professor. Embora tenhamos o bacharelado, o campo é relativamente restrito, com algumas vagas em arquivos e museus. Além disso, tem aumentado o campo de oportunidades, porque surgem memoriais na Justiça, principalmente em locais como Tribunais de Justiça, Ministério Público. Nessas áreas podemos construir a história das instituições e de seus membros. São poucas as pessoas, porém, que conseguem ter inserção nas histórias institucionais.

Também há possibilidade de escrever sobre grandes empresas ou indústrias que querem registrar a própria trajetória e que buscam contratar historiadores para este trabalho. No entanto, há, nestes casos, um inevitável comprometimento com a empresa, e o historiador não pode ter tanta autonomia no seu ofício.


Vida acadêmica - Toda minha trajetória acadêmica se deu na UFRGS. Entrei na graduação em 1985 e, quando me graduei ingressei imediatamente no mestrado e, depois, no doutorado. Considero minha formação pouco diversificada porque estive sempre na mesma instituição, o que não é recomendado. Entretanto, esta foi a trajetória que eu cumpri, e da qual tenho alguns motivos para me orgulhar.
Quando terminei a graduação, fui imediatamente contratado pela Unisinos, em 1989. Na época, tinha 22 anos, tendo sido o meu primeiro emprego. Fiquei na instituição durante um ano e meio e fui demitido em agosto de 1991, durante um momento de crise aguda da universidade. Em seguida, fui contratado pela Ulbra e, em 1993, me chamaram novamente para trabalhar na Unisinos. Consegui trabalhar nas duas universidades até o ano 2000, quando optei apenas pela Unisinos para poder me dedicar ao doutorado, o qual concluí no final de 2002.


Momentos distintos - Considero que tenho duas casas, a UFRGS e a Unisinos. A primeira delas porque fiz toda minha formação lá e sou querido pelos colegas, que no passado foram meus professores, e pelos atuais professores, que antes foram meus colegas de aula.  A Unisinos também é a minha casa, porque é o meu primeiro emprego, onde passo a maior parte do dia, e porque posso ter orgulho de aqui trabalhar. Em 2007, o Curso de História sediou o mais importante congresso científico da área no país e creio ter sido o maior evento promovido pela UNISINOS, reunindo, em pleno recesso de julho, mais de cinco mil pessoas (pesquisadores, professores e alunos) no câmpus. Até hoje temos a repercussão positiva deste simpósio nos mais diferentes recantos do Brasil. Acho que a instituição mudou muito nestes últimos anos e está cada vez mais em busca da seriedade acadêmica. Este fenômeno é muito visível, especialmente na pós-graduação. Os momentos difíceis dentro da instituição coincidiram com situações de crise econômica. Hoje, o contexto é outro. É difícil, por exemplo, pensar na contratação de um professor que tenha apenas a graduação, como acontecia até a década de 1980. Atualmente, os processos de gestão da universidade são mais profissionalizados e os controles são múltiplos.


Esportes e lazer - Sou bastante sedentário, mas gosto muito da praia e temos uma casa em Rainha do Mar, que é uma espécie de refúgio para a gente respirar. Vou à praia o ano todo, gosto de caminhar, ler, curtir a casa. Gosto das atividades que fazemos na praia e dos encontros familiares que ocorrem por lá. Reunir primos e criar momentos gastronômicos é muito bom. Cozinho um pouco, sei fazer coisas triviais, mas as faço especialmente na praia. O Volnei é muito melhor do que eu neste ponto.

Também visito minha família em Porto Alegre todos os finais de semana, porque decidi morar em São Leopoldo há cerca de quatro anos, já que passo quase todas as tardes e algumas noites trabalhando na Unisinos. Outra atividade que gosto é ir ao cinema, mas tenho frequentado pouco - os últimos a que assisti foram “Cisne Negro” e “O Discurso do Rei”. Desde que fecharam os cinemas Guion do aeroporto passei a ir menos ao cinema, porque considerava o local bastante prático, e os filmes, em geral, muito bons. Meu filme preferido, se tivesse que apontar apenas um, é “O céu que nos protege”, de Bernardo Bertolucci. Ali é possível se deparar com o sublime. 


Leituras - Leio muitas coisas que são obrigações do ofício, como dissertações e teses. Atualmente estou trabalhando, na pesquisa, textos literários de dois autores: Flávio Tavares e Ariel Dorfman, este último um escritor chileno. Tenho explorado bastante a literatura de testemunho e recentemente li uma obra da argentina Tununa Mercado, “Em estado de memória”, publicada em Buenos Aires em 1990, mas traduzida apenas agora para o português.

Alguns autores me chamam atenção e eu sigo perseguindo-os, como Ítalo Calvino – gosto muito de “Cidades Invisíveis” e “Por que ler os clássicos”. Milton Hatoum, um autor brasileiro de origem libanesa, é um grande escritor. Ele tem uma produção pequena, muito intermitente, mas todos os livros muito elogiados e premiados.
Aos poucos, reconheci na literatura de imigração muitos dos fragmentos da minha trajetória familiar, o tipo de funcionamento da família, as relações sociais, as atividades profissionais, especialmente o comércio. Gosto muito do seu livro de estréia, “Relato de um certo Oriente”. Estes temas também encontramos nas obras de Raduan Nassar, que escreveu o livro “Lavoura Arcaica”, um dos relatos mais dramáticos que conheço, tratando de conflitos familiares, e que virou filme. Caio Fernando Abreu também tem textos lindos, especialmente os volumes de crônicas de sua última fase e o livro de cartas publicado postumamente.


Sonhos - Acho que não tenho muitos sonhos. Diferentemente da maioria das pessoas que conheço, não tenho especial interesse por viajar. Especialmente porque eu odeio aviões. Quero viver uma vida tranquila, estar com as pessoas de quem eu gosto, construir uma carreira com seriedade e comprometimento e ter o reconhecimento entre meus colegas da História. Eu vivo de afetos. Preciso me sentir interpelado pessoalmente e afetivamente pelas pessoas. Isto é o que me move.


IHU - Não acompanho muito de perto o funcionamento do Instituto Humanitas Unisinos, mas sempre percebemos que o IHU é um lugar privilegiado para a construção do conhecimento, para a discussão de questões que, muitas vezes, não encontramos pautadas no dia a dia e no cotidiano da sala de aula. Além disso, ele se destaca pelos eventos internacionais, quase todos de grande porte. Também considero a revista muito interessante, porque mantém qualidade em edições semanais, o que é uma coisa rara de se ver, especialmente fora do circuito da grande imprensa. Eu sempre passo os olhos por ela.

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